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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

HERANÇA

Vamos vencer as revoluções
depois vamos nos transformar;
soltar os nossos dragões
e voar.

Vamos liderar os motins,
depois vamos nos embrenhar
em matas cheias de ilusões
e lutar.

Vamos começar as rebeliões,
vamos contornar os por quês;
vão nos revelar as mãos cheias...
de buquês.

Vamos propagar as insurreições.
Vamos questionar as religiões?!
Vamos comprar um pouco de fé,
ou até...

Vamos extinguir as guerras,
as mãos leves, os pés breves.
Vamos enxugar das feridas
nosso ardor...

Vamos vender nossos ideais,
nos acomodar em nossas poltronas
convencidos de não poder lutar mais...
Como os nossos pais...*


* Como disse Belchior.
[Adhemar - São Paulo, 14/01/2010]

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

"RE-CICLO"

"Dentro da névoa"
https://pixabay.com (intographics)

Vem lá de dentro
uma coisa indefinida
Sai de qualquer jeito
diz adeus

Não acena
nem olha nos olhos
diz adeus
e sai de cena

Mergulha sobre si mesma
rumo ao desconhecido
Nada de despedida
nem um papel

Vem lá de dentro
um vazio indefinido
que a coisa deixou lá
sem oi

Não há substituição
Não há matéria mais
nem alma nem condição
nem dica do que virá

Vem lá de dentro
um vazio invisível
que gesta outra coisa
pra se despedir

É preciso vir de fora a semente
silenciar
recomeçar
até tudo se repetir...


[Adhemar - São Paulo, 24/05/2014]

terça-feira, 28 de novembro de 2017

RASTREAMENTO

Uma nova órbita estelar,
uma trilha na montanha,
outra rota no mar.
Um sinal que acompanha,
um pulso, um quasar.
Partícula de matéria,
parece que a coisa é séria,
se esconde em qualquer lugar.
Um disfarce de mulher,
um esconderijo impopular.
Roteiro aleatório e vulgar,
um barco pra navegar fé.
Um sinal que alcança
o pulso do radar;
um sinal de esperança,
uma chance de encontrar.
Um recôndito recôncavo;
profundo, especular,
desligado e desconexo,
completamente fora do ar.
Um grande sinal do Universo,
impossível de captar.
Se não pegou nesse verso,
em nada mais vai pegar.


[Aadhemar - São Paulo, 10/01/2010]

terça-feira, 21 de novembro de 2017

CASA

Tudo passou tão depressa...
Uma surpresa tão linda...
E, finalmente, a saudade...

Um no outro ficamos
morando tão docemente...
Mas...
A vida ensinou a prudência
que inibe a intuição...

Tudo passou tão depressa...
E... 
Nos falta agora o carinho
daquele momento tão bom.

Mas... 
Podes crer no destino:
já moras no meu coração.


P/ MBM
[Adhemar - Pedro Juan Caballero, 27/07/1987]

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

ROTINAS

[Olhos_castanhos (arquivo de imagens da internet)]


Te encontrei ontem,
por acaso,
muito longe daqui.
Pra variar,
você bem na minha frente;
me olhando nos olhos,
como sempre.

Sustentei teu olhar,
olhos nos olhos;
tentando decifrar teus pensamentos,
teu sorriso,
teu ar enigmático e conciso.
Lembrar teu passado
e pensar presente.
Você lá, firme e parada,
olhando nos meus olhos,
como sempre.

Suspirei.
Não disse nada, nem tentei.
Mais uma vez te olhei,
olhos nos olhos,
fixamente.
Em seguida,
o álbum de fotos fechei;
e chorei o que tenho chorado,
como sempre...

[Adhemar - São Paulo, 17/03/2017]

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

METÁFORAS

Metáforas.
Fortes ou fracas.
Sutis, felizes ou opacas.
Explícitas, compactas.
Moeda de troca dos poetas.
Firmes.
Terríveis.
Incompletas.

Metáforas.
Bases de sonhos.
Operações delicadas.
Claras, inteligíveis, simpáticas.
Matemáticas.
Resumidas, práticas.
Metafóricas.
Sinceras.
Erráticas.

Metáforas.
Absurdas, enigmáticas...
Frutos ou sementes?
Promissoras.
Misteriosas.
Emblemáticas.

