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domingo, 16 de dezembro de 2018

PORTAIS

Passagens abertas
Pernas pra frente
Passos acelerados
Obstáculos obscuros
Saltos ornamentais
Vibrações normais

Órbitas decididas
Certezas vacilantes
Portas entrefechadas
Balanços comovidos
Emoções controversas
Conversas cortadas

Fechaduras abertas
Travas deslocadas
Águas presentes
Pressentimentos aguados
Relógios marcantes
Tempo esmagado

Formas disformes
Uniformes diferentes
Sentidos desbotados
Bocas ausentes
Ardentes manobras
Obras escoradas...


[Adhemar - São Paulo, 21/12/2011]

sábado, 15 de dezembro de 2018

TATO


Desperto refém de sensações;
da ausência de alguém...
Alguém que não conheço
ou conheço e não sei quem.

Desperto desatento
nessa busca por ninguém.
Ninguém que eu conheço
ou conheço: será quem...?!

Desperto concentrado
nessa ausência de alguém
- quem sabe quem -
não conheço ou conheço e é alguém;
alguém que não esqueço, mas não lembro:
 me emociona e vai além.

Desperto abraçado
na saudade dessa ausência
que é crueldade de alguém;
me conhece ou não conhece,
me tortura e me contém.

Desperto embevecido,
emocionado e refém...

Desperto preocupado
se esse alguém tem me buscado,
procurado ou esquecido
sem um guia, sem ninguém.

Desperto desorientado nesse vácuo;
vasto espaço, coração desocupado...

Desperto amargurado,
entristecido e solitário,
vagabundo e milionário
mas mendigo de afago.

Desperto na esperança,
no pra trás e no passado.

Adormeço abraçado
na saudade dessa ausência...
Personagem inventado
que nenhuma importância agora tem...


[Adhemar - São Paulo, 26/05/2018]

domingo, 9 de dezembro de 2018

ELEFANTA

          De repente a vida começa a exigir mais do que podemos dar; ou que queremos. Movimentos inesperados, esforços além do que planejamos; perspectivas antes impensáveis parecendo tão essenciais agora... E os pensamentos tumultuados  querendo organizar algo inimaginável levantando o ânimo para o enfrentamento. A divisão do que fica e o que vai embarcar nessa novidade desdenhada, mas, de certa forma, desejada.

         De repente a gente começa a exigir mais da vida.


[Adhemar - São Paulo, 02/04/2011]

domingo, 2 de dezembro de 2018

ISOLAMENTO

Quando a solidão invade
uma certa desorientação toma conta.
Nenhuma perspectiva se apresenta,
o ânimo se ausenta,
uma longa sonolência toma conta.

Quando a solidão se encontra
bem no meio de uma vasta multidão
a vontade se levanta,
ameaça ir embora e abre mão da cautela
no rumo de uma fuga sem ponta.

Quando a solidão se muda
para bem no centro do peito
ela ocupa.
Instala-se soberana,
altaneira, absoluta.

A solidão não mente,
não abandona,
nem se desculpa.


[Adhemar - São Paulo, 05/06/2018]

sábado, 1 de dezembro de 2018

CONSTELAÇÃO

Estrela.
Luminosa e brilhante;
pensar que era na Estrela
que se escondia o sentimento maior.

Estrela.
Refletida pelo mar,
refletida pelo encanto.
Encantado momento
onde a repousada Estrela contemplava.

Olhos negros,
profundos como o céu que a envolve.
Delicado brilho,
delicada cor.

O homem frágil, pequenino,
ficou na praia a contar estrelas.
Delas, entretanto,
apenas uma importava,
apenas uma se sentia próxima.

O homem fascinado pela força dessa Estrela
viu que ela se aproximava
sem sentir que era ele que subia.
A Estrela foi ficando maior e mais intensa
quanto mais intensamente ele a amava.

O deserto azul e fértil mostra ao longe
sua dourada e seca paisagem.
A Estrela vai fazer surgir tesouros;
vai fazer surgir de dentro dessa areia pródiga
um forte e emocionado...
e surpreendente...
amor...!


