domingo, 27 de dezembro de 2015

CLARIDADE ABSOLUTA

          A luz veio entrando. Primeiro por uma fresta, entreaberta porta, a luz num filete fino.

          Dois olhos espreitam desde dentro, na parte escura. A fresta se amplia. A pequena faixa de luz aumenta. Um aumento gradativo, arrepiante, emoção suspensa na agonia da surpresa.

          Mais um pouco e pouco a pouco a luz misteriosa e quente vai ampliando seu domínio no reino escuro dos dois olhos "expectantes"... Vibram com a possibilidade de uma nova visão; pois nesse quarto úmido, escuro e sem janela, algo vai acontecer.

          Retinas atentas, cristalino brilhante.

          Dir-se-á que a porta já tem mais de metade aberta; a atrevida luz quase toca o limiar da amplitude do olhar interno e intenso.

         De repente, a porta escancarada. A luz entra de chofre e ofusca o olhar tão ansioso. Pregados os ombros na parede, os olhos piscam fortemente para acostumarem com a nova condição: luz e ar vindo de fora, o sol brilhante iluminando a brisa da manhã.

          A luz dourada, após o impacto, começa a tomar forma delineando uma visão. Raios da aurora desenhando uma sombra - vulto escuro - que mal se vê e que irradia tanta claridade...

          Fecham-se os olhos e o homem passa a enxergar com o coração. De repente, a forma se define: é uma Rainha descendo de um altar, em oração. Formas difusas num vestido alaranjado, espáduas nuas e um sorriso, um olhar; são olhos lindos, reflexos obtidos na superfície do mar.

          Estrela-do-mar, no centro da luz que invadiu o cárcere privado de um cativo da emoção...

          Rainha coroada, território ateu. Rainha abençoada, alcança os teus súditos fiéis e apaixonados...


P/ SM
[Adhemar - São Paulo, 08/12/1988]

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