Metáforas.
Licenças poéticas,
sentidos adormecidos.
Simplificadas ou dialéticas.
Preferenciais ou sorumbáticas.
Paralelas.
Incorrigíveis.
Performáticas...


[Adhemar - São Paulo, 04/08/2017]

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

PATIFARIA MALANDRA

          A segunda parte do fato repetido. A traição da lembrança, o abandono. O raio que rompe o silêncio, o grito que causa o brilho. Estranho sentimento. A rima implícita no pensar. Escorre um líquido no peito, um pronto desaparece. A oração fora do modelo, a forma dentro dos ideais. O meio comporta o morto, aqui jaz um alienado. O fim nunca se justifica, nada há para explicar. O mau tempo alimenta, o medo é que faz diferença.

          Uma grande fechadura encerra mistério e arte. Curiosidade inerte, aflita e angustiada. Não dá pra rir dessa interferência. Mão levantada na plateia, anel brilhante. O reflexo que se mostra na pupila às vezes some. Roubar o mosquito da teia. A fome da aranha. Aprofundar o conhecimento. Encalhar. Braços abertos em cruz, nada de nadar. O fato elegante. A roupa da missa. A lista. O acréscimo da frase. O que significa. A relatividade do tempo. O vaso vazio. A carga caída, a mula empacada. Receita de bolo. Um ovo.

          A terceira parte do fato repetido. Trovões e tempestade. Um ritual pagão e a festa religiosa. Crença exposta. Tantas afirmativas sem perguntas, filosofias utópicas. Onde o mundo faz a curva, o horizonte entorta. A cabeça vai cheia de respostas. 

          As infinitas partes do fato que não se acaba; que vira notícia, novela ou conto. Pode ser mentira, romance, calçada. Pode ser uma fama fria ou só um grande tanto de palavras sem nenhum significado. Querendo dizer nada. Ou querendo dizer: nada!


[Adhemar - São Paulo, 09 a 30/10/2017]

domingo, 15 de outubro de 2017

OPÇÕES

          Assim, na continuidade do cotidiano irrefreável, um descontrolado choro de saudade do que não aconteceu; uma extraordinária saudade do futuro!

          Assim, viver o amanhã esquecendo hoje; a fome de hoje, o sono de hoje. Viver as delicadas relações sociais apenas para plantar, plantar e plantar. Mas o amanhã nunca chega; deixa-se apodrecer no pé tudo o que foi cultivado enquanto se pensava pra frente. Daí não se vê o entorno, o atual, as peculiares e maravilhosas circunstâncias de se viver o hoje, o agora, o aqui.

          Assim, é possível decidir entre mergulhar nessa pressa insana e doentia ou haurir em grandes sorvos cada momento; colher a tempo cada bendito fruto do que foi feito antes, com atenção e amor. Absorver os duplos e triplos sentidos das situações; desprender do tempo inalcançável o nosso perfil de viver. Somos muitos, há muita gente para fazer o mundo; não precisamos fazer tudo e nem sozinhos. O que começou lá pode bem acabar aqui. O que não está começado não tem pressa. Leia, o próximo escrito, amanhã.


[Adhemar - Santo André, 30/08/2005]

sábado, 7 de outubro de 2017

"MATRISTIZES"

Luz transversa.
Afinidades forçadas.
Procuradas entrelinhas.
Platão absoluto,
resoluto, outras vidas.

Vidro opaco.
Vidraça aberta.
Garrafa derrubada de outras vinhas.
Cadeira que sentada,
uma estrada e muitas linhas.

Olhos turvos.
Lágrimas secando ressentidas.
Porta fechada.
Pedra surda,
muda a vida.

Verso inverso.
Afinidades inventadas,
desesperadas e mortinhas;
qual a esperança,
desencanto e mão vazias...

[Adhemar - São Paulo, 22/02/2017]

domingo, 1 de outubro de 2017

PROFISSÃO: PRESTIGITADOR

Assim como tantos, deixei-me aprisionar pelo convencional, pela formalidade implícita nas relações comerciais. Assim como tantos, descobri que essa realidade é a máxima dedicação empregando o máximo conhecimento que pudemos acumular para bem servir a troco de um mínimo - costumeiramente - de remuneração. "É o mercado", dizem sempre os beneficiados.

Assim como tantos, aprendi que o "mercado" são outros tantos profissionais desesperados, oprimidos e necessitados que acabam competindo às avessas nesse leilão invertido em valores na demanda de serviços. Assim como tantos, precisei viver como um mágico para sobreviver pagando contas e reinventando truques para me manter e à família.