P/ SMRN
[Adhemar - São Paulo, 01/12/1988]

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

"INDAGADIVAGAÇÃO"

Onde está aquela música sublime,
tão doce, tão triste,
cantada pelos teus olhos
chamada "caso de amor"?

Onde está aquela sensação criativa,
tão doce, sublime,
dada pela tua boca
num beijo de alto calor?

Onde estão os teus olhos - e olhar -
banhados do brilho mais lindo,
profundo,
no fundo a mais bela cor?

Onde está o teu corpo inteiro, tão lindo,
de movimentos criativos
dados pela tua força
no livre exercício do amor?


P/ MG
[Adhemar, São Paulo, 18/11/1987]

terça-feira, 20 de novembro de 2018

LETRAS MIÚDAS

Escorre uma caligrafia imprecisa
Letras incompletas, advinhas
Um código secreto e sem guias
Um alfabeto subjetivo, quem precisa?

Escorre a vida assim, indefinida
Letras miúdas, procurando sentido
Um código decifrado e decidido
Uma ilusão mais do que atrevida

Ouvem-se gritos escritos no papel
Letras tímidas, de repente expandidas
Um código de pacto das palavras banidas
Uma frase de efeito num estrépito tropel

Escorre sangue de uma aberta ferida
Letras ferozes, incontidas guerreiras
Um código atrabiliário de besteiras
Uma panela, um prato de comida

Escorre a alma do corpo, deixa a vida
Letras frias numa lápide magoada
Um código de chave abandonada
Uma ilusão, que para sempre está perdida...


[Adhemar - São Paulo, 02/08/2017]

sábado, 10 de novembro de 2018

ENTARDECER

"Entardecer" (Imagem da Internet)


Saí assim, contrariado...
Um tanto quanto por fazer,
um tanto quanto avariado...

Saí assim, ao entardecer.
Talvez assim, meio de lado,
um tanto pra enternecer.

Saí assim, meio zangado,
um pouco antes do anoitecer,
com tantos bares fechados...

Saí assim, pra acontecer.
Meio teatro de tablado,
um meio pão pra amanhecer.

Saí assim: olhos vendados,
só pra te ver.



[Adhemar - São Paulo, 08/11/2016]

sábado, 3 de novembro de 2018

AMÉM

A poesia chegou mansa
num acorde da canção
na luminosidade da noite
no murmurar do coração

A saudade chegou mansa
num acorde da paixão
na sonoridade do amor
na alegria da emoção

A tristeza chegou mansa
tão de leve, tão sutil
Denunciou a tua ausência
numa lágrima gentil

Anoiteceu; do manto negro
a paisagem se encobriu
Mando um beijo numa estrela
a primeira que surgiu

Que a benção desta noite
nos ilumine e proteja
Peço a Deus que nos conduza
nos caminhos do assim seja...


P/ BSF
[Adhemar - Rio das Pedras, 03/11/1987]

sábado, 27 de outubro de 2018

CONJUNTO

A vida de andar por aí
não à esmo
mas buscando para si mesmo
um sentido
um amplo significado
que não seja presumido
nem muito complicado

A vida de se esforçar, de pensar
não à toa
mas buscando coisa boa
produtiva
como numa cooperativa
do que seja coletivo
grupalmente trabalhado

A vida de fazer, construir
não ao acaso
mas buscando um plano raso
de onde a obra vai surgir
com estudo, com projeto
planejamento pensado e completo
que outros vão usufruir

A vida de cuidar dos filhos
não arbitrariamente
mas com critério convincente
com futuro
sendo terno, dôce e duro
alegre e comovente
exigente mas amigo e companheiro

A vida de olhar pra trás
sem ver arrependimento.


[Adhemar - São Paulo, 27/10/2006]

domingo, 21 de outubro de 2018

MESTRA CHAVE

Quero morar em teu mais recôndito segredo
e dormir no teu compartimento mais secreto
até ouvir da tua boca o decreto
a condenar-me ao exílio ou degredo

Escalaria tuas mais íngremes encostas
e observaria tuas paisagens de cima
até ouvir de tua boca uma rima
proferindo o palavrão que tu mais gostas

Sussurraria nas tuas atentas antenas
tantas bobagens que te escandalizarias
até ouvir teu riso rouco das poesias

Protegerias minha arte feito Mecenas
querendo libertar-me; tanto que amarias
respondendo ao amor com palavras obscenas...


