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segunda-feira, 30 de outubro de 2017

PATIFARIA MALANDRA

          A segunda parte do fato repetido. A traição da lembrança, o abandono. O raio que rompe o silêncio, o grito que causa o brilho. Estranho sentimento. A rima implícita no pensar. Escorre um líquido no peito, um pronto desaparece. A oração fora do modelo, a forma dentro dos ideais. O meio comporta o morto, aqui jaz um alienado. O fim nunca se justifica, nada há para explicar. O mau tempo alimenta, o medo é que faz diferença.

          Uma grande fechadura encerra mistério e arte. Curiosidade inerte, aflita e angustiada. Não dá pra rir dessa interferência. Mão levantada na plateia, anel brilhante. O reflexo que se mostra na pupila às vezes some. Roubar o mosquito da teia. A fome da aranha. Aprofundar o conhecimento. Encalhar. Braços abertos em cruz, nada de nadar. O fato elegante. A roupa da missa. A lista. O acréscimo da frase. O que significa. A relatividade do tempo. O vaso vazio. A carga caída, a mula empacada. Receita de bolo. Um ovo.

          A terceira parte do fato repetido. Trovões e tempestade. Um ritual pagão e a festa religiosa. Crença exposta. Tantas afirmativas sem perguntas, filosofias utópicas. Onde o mundo faz a curva, o horizonte entorta. A cabeça vai cheia de respostas. 

          As infinitas partes do fato que não se acaba; que vira notícia, novela ou conto. Pode ser mentira, romance, calçada. Pode ser uma fama fria ou só um grande tanto de palavras sem nenhum significado. Querendo dizer nada. Ou querendo dizer: nada!


[Adhemar - São Paulo, 09 a 30/10/2017]

domingo, 15 de outubro de 2017

OPÇÕES

          Assim, na continuidade do cotidiano irrefreável, um descontrolado choro de saudade do que não aconteceu; uma extraordinária saudade do futuro!

          Assim, viver o amanhã esquecendo hoje; a fome de hoje, o sono de hoje. Viver as delicadas relações sociais apenas para plantar, plantar e plantar. Mas o amanhã nunca chega; deixa-se apodrecer no pé tudo o que foi cultivado enquanto se pensava pra frente. Daí não se vê o entorno, o atual, as peculiares e maravilhosas circunstâncias de se viver o hoje, o agora, o aqui.

          Assim, é possível decidir entre mergulhar nessa pressa insana e doentia ou haurir em grandes sorvos cada momento; colher a tempo cada bendito fruto do que foi feito antes, com atenção e amor. Absorver os duplos e triplos sentidos das situações; desprender do tempo inalcançável o nosso perfil de viver. Somos muitos, há muita gente para fazer o mundo; não precisamos fazer tudo e nem sozinhos. O que começou lá pode bem acabar aqui. O que não está começado não tem pressa. Leia, o próximo escrito, amanhã.


[Adhemar - Santo André, 30/08/2005]

sábado, 7 de outubro de 2017

"MATRISTIZES"

Luz transversa.
Afinidades forçadas.
Procuradas entrelinhas.
Platão absoluto,
resoluto, outras vidas.

Vidro opaco.
Vidraça aberta.
Garrafa derrubada de outras vinhas.
Cadeira que sentada,
uma estrada e muitas linhas.

Olhos turvos.
Lágrimas secando ressentidas.
Porta fechada.
Pedra surda,
muda a vida.

Verso inverso.
Afinidades inventadas,
desesperadas e mortinhas;
qual a esperança,
desencanto e mão vazias...

[Adhemar - São Paulo, 22/02/2017]

domingo, 1 de outubro de 2017

PROFISSÃO: PRESTIGITADOR

Assim como tantos, deixei-me aprisionar pelo convencional, pela formalidade implícita nas relações comerciais. Assim como tantos, descobri que essa realidade é a máxima dedicação empregando o máximo conhecimento que pudemos acumular para bem servir a troco de um mínimo - costumeiramente - de remuneração. "É o mercado", dizem sempre os beneficiados.

Assim como tantos, aprendi que o "mercado" são outros tantos profissionais desesperados, oprimidos e necessitados que acabam competindo às avessas nesse leilão invertido em valores na demanda de serviços. Assim como tantos, precisei viver como um mágico para sobreviver pagando contas e reinventando truques para me manter e à família.

Assim como tantos, estou precisando tirar um elefante da cartola.



[Adhemar - São Paulo, 25/09/2017]