Assim como tantos, estou precisando tirar um elefante da cartola.



[Adhemar - São Paulo, 25/09/2017]

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

ANÚNCIO / APRESENTAÇÃO

Prezados;

                Meu nome é Adhemar Braga de Souza, arquiteto. Tenho a enorme satisfação de apresentar minha experiência em fazer projetos arquitetônicos detalhados e estudos de produtos imobiliários residenciais, comerciais e industriais. Além disso, tenho grande facilidade em redação, criação de textos e inventar histórias! Ou seja, uso a imaginação e a criatividade com bom humor e grande empenho de produção.

Estou tentando fugir do comum, mas... O que é o comum?! Procuro os mais variados ângulos ao me defrontar com uma tarefa, ou um problema. Analiso o que estou fazendo com base no que se passou antes, no que é neste exato instante e nas infinitas possibilidades do que pode acontecer ou se transformar. Todo quadro já foi uma tela em branco, não é mesmo? Além do mais, aprender coisas que não sei para incluir ou ajudar no que estiver fazendo é um enorme prazer pra mim.

Escrever, projetar e viver são as coisas que mais gosto de fazer; acho até que as faço razoavelmente... O que não sei fazer é cozinhar, em geral, e churrasco (embora tente amiúde, para desespero dos meus circunstantes); nas demais tarefas do lar até que me saio bem, mesmo não sendo exatamente um entusiasta delas... Detesto frequentar órgãos públicos (qualquer um, por qualquer motivo) e hospitais. Mas quando é inevitável, respiro (ou suspiro?) fundo e encaro. Adoro viajar. Não sou muito bom em consertos domésticos embora meu pai tenha ensinado muita coisa e eu tenha passado muito tempo em obras; mas, uma lâmpada queimada em casa leva semanas para ser trocada. Ruim pra ser dito num anúncio, mas infelizmente é verdade! Falando em obras, não tenho mais paciência e nem saúde pra elas. Doravante, prefiro manter delas uma respeitosa distância. Caso interessar possa, gosto de dirigir com segurança, economia e rapidez (nessa ordem); minha carteira de motorista, aliás, é categoria D.

Entre meus objetivos de vida estão, principalmente, proporcionar uma base sólida de formação aos meus três filhos, para enfrentarem o mundo. Tarefa quase cumprida já, só falta o caçula acabar o colégio e se encaminhar no que quiser fazer depois. Aí, formar uma condição mínima de conforto financeiro para os anos vindouros a fim de viajar muito com minha esposa e ter uma vida simples, sem sobressaltos (se for possível...), com tempo pra cuidar dos netos, caso eles venham e os pais, precisando, quiserem confiá-los ao avô. Adoro estar com os parentes mais próximos e com amigos, seja em reuniões familiares, confraternizações ou estádio de futebol (apesar do trabalho que dá ir ao jogo). Dentre os animais, o que mais aprecio é o tigre. Sei lá porque me lembrei disso... Não me vejo um aposentado, sem trabalhar. Gostaria de poder ficar escrevendo eternamente.

Para finalizar: considero-me um aventureiro focado! Caso possa ser útil em alguma função, estou à disposição! Agradeço a oportunidade de me apresentar.

Cordialmente,

Adhemar Braga de Souza
arquiteto
Tel. (11) 99800-7772

Facebook: https://www.facebook.com/adhemar.bragadesouza.3

[Adhemar - 28/09/2017]

Profissão: prestidigitador 

Este texto faz parte de um processo que resolvi participar para redefinir rumos profissionais. Pra reafirmar - ou desmentir - certos pendores... A quem se interessar, recomendo o trabalho interessante de Janaína Paula, encontrável em:
 http://www.repensesuacarreira.life/ e http://www.facebook.com/repensesuacarreira/.
#janainapaula
#reflexaoeacao
Se alguém, lendo este post, tiver alguma sugestão, pode fazê-la nos comentários abaixo. Será um grande prazer saber a sua opinião.

Muito obrigado, 

Adhemar

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

PROXIMIDADE

Coração.
Se tens asas, voa.
Voa pra longe
de uma fonte que secou.

Coração.
Se tens velas, enfuna-as.
Velejar pra longe
te consolará.