[Adhemar - São Paulo, 14/07/2010]


domingo, 14 de outubro de 2018

TURISTA

Passante anônimo, olho as vitrines.
Me atrevo em pensamentos,
me ignoram os manequins;
me atrevo em reflexos sem brilho,
pobre de sentimentos entardecendo
e ressentimentos sem fim.

Caminho à esmo sobre cinzas,
sobre o enfim.
Corto a linha do horizonte
inaugurando o sol poente
ou coisa assim.

Volto às vitrines enfileiradas,
vazias de coisas vivas.
Me atrevo em pensamentos,
em reflexos anoitecidos
e nos versos adormecidos...

Passante anônimo, olho os letreiros de neon;
fico piscante e colorido
no vazio de significado
dessas luzes escandalosas,
chamativas e perigosas...

Me atrevo em reflexos sem brilho.
Embaçado arco-íris 
nessa noite luz e som;
numa ponte enfeitada,
enfeitiçado e sonhador.

Volto aos letreiros amanhecendo,
se apagando e se escondendo
no silêncio madrugador;
me atrevo em pensamentos despertos
pelo reflexo perturbador.

Passante anônimo, olho os bares abrindo.
Me atrevo em pensamentos sorrindo,
aurora urbana,
cheia de penumbra e cinza
no consolo de um vazio sem fim.

Caminho à esmo por essas ruas sem rumo,
que pouco a pouco despertam zangadas.
Conto os ruídos pelo reflexo que vai nas calçadas;
conto os passantes com esmero e aprumo.

Me atrevo pela manhã inaugurada
através da emenda portal
que fez a linha do horizonte consertada;
é o trajeto pelo mar sem fim
dessa cidade-pensamento, afinal...


[Adhemar - São Paulo, 31/01/2015]

domingo, 7 de outubro de 2018

FUTURO OU DESTINO?

Algum apelo de impedimento.
Altivez.
Cativeiro.
Perspectivas frágeis.
Processos ineficazes.
Manifestações.
Protestos e cartazes.
Posições insustentáveis.

Algum apelo de impedimento.
Pessoal.
Lamentável.
Lamento de perdição,
de perda, desolação.
Cativeiro em condições miseráveis.
Acordes dodecafônicos.
Poluição degradante.
Painel de aviso fechado.
Desesperançado.
Placa fosforescente de aviso:
é o futuro!

Algum apelo de impedimento.
Escolha de um lado da lua:
o escuro.


[Adhemar - São Paulo, 26/05/2017]

domingo, 30 de setembro de 2018

SEMICONSCIÊNCIA

[Imagem: Espaço integrado (pixabay.com)]

Adormeci abraçado às tuas pernas
Apagado de mim
Apagado do mundo

Adormeci sonhando estradas
Fugas, viagens longas

Adormeci abraçado aos sonhos
Sonhos de vê-la mais
de tê-la mais nos braços

Adormeci na penumbra desse sentimento
Adormeci nesse berço, ou ninho dourado
Adormeci na tua ausência, ora eterna...

Adormeci na ilusão
Adormeci entre teus cachos dourados
imerso em pesadelos coloridos

Adormeci só,
no seio do teu adeus.


[Adhemar - São Paulo, 18/02/2018]

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

STONE



Não há momento "certo" pras coisas acontecerem... Ou "errado".  Elas simplesmente acontecem, ou aparecem. A culpa da conjuntura é relativa; nós por nós, numa análise benevolente ou severa no confronto com os fatos. Com a vida. 

Nunca vamos por as coisas nos seus devidos limpos pratos. Sim, porque tudo é sistematicamente aleatório, causa e consequência são cúmplices, comparsas... 

O único momento certo que existe é a paz de espírito. O momento se chama "sempre". Só assim veremos que o momento certo pra tudo é aquele em que está acontecendo. A serenidade absoluta desse espírito em paz é concludente e permite ações tranquilas e bem fundamentadas nesse cotidiano faustoso e atrabiliário que chamamos "vida".

