Pesquisar este blog

domingo, 31 de maio de 2015

CONTRATO

Explicações.
Justificar a simplicidade.
Embasar decisões, pilares.
Finalmente, abrir os braços.
Tremer ante as próprias indecisões.
Comicidade.
Arrepios seculares.
Coração aos pedaços.

Regras, forma, estações.
Falta de agilidade.
Tremores capilares.
Quadrados, compassos.
Interrogações.
Inversão de prioridades.
Respiração, outros ares.
Novos espaços.

Embriões.
Ansiosa verdade.
Preto no branco, esgares.
Desatamento de laços.
Súbitas exclamações.
Verdadeira ansiedade.
Linhas escritas aos pares.
Cláusulas e parágrafos.
Controladas diversificações.
Elasticidade.
Rústicos ditos luminares.
Correntes de aço.
Imposições.
Letras espalhadas à vontade,
em todos os lugares,
a cada passo.

Obrigações.
Inflexibilidade.
Cadeia de pensares,
cela de palhaço.
Tantas obstruções.
Tanta responsabilidade.
Mesmo assim, onde assinares,
estarás impondo o próprio traço.


[Adhemar - São Paulo, 16/10/2010]

sexta-feira, 29 de maio de 2015

IR

Sinto-me só, às vezes, e fraco
para enfrentar essa solidão.
Por outro lado fico preso
em meus próprios tentáculos,
sorvendo minha própria energia
que gera outra energia
que torno a sor­ver
que torna a gerar
e a sor­ver e a gerar e a sorver...

Falta aquela vontade indomável
que, sempre prometo,
um dia vou ter.
Às vezes me assusta a grandeza do mundo
e sempre me enoja a sua pequenez.
Sinto-me preso, oprimido,
transpirando um suor quente.
Um inferno insuportá­vel,
crescendo e diminuindo a cada instante,
quero gritar.

Aí,
o grito sufocado suplica:
- cala-te e deixa passar...



[Adhemar  - São Paulo, 27/02/1984]

quarta-feira, 27 de maio de 2015

RIO DE ANTIGAMENTE

[Foto de arquivo: Rio de Antigamente]

Ah, nostalgia...

Depois de ler alguns textos antigos e ouvir bela música da bossa nova fico me perguntando se ainda existe essa conversa boa todo fim de noite num bar do Leblon...

Lembro-me no Rio, descendo do Pão-de-Açúcar numa madrugada adentro e caminhando a pé até um boteco aberto, conversando amigavelmente com ex-estranhos... Pegando um táxi até o hotel, e o motorista lentamente pela orla... O hotel era na Glória e todo o Rio de então fazia jus ao nome desse bairro.

Ver jogo de bola no velho Maracanã, eu tive este privilégio. Entrando sob a marquise e me deparando com o maior do mundo...

O constante quente do clima, a sempre linda paisagem nesse arco-íris de céu, mar, areia, asfalto e morros – que então ainda eram verdes de mato, as favelas estavam na sombra.

As mulheres generosamente sensuais, a rapaziada solerte e galhofeira com resposta pronta para todas as perguntas do paulista deslumbrado...

Bom, isto foi no século passado e está guardado no meu baú do pra sempre...



[Adhemar – São Paulo, 12/06/2013]

sexta-feira, 22 de maio de 2015

RAÍZES

Feridas cicatrizadas ainda ardem.
Resta um nó dolorido no dorso da mão.
Dedos fechados não sabem o que seguram.
Rolam as letras, lágrimas e desilusão.

Intenso vazio interior se difunde.
Uma fome cruel, estranha e intensa.
Turbulência inoportuna e tensa
que perturba, assombra e confunde.

Perfume abstrato obstrui pensamentos.
A dor do caminho que às pernas encurta.
Apoio de frente, avantes momentos.
Encorajador, criador, mas assusta.

Olhos inchados estão ainda chorando
um nó dolorido no centro do peito...


[Adhemar - Sobrevoando a BA, 06/04/2014]

terça-feira, 19 de maio de 2015

AGENDA

Preciso me lembrar de umas coisas; amarrando a fita no dedo, deixando anotado em um bilhete guardado no bolso. Preciso esvaziar os pensamentos e começar a pensar do zero. Começar por um grão de areia - logo depois do zero.

Preciso olhar mais a paisagem. Estou numa sala com uma parede inteira janela. Não procurar o que talvez exista, mas, de repente não interessa...

Preciso me colocar como sou. Respeitar e ficar nisso, mesmo que os outros estranhem. Preciso organizar as ideias e ouvir o que dizem - prestar atenção - pra devolver o que pedem. Sem máscara ou escudo, só com o que for autêntico; original, por assim dizer, inerente ao que sou.

Preciso aprender inglês - de verdade. Não dá mais pra fingir que é supérfluo. Por onde andei, era bom que soubesse. Preciso consolidar uma posição de ideia, voltar a defender algum ideal. Não há mais tapete ou móvel onde eu caiba embaixo. 

Preciso aprender português também...


[Adhemar - São Paulo, 10/11/2011]

sexta-feira, 15 de maio de 2015

QUIRERA

É migalha, é fagulha,
é faísca, é minúcia.
É astúcia, é amostra,
é a tralha, angústia.

Grão de areia,
detalhe pequeno,
raio de luar,
gota de sereno.

A formiga, o pózinho,
um floco, a semente.
Lasquinha, restinho,
saquinho de alpiste.

Uma nesga, um teco,
um fiozinho, um pelo.
Um naquinho, um treco,
papelzinho, um selo.

Só um bocadinho,
só um pedacinho,
uma miniatura,
um pequeno mistério.

Micróbio, uma célula,
um átomo, um íon!
Pequenitude infinda
micro-mundo maquete!!!


[Adhemar - São Paulo, 31/01/2010]


terça-feira, 12 de maio de 2015

LUPA

Encontrei mais perto
passo a passo
olhar fixado no chão
na trilha
rastro ou pegada não
sintoma, pressentimento
fantasma, forma difusa
torpor do esquecimento
confusa

Indícios, migalhas
iscas de ilusão
condecorações, medalhas
virtude é condenação
seriedade que espalha
fraquezas, franquias
prejuízos e perdição
meneios e manias
confusão

Encontrei mais perto
infinita distância
o impossível e o não


[Adhemar - Santo André, 28/08/2014]

segunda-feira, 4 de maio de 2015

INUTILIDADES HERÓICAS

Tenho investido tanto
de um precioso tempo
em intermináveis discussões.
Palavras em grandes ondas
tentando mais convencer a mim mesmo
do que aos meus incrédulos interlocutores.

Tenho investido tanta energia
de uma escassa força
em hercúleas tarefas e arrumações.
Mudanças necessárias, atrasadas,
para conforto dos circunstantes
merecedores dessa atenção.

Tenho resistido a certas dores
e a algumas tentações;
sair correndo gritando,
ficar imóvel, deitado...
Passar o dia pensando
e só tomar chá.

Tenho contrariado o destino
de fama, fortuna e glória
sendo... 
Apenas mais um.


[Adhemar - São Paulo, 15/10/2010]

sexta-feira, 1 de maio de 2015

DEZ

Mãos doloridas
em breves espaços
um tanto perdidas,
sem laços...

Mãos estendidas,
apelos, abraços,
luvas coloridas, 
pedaços...

Mãos calejadas,
trabalhos esparsos,
vão bem marcadas
de traços...

Mãos espalmadas,
febris ou curadas,
vão agitadas
no aceno de adeus...


[Adhemar - São Paulo, 19/03/2015]