Coração.
Se tens amor, ama.
Cada um entregará de si
o que tiver pra dar.


[Adhemar - Corumbá, 25/07/1987]

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

CONSTELAÇÃO ARTIFICIAL

Fui lançado pro espaço
abraçado a uma ogiva nuclear
de forma definitiva,
formidável e espetacular...

Fui explodido
em centenas de milhões de pedaços;
radioativos, atrevidos,
brilhantes, cintilantes, comovidos.

Fui promovido a constelação
desprovido de quaisquer humanos fatos;
orbitando inconsciente novos astros,
Via Láctea, Via Sangue...

Fui voando,
tal cometa em suas rotas orbitando;
erroneamente me perdendo, 
empolgado e brilhando.

Fui fixado
num mapa estelar classificado;
os astrólogos interpretando
meus pedaços espalhados pelo espaço.

Fui ficando no Universo
influindo numa zona de zodíaco:
estrelas-palhaço,
constelação Circo...


[Adhemar - São Paulo, 25/05/2015-22/02/2017]

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

APOSTAS FEITAS...

Olhares diretos,
pensares enviesados.
Cartas distribuídas, 
blefe na mesa.

Risos forçados.
Ar de fumaça e álcool.

De repente, um tiro!
Música parada,
uma cadeira caída;
silêncio e escuridão.


[Adhemar - São Paulo, 31/07/2008]

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

COLCHETES

Ingrediente suave e saboroso
Um rumor de vento
de folha de tempero
prato primoroso

Ponto e nota
atento num gesto vigoroso
Ciclo e giro inteiro
Vento, num sopro rigoroso

Abraço e busca
na circunavegação completa
O mundo nos pedais
na rota de uma bicicleta

O aceno está no ar
num gesto que se solta
no sabor do tempero
- e do amor
que ora está de volta!


[Adhemar - São Paulo, 05 a 07/07/2017]

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

SENTENÇA

Não sei por quais excessos
fomos condenados,
ou por quais faltas...

Fomos condenados por cometer poesias inúteis, talvez?!
Fomos condenados por faltar com a verdade
oferecendo ilusões... em versos?!

Enfim, não sei,
condenados,
por quais faltas ou excessos.

Excesso de otimismo?!
Excesso de um romantismo cafona,
fora de moda?!
Ou por paixões fora de hora?!

Talvez tenhamos sido condenados
por amar a tanto tempo impunes...
Ou por doação ilegal do próprio coração...

Por quais motivos de opressão terrena
carregaremos essa cruz de sofrimento e dor?!
Será que foi porque nos devotamos
indevida e cegamente ao amor?!

Quem nos julga?!
Como vivem?!
Não se comovem diante da fraqueza
ou da fortaleza que nos transformou?!

Beijos roubados, 
abraços claros,
lágrimas sinceras...

O que consta nos anais dessa condenação?!
Qual a pena?!
Danação no inferno
pelo pouco que nos resta desta vida eterna?!


[Adhemar - São Paulo, 24/07/2017]

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

FLUTUAÇÃO

História vermelha recontada.
Revelada, roubada, inventada;
história vermelha e ousada
perdida num balanço, anoitecer.

Estrelas temidas recolhidas,
tímidas, furtivas e molhadas.
Orvalho da madrugada orgulhosa
e brilhos no alvorecer.

Migalhas pequeninas espalhadas,
cobiçadas por quem quer esquecer.
Reveladas, orgulhosas e furtadas
numa nesga do amanhecer.

História, vermelha e requentada,
pernas cruzadas, inquietas, a tremer;
bocas fechadas a sorrir secretamente
de tudo que, como o dia, vai nascer...


[Adhemar - São Paulo, 18/04/2016]

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

FANTASMAS

Antenas diabólicas
passado capta
captando passa
diante dos olhos

Histórias hiperbólicas
passarelas gastas
passos da história

Janelas simbólicas
emboladas paisagens
capturadas no diafragma
suspiro das viagens...

Paradas parabólicas
a moral se acha
escrachada, imoral...

Pesquisas robóticas
rouba-se ideias claras
iluminadas e raras
diante dos olhos...

... Nas calçadas melancólicas...


[Adhemar - São Paulo, 05/08/2014]

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

SUCEDÂNEO

Vento brando
espalhando palavras
refrescando

Sol amigo
trigo dourando
pão garantido

Céu azulando
emoldurando tudo
desmaiando

A noite vem
A noite deita
Anoitecendo...