Mesmo esse aleatório encadeamento de acontecimentos, dos quais participamos ou assistimos, fará sentido no mais fundo de nossos sentimentos balanceados - ou não - entre a razão e o emocional. Aceitar pacificamente as armadilhas do destino ou os inevitáveis fatos consumados nos fará maiores e mais hábeis no manejo de nosso próprio desenvolvimento. Não é que seja preciso aceitar tudo passivamente; mas agir pausada e conscientemente sentindo a plenitude de estar vivo, interferindo nesse estranho, ainda que lindo, acaso do nosso protagonismo neste mundo.


[Adhemar - São Paulo, 31/07/2018]

domingo, 16 de setembro de 2018

PRA TRÁS, PRA FRENTE


                              Tenho folheado, periodicamente, as páginas da minha vida. Nada tenho encontrado que me envergonhe especialmente, salvo uns deslizes no trato com pessoas de quem eu gosto realmente. Vou registrando – a propósito – os meus dias de trabalho em agendas desde 1.988. Há um testemunho diário do que tenho feito e com quem tenho falado que, se não chega a ser completo, dá uma idéia geral da trajetória errática que tem sido a minha vida profissional.

                              Por fim, há também um registro especial datado e localizado do que se passa dentro de mim, além de impressões do que acontece em volta, de modo a refletir pensamentos e momentos de mutação de uma mente em permanente ebulição. Assim, com o cérebro cozido, chego à conclusão de que a gente nem muda tanto quanto vê no espelho. Cabelos brancos, rugas, os filhos crescendo, são só o lado tridimensional da nossa personalidade. No plano do papel vai estampada a nossa prosápia e a nossa pobreza.

                              Não há, além dos registros de casamento e do nascimento dos três filhos, grandes motivos de orgulho também. Se algo nos revela a nós mesmos, temo que uma certa mediocridade nos leve ao inferno. Porém é um problema de Deus que nos resgate ou nos condene em seu justo julgamento, ou nos ilumine para uma trajetória talvez suave, talvez sublime. Temo estar me transformando num autômato, lutando e me esforçando para agir com lealdade, justiça, determinação e desprendimento, mas só no embalo do que aprendi na infância, sem poder saltar para um outro trilho – seqüência difícil. Temo já estar morto e enterrado na vala das pessoas comuns, indistinguível dentro da corrente contra a qual tanto nadei. Temo aspirar somente uma felicidade material que nem sei se existe, pensando numa poltrona e uma TV.

                              Mais que tudo, temo estar me tornando um enganador, mostrando o mundo aos meus filhos de um modo distorcido como o contrário do que me mostraram. Desacreditando da ética e do paraíso, vou resistindo cada vez menos em alinhar com os profetas do apocalipse. E, mesmo assim, vou vivendo uma esperança que reside lá no fundo do meu subconsciente, que apesar dos trancos, sobrevive e resiste: a liberdade, essa enorme corrente de aço – presa a uma bola de chumbo – que existe no pensamento, que faz a gente confessar o fracasso e que acende o pavio do “tentar outra vez”; que nos enche de brio, nos condena e nos anima. E todos os dias nos pergunta qual nosso último, digo – próximo – desejo.


[Adhemar – São Paulo, 22/05/2000]

domingo, 9 de setembro de 2018

LÁ VAI...

Aqui estou, refém de um diema:
analisando o teu pedido
e te fazendo de tema.

Aqui estou refletindo se é um problema:
ando meio aturdido,
acho que é culpa do sistema.

Estou aqui feito um palerma
e todo muito confundido
feito um enredo de cinema...

Estou aqui fazendo cena,
meio tímido, muito inibido,
procurando forma amena...

Estou aqui, sem lei nem lema,
meio que oferecido
apresentar-te este poema.

Aqui estou, ora presente,
feito Vinícius em Ipanema,
pra confessar, adolescente,
que esta poesia é pra você... Madalena!


P/ I.N.
[Adhemar - São Paulo, 12/09/2007]

Já foi...

Escrito para uma... saudade da adolescência despertada então. No original consta o nome real.

Adhemar - 09/09/2018.

domingo, 26 de agosto de 2018

CONSERTOS

Acho que a gente quis nascer.
Átomos, moléculas, ilusão.
Formamo-nos no espaço etéreo,
holísticos, humanos.

Acho que a gente quis dizer.
Voz, olhos e mãos.
Falando no espaço eterno,
solidários e irmãos.

Acho que a gente quis fazer.
Máquinas, amor, artesanato.
Montando no espaço universo
declamado e claro.

Acho que a gente quis olhar
quadros muito além da visão;
vendo imagens no espaço,
lágrimas e chorar.


[Adhemar - Santo André, 28/08/2014]

domingo, 5 de agosto de 2018

QUANDO

Quando surge a noite e o coração
transborda a energia desperdiçada
pois criada não se guia...;

Quando surge a noite e o coração
entristecido se debruça e chora
tua lembrança perdida...;

Quando surge a noite ou,
quando some o dia,
morrem nascendo novas eperanças menores,
menores e mais vazias...;

Quando surge a noite e o coração
chorando derrama estrelas pelo manto negro,
imensa constelação de sentimentos...;

Quando surge a noite e o coração
silencia as próprias mãos
numa tristeza imensa...;

Quando surge a noite e o coração
silenciosamente adormece,
surge a tua imagem, nítida mas sonho
que, impressa nele é como a magia:
move-lhe o íntimo e não perece nunca, nunca...

Quando surge a noite o coração
conserva em energia, amor e movimento
transbordando linda no seguinte dia...;

Uma vez mergulhado na noite o coração
ausente de si mesmo aguarda
o "quando surge o dia"...

Quando surge o dia, morre o coração
pois, desde o "quando surge a noite"
não há mais amor,
não há mais vontade,
não há mais razão 
para esta poesia.


P/ BSF
[Adhemar - São Paulo, 08/03/1988]

segunda-feira, 23 de julho de 2018

FLASH

Esguia e leve eu te vi,
meio que de repente;
estava séria e... vestida!
Que indecente!

Cabelos curtos,
com uns flashes prateados
e seus olhos - ah meu Deus!
Atrás de uns óculos quadrados...

Era branca, a camiseta,
tinha uma estampa bem fora de moda;
e as calças jeans...
desenhavam, claramente, a coisa toda.

Os pés descalços,
ou num falso mocassim.
Sem maquiagem,
só o rosto ou coisa assim...

Os gestos leves;
mas, eram severos,
indicando uma zanga, por decerto,
ou imitando um dançarino de bolero...

Decidida,
sentou-se firme em seu lugar
entre outras moças,
no certo ângulo de se observar.

Almoçou pouco, comedida e prudente,
como se a vida fosse assim, toda frugal;
mas, distraída, se entregou,
palitou dentes...

Matemática, noves fora, levantou-se.
Olhou em torno procurando a saída.
Fez-se de boba, fez que ia mas voltou,
até que enfim, acercou-se e surgiu.
Circunscrita em minha área de influência,
passou reto, pelo jeito nem me viu...



[Adhemar - São Paulo, 23/05/2018]

domingo, 22 de julho de 2018

ASTRONOMIA

Cometa é uma palavra engraçada.
Apesar de indicar um astro errante
pode ser um "faça", um "realize".
Cometa não pode ser um deslize
ou um "ache um diamante",
mas pode ser "faça" uma palhaçada.

Estrela é uma palavra de sorte.
Apesar de indicar um astro fixo
pode ser do céu, do mar, da areia.
De longe ela brilha, ou incendeia;
de perto é pontuda, cheia de bico,
mas, estrela é mesmo um nome forte.

Sol. O pai dos solitários.
Apesar de indicar astro brilhante,
cheio de calor, de cor e de energia
pode ser o patrono da magia,
um deus egípcio, irRAdiante.
O sol maior com filhos vários.

Lua é o elemento do mistério.
Apesar de indicar nosso satélite,
dos enamorados é símbolo e protetora;
dos astronautas é meta e professora,
uma lâmpada supérstite.
Lua, mesmo nua, tem o ar sério.