[Adhemar - São Paulo, 04/08/2015]

terça-feira, 1 de agosto de 2017

QUERIDOS

Tudo o que eu não sei me pesa,
me afronta, não basta.
Queria eu não saber mais coisas.

Quisera eu vasculhar baús,
revolver mistérios.
Atrair tons sérios de cores neutras.

Quisera noutras vasculhar os cérebros.
Os mais célebres, por certo,
ou os mais por perto.

Quisera eu perturbar espíritos,
vislumbrar auras,
declamar versículos...

Queria eu escrever artigos
ou apreender amigos
e queimar uns livros...

Tudo o que eu não sei me enche
de uma clara ignorância calma;
e para tudo o mais que eu não sei
eu bato palmas...


[Adhemar - São Paulo, 06/07/2014]

sexta-feira, 14 de julho de 2017

CANCELAMENTO

Suspenda os planos que não fizemos pra depois.
Suspenda a fuga que nós nunca planejamos.
Cancele as passagens que ainda não compramos.
Desfaça as malas que a fazer nem começamos.

Pare tudo o que nunca combinamos.
Esqueça as palavras que nós não escrevemos
e nem sequer pronunciamos...
Esqueça essa velha paixão inesperada
que juntos despertamos... só em mim...

Deixe pra lá o que eu não disse nem diria.
Deixe pra lá o que eu não fiz e nem faria.
Eu digo que entre nós está tudo acabado,
o que deveras jamais houvera começado...


[Adhemar - São Paulo, 06/03/2017]

quarta-feira, 12 de julho de 2017

SONETO 43 (*)




Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minh'alma alcança quando, transportada,
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do Ser, a Graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.

Amo-te com o doer das velhas penas;
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingênua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,
Ainda mais te amarei depois da morte.


- Elizabeth Barrett Browning - 
(Tradução: Manuel Bandeira)

[Fonte: Wikipédia]

(*) Ver o primeiro comentário

terça-feira, 11 de julho de 2017

AMA-ME POR AMOR DO AMOR SOMENTE

SONETO XIV

"Ama-me por amor do amor somente.
Não digas: “Amo-a pelo seu olhar,
o seu sorriso, o modo de falar
honesto e brando. Amo-a porque se sente

minh’alma em comunhão constantemente
com a sua”. Por que pode mudar
isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
do tempo, ou para ti unicamente.

Nem me ames pelo pranto que a bondade
de tuas mãos enxuga, pois se em mim
secar, por teu conforto, esta vontade

de chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
me hás de querer por toda a eternidade."


- Elizabeth Barrett Browning -
(Tradução: Manuel Bandeira)

[Extraído do blog "MEU CADERNO DE POESIAS"]
http://blogdasilnunes.blogspot.com.br/

- Ver original em inglês no primeiro comentário (Fonte: "poesia.net 119").

sexta-feira, 30 de junho de 2017

DEPOSIÇÃO

Um pequeno espaço,
um cilindro fino
onde cabe tinta que se derrame
numa folha minúscula

Uma programação descuidada
um desabafo apertado
uma conversa fiada,
rumo perdido no mapa errado

Prosa misturada com verso,
página saltada
A mão pesada, cilindro leve
tinta impressionada

Um teste, uma prova, um indício
que não é cinza de cigarro, 
nem pegada:
só um longo caminho lá pro infinito,
numa solitária estrada.


[Adhemar - São Paulo, 08/05/2017]

sexta-feira, 23 de junho de 2017

CANHENHO

Tenho muito que fazer.

Quando me lembro, não tenho condição. Quando tenho tempo, não me lembro. Se tenho tempo e me lembro, aparece algo mais urgente...

Esse muito que fazer...

Tarefas, obrigações, caprichos. Esquecimentos, programações extemporâneas, lembranças tardias. Um acúmulo estranho de compromissos e tarefas mal distribuídos numa agenda cheia de rabiscos. Meus "compromiscos", como costumo dizer.

Tenho muito que fazer.

E sempre arranjo outra coisa. A idade serve de escudo para certas intransigências. Já fui mais gentil e solícito outrora, agora não mais; senão, seria um tanto muito maior este tanto por fazer.

Tenho muito que fazer.

Fiz uma lista. No auge das urgências iminentes de parte deste muito o que fazer, dou uma parada para conferi-la.