Planeta é o astro habitado.
No caso Terra, abriga a humanidade.
Nos outros casos são as possibilidades
de vida, de existências, de cidades
como só na Terra a gente acha que é verdade.
Planeta Terra, habitat do macaco comportado... Comportado?!

E o poeta, astrônomo honorário,
com o telescópio sentimento
de mapear o Universo,
com letras, palavras e versos.
Cometa, Estrela, Sol e movimento;
planeta Amor, Lua e o extraordinário!


[Adhemar - São Paulo, 28/02/2017]

segunda-feira, 9 de julho de 2018

TARDE, TARDE, REBELDE...

Me mandaram, eu fui.
Não me pergunte aonde.
Me mandaram, obedeci.
Não me pergunte o quê.
Me mandaram, recebi.
Não me pergunte por quê.

Me mandaram...
Se tinham autoridade, não sei.
Me mandaram...
Mas eu banquei a passagem!
Me mandaram de graça.
Tá aí!

Mandaram,
mandaram,
mandaram.

Saí,
obedeci,
recebi.

Até que olhei firme, abri os braços.
Aí, me disseram:
Até que enfim!Nunca é tarde...



[Adhemar - São Paulo, 14/05/2008]


sexta-feira, 22 de junho de 2018

MORDAÇA

Se eu pudesse falar das coisas simples,
essas que brotam espontâneas
ou no coração ou noutras praças;
talvez ruborizasse,
ou ficasse sem graça;
talvez me entusiasmasse
e em altos brados... bradaria.

Transformaria tais dizeres num discurso
e nem a muito pulso calaria.
Não esperava um pouco
nem deixava pra outro dia.
Certamente ficaria rouco
e vermelho de sem fôlego.

Talvez eu imprimisse um pouco de poesia
e na dureza das palavras
diluísse um pouco de doçura.

Na loucura do assunto e da ironia
eu não me importaria
de emprestar alguma lucidez;
ou então quem sabe,
também talvez,
embutisse umas piadas
recheando de infames trocadilhos,
desbocados, chulos palavrões
e termos bem fora dos trilhos.

Enfim,
se eu pudesse falar das coisas simples
eu as complicaria!

Enfim,
seria essa toda a minha obra:
a poesia de uma vida
mais um dia!


[Adhemar - São Paulo, 21/06/2010]

segunda-feira, 18 de junho de 2018

SAÍDA POR CIMA

Deixe cair o que for preciso.
Só não abaixe o olhar,
permaneça altivo.
Finja uma pesada indiferença
de forma a não transparecer a dor.
Engula aquela lágrima teimosa.
Queime a tristeza
junto com as fotos do seu ex-amor.
Agarre-se na corda desse fundo poço
com elegância e destemor.
Mas saiba que a vida é uma joça,
não há remédio pra essa dor.
Por fim, seja orgulhoso
e vá em frente sem vacilo.
Não deixe que o vejam mancar.
Mantenha-se ereto e positivo.
E, quando ninguém mais te olhar,
sente-se e chore, é preciso...


[Adhemar - São Paulo, 30/06/2017]

sábado, 2 de junho de 2018

ESTAÇÃO 55


Estar com mais dúvidas aos 55 anos do que se tinha aos 20; será normal?

Não lembro se escrevi algo quando fiz 50. Aos 51, lembro-me de ter escrito algo – que não recordo se tornei público – intitulado “meio século mais um”. Nunca dei muita bola pra esse negócio do meu próprio aniversário, embora sempre faça uma reflexão nessa época, parecida com a de final de ano; balanço semestral, saca? Vantagem (?!) de aniversariar no meio do ano...

Acho bacana as pessoas te cumprimentarem; mas me bate sempre um remorso porque quase nunca eu lembro do aniversário de quase todo mundo... Nesse ponto, bendito facebook, que nos lembra! Embora eu seja um “facebooker” bissexto, acabo mandando um parabéns ou outro pro pessoal da minha lista, mesmo meio atrasado.

Meio século mais cinco... Ou, “meio século mais um lustro”, como diria o meu avô...

Nessas reflexões deste ano me lembrei, com saudade, dos entes queridos ausentes. Pai, mãe, avós, tios... O que será que passavam, ou pensavam, aos 55 anos? Será que tinham dúvidas? Será que já tinham planejado esse futuro cada vez mais curto? Eu ainda tenho planos: minha principal meta agora é ver o meu caçula formado. As outras dizem respeito a trabalho, ainda na esperança de fazer o calço nem começado de garantir a renda da velhice; e viajar, se possível em todos os próximos anos que Deus me conceder. Uma ou outra meta ligada a vaidade: publicar uns livros. São 5 projetos: dois estão esboçados (um mais avançado do que o outro), um em forma de roteiro e outros dois só na cachola mesmo.

Aos 55 a gente nem dorme direito, que dirá sonhar...  Sonhar com um mundo mais justo, com pessoas mais compreensivas e menos egoístas... Essas utopias não me comovem mais, infelizmente. Aperfeiçoar a espiritualidade? Tem gente querendo me convencer que a alma morre junto com a carcaça. Sério?! Ainda prefiro o otimismo dos espíritas...

Gostaria mesmo é de aperfeiçoar o comportamento: ser mais comedido, cuidar mais da “machina”, que anda muito grande e meio emperrada. Gostaria de ser mais concentrado, menos distraído; perdi outro aparelho celular. Se não me engano, o sexto em menos de três anos! Para provar essa excessiva distração e alheamento, o rascunho deste texto está num caderno com capa e contracapa parecidos; comecei escrevendo, sem perceber, com o caderno de cabeça pra baixo... Resultado: após duas páginas dei com outro texto escrito invertido (isto é, estava certo...). Aí, você inverte o caderno e “volta pra frente” para achar as outras páginas que, agora sim, estão em pé como deve estar um privilegiado ser humano de – ou – aos 55 anos!

Meu muito obrigado a todos aqueles que enviaram seus cumprimentos e a todos aqueles que tiveram a paciência de ler este texto até aqui.

Abração!

Adhemar – São Paulo, 01/06/2018

quarta-feira, 30 de maio de 2018

CÃO SEM DONO

Entre tantas dores me levanto,
recordo outros amores,
em prantos me derramo.

Entre tantas amadas te escolho,
me recolho da timidez de tonto,
no coração me escondo.

Entre tantos estrondos, um eco,
tenho um treco, te escondes.
Como é que escondestes o que amo...?
Para onde tu fugiste...?

Entre tantos remorsos, tantas lágrimas,
páginas derramadas do teu sofrimento,
um momento, me arrependo...

Entre tantas declarações, tu as fizeste,
não que não preste o meu não.
Covarde coração repleto de ilusões.

Entre teus olhos tristes, tuas mãos;
desespero, lassidão e abandono.
Eu, na fome, cão sem dono...

Entre teus desejos eu deserto.
Nada perto, nada beijos.
Teu abraço, nem de perto.

Entre tantas dores me levanto,
em prantos me derramo;
mas o destino quis assim;
eu só lamento, não reclamo...


[Adhemar - São Paulo, 27/02/2017]

domingo, 20 de maio de 2018

TÚMULO


Nas vagas da meia-noite
meio mar em chamas.
Nas ondas da maré morta
meio mar em brumas.

No silêncio do veleiro
um velório.
Orações ao marinheiro,
luz bruxoleante.

Distraída vela,
chama na escuridão da morte.
Noite linda, sem estrelas,
veludo negro, ondas de rendas.

Bruxa esvoaçante, sarcasmo e riso.
Mesmo no respeito póstumo
posta uma ironia,
fina sintonia.

Murmúrio surdo da cantiga,
cantilena antiga.
Alma de encomenda
na garupa da vassoura voadora.

Luto mortiço.
Ar infestado de maresia,
de respeito, de espuma;
o mar por sepulcro.

O bravo marinheiro
volta ao mar pra sempre neste dia.
Apaga-se, última vela,
a noite está vazia.

[Adhemar - São Paulo, 22/02/2017]