Tenho muito que fazer.

Sempre mais e mais, confundindo sonhos com obrigações, cansaço aleatório e lazer.

Tenho muito que fazer.


Depois eu vejo exatamente o quê.


[Adhemar - São Paulo, 04/10/2016]

quinta-feira, 22 de junho de 2017

DESINTEGRAÇÃO

Depois de se perder, fragmentar
Não se achar
Desiludir da unidade esquecida
substituída

Remendos impossíveis
Transformar em outra coisa;
ainda que indesejada
sucumbir...

Morrer dentro de si mesmo,
insepulto
Engolir o insulto
Procurar-se nos resíduos
sem saber mais o que são
(ou o que foram)

Contemplar dilacerado as cinzas
os coringas
Braços abertos, mangas expostas,
respostas

A transparência invadindo
o que éramos sumindo
Ainda vivos
sem voz audível
Dados como mortos
num enterro impossível.


[Adhemar - Santo André, 13/08/2014]

quarta-feira, 31 de maio de 2017

FUNÇÕES

Azul em verde vermelho
acontecendo
Abraço pedaço d'espelho
apelando
Quente noite tarde
acinzentando
Sentimento par-ou-ímpar
se perdendo


Verde em brancas pretas
vai jogando
Cavalos reis rainhas
aborrecendo
Oceano largo mar
anoitecendo
Lúcido cristal vidro
se quebrando

Velas estufadas acesas
balançando
Chamas fogo vivo
ardendo
Ouro mirra incenso
rescendendo
Tarde noite quente
transformando

Acessos em portas portões
batendo
Passeios alamedas caminhos
caminhando
Plantas arbustos flores
se despetalando
Água chuva orvalho neve
derretendo

Palavras rimas versos
se escrevendo
Perversos maus controversos
se desesperando
Otimismo força audácia
vão ressuscitando
Esperança paz amor
estão nascendo...


[Adhemar - São Paulo, 31/05/2014]

segunda-feira, 15 de maio de 2017

VISADAS

Espaço organizado
arte pichada em muro
desenho claro
fundo escuro

Urbano caos
lógica deslocada
fundo do poço fundo
balde mergulhado

Transtornado entorno conturbado
desordem arrumada
mapa do mundo
festa programada

Entendimento pressuposto
traço torto
torto risco traçado
morto posto tracejado

Ansiedade acima do limite
abraçado pensamento abstrato
espaço prato
arroz jantado...


[Adhemar - São Paulo, 12/05/2014]

terça-feira, 2 de maio de 2017

"PROMOTIVOS"

Cá entre nós
vida e exercício
o cadafalso e o algoz
a tortura e o suplício...

Qual o próximo será
deveras seriamente
procurando aonde estará
futuramente...?

E mais não seja 
além do que já é
na palavra onde deseja
um café...

Solta no ar a pluma
em bolhas de sabão
de tanta espuma
e contramão...

No sentido inverso
de fé há uma prova:
existe o universo
e a trova...

Princípio e fim
na decadência
então assim
inconsciência...

Linha de base
linha de fundo
fim da frase
fim do mundo...

O principal aviso
não é último nem segundo
multipartes, indiviso
e... fecundo...

Cá entre nós
exercício curto
ânimo feroz
um anti-surto...


[Adhemar - São Paulo, 03/04/2014]

quinta-feira, 13 de abril de 2017

CHORO

É passado o futuro
num eterno presente
num apuro constante
num augúrio contente

É passado o presente
num ardor consciente
estacado e cortante
anúncio importante

Um doce envolvente
isolante e impuro
do amor indolente

Grande apreço e paixão
visão mais adiante
lágrima do coração...


[Adhemar - São Paulo, 04/03/2014]

terça-feira, 4 de abril de 2017

TERMINAL

Ausência anunciada
certeza perdida
falta apresentada

Justiça emprestada
fugidia vida
presença registrada

Marca colorida
norma desregrada
palavra embevecida

Dúvida emprestada
sentença recorrida
longa plana estrada

Curva dolorida
vista embaçada
súbita subida

Certeza algemada
persona dividida
ciência desbancada

Trajetória errada
alma endurecida
revista rasgada

Saudade incomodada
paixão envelhecida
marca registrada

Patente vencida
atitude ilhada
coisa parecida

Fina, estampada
estátua vestida
base arraigada

Certeza alquebrada
ausência eternizada,
Adeus, minha querida...


[Adhemar - São Paulo, 01/03/2014]

quarta-feira, 22 de março de 2017

VENERAÇÃO

(Imagem licenciada da internet)

Eu te queria por querer,
por fantasia,
mesmo sem te conhecer.
Eu te queria por te ver,
por desafio e desejo,
nos perder...
Eu te queria por capricho,
por inteiro.
Eu te queria feito um bicho,
faminto e traiçoeiro,
te aprisionando no meu nicho,
alcoviteiro...
Eu te queria por paixão,
idolatria;
e grande admiração.
Sempre te quis, e te queria,
por transferência e emoção,
por euforia...
Eu te queria por te amar
e por saudade,
mesmo na distância te exaltar.
Eu te queria de verdade,
em terra firme ou alto mar,
fatalidade...
Eu te queria e te quero,
catatônico;
eu te queria mas não quero,
conformado e ultrassônico
nesse meu querer sincero
mas, platônico...


[Adhemar - São Paulo, 26/10/2016]

segunda-feira, 20 de março de 2017

ÚLTIMAS

Manias, tradição, hábitos.
Manutenção de costumes.
Conservadorismo inato?
Saudades de velhos perfumes?

Reunião, encontro, protesto.
Propositivas atitudes.
Espaço pra manifesto?
Contestação de virtudes?

Acumulação e apego.
Materialismo exacerbado.
Por acaso a alma quer sossego?
Quer paz e um mundo acabado?

Televisão, novidades.
Estupefacta submissão.
Paralisia das atividades?
O espírito quer emoção?


[Adhemar - São Paulo, 08/09/2016]

domingo, 19 de março de 2017

FILOSOFIA DA DÚVIDA

Interessa saber onde estamos ou o que somos?

O coração contempla a cidade vazia com a mesma ansiedade com que te procura. Ansiedade infantil, mas tão presente, desde tempos remotos, imemoriais; mãe de uma angústia sem fim, de tantas dúvidas, do não saber onde estás.

Interessa saber onde estás?

Interessa saber o que se procura intensamente e com tanta sinceridade. Morar sob um teto vazio e imperfeito. Planejar cuidadosamente tudo aquilo que não vai dar certo. Tirar as lágrimas, que as pedras podem rolar...

Vestir o blusão com as insígnias da própria ignorância, confessando ignorar onde estás. Importa tanto saber onde estás... Não saber onde estás é também não situar-se. Tateando na cidade vazia sob a noite chuvosa e triste, te procurando nas luzes refletidas pelas poças d'água.

Insatisfação do insucesso da procura... Se ao menos dissesses outra vez as tuas últimas palavras renovando os teus votos de nunca mais... Se ao menos aceitasses o quadro, que é o teu próprio espírito sombrio, de presente... Se ao menos mencionasses a palavra que liberta...

Interessa saber tanta responsabilidade?

Se ao menos a solidão não fosse tão pesada... Pesada, opressiva e pensativa... Sumiste da tela do radar como um aeroporto em dia de névoa. Ou és a névoa, talvez... Resides nesse mistério que a existência não revela, no final da linha invisível que une o princípio ao fim de tudo, todo o sentimento despertado e desprezado.

Interessa saber a sepultura?

Depositado em cova rasa, terra misturada com cinzas tão finas... e a cada palavra mencionada, a certeza que, do torrão fatal, há de brotar algo forte e imorredouro que nem todo o esquecimento possível irá destruir. Apenas o tênue cansaço da procura e de escrever sem ver as letras, olhos fechados na certeza intangível de que sabes todas as palavras da procura.

Interessa lê-las?


[P/ BSF]
[Adhemar - São Paulo, 18/02/1988]

quarta-feira, 15 de março de 2017

BLOCO

Moda
Alimentando um vazio
Uma paisagem de inverno
O frio é aqui...

Rosa
Anestesia e moda fofura
Uma parceira reversa
Casa moderna...

Carta
Rosa marcada
Destino ideal
Boa leitura...

Fato
Bloqueio de operação
Experiências contadas
Carta de tradição...

Lava
Fato atacado de vulcão
Cobertura e escavação
Lembrança e relíquias...

Moda
Lava areias da praia
Badalação artificial
Bloco de emoção...


[Adhemar - Santo André, 13/08/2014]