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quarta-feira, 30 de maio de 2018

CÃO SEM DONO

Entre tantas dores me levanto,
recordo outros amores,
em prantos me derramo.

Entre tantas amadas te escolho,
me recolho da timidez de tonto,
no coração me escondo.

Entre tantos estrondos, um eco,
tenho um treco, te escondes.
Como é que escondestes o que amo...?
Para onde tu fugiste...?

Entre tantos remorsos, tantas lágrimas,
páginas derramadas do teu sofrimento,
um momento, me arrependo...

Entre tantas declarações, tu as fizeste,
não que não preste o meu não.
Covarde coração repleto de ilusões.

Entre teus olhos tristes, tuas mãos;
desespero, lassidão e abandono.
Eu, na fome, cão sem dono...

Entre teus desejos eu deserto.
Nada perto, nada beijos.
Teu abraço, nem de perto.

Entre tantas dores me levanto,
em prantos me derramo;
mas o destino quis assim;
eu só lamento, não reclamo...


[Adhemar - São Paulo, 27/02/2017]

domingo, 20 de maio de 2018

TÚMULO


Nas vagas da meia-noite
meio mar em chamas.
Nas ondas da maré morta
meio mar em brumas.

No silêncio do veleiro
um velório.
Orações ao marinheiro,
luz bruxoleante.

Distraída vela,
chama na escuridão da morte.
Noite linda, sem estrelas,
veludo negro, ondas de rendas.

Bruxa esvoaçante, sarcasmo e riso.
Mesmo no respeito póstumo
posta uma ironia,
fina sintonia.

Murmúrio surdo da cantiga,
cantilena antiga.
Alma de encomenda
na garupa da vassoura voadora.

Luto mortiço.
Ar infestado de maresia,
de respeito, de espuma;
o mar por sepulcro.

O bravo marinheiro
volta ao mar pra sempre neste dia.
Apaga-se, última vela,
a noite está vazia.

[Adhemar - São Paulo, 22/02/2017]

domingo, 13 de maio de 2018

POLIDEZ E BRILHO

Depois de algum tempo,
uma ocorrência.
Incidiu um pensamento,
eclodiu com violência.

O pensamento escorreu vermelho,
incontinência.
Cacos do mesmo espelho
quebrado na consciência.

Malfadado! Maldito! Pentelho!!!
Impertinência.
Ignorou o conselho,
ignorou a consciência.

Fato consumado,
impaciência.
O cérebro todo espalhado
vibrando na frequência...

Um fio de cabelo, um momento,
uma indecência.
Despenteado no vento
o rosto nu da inocência...


[Adhemar - São Paulo, 14/01/2010]

quinta-feira, 3 de maio de 2018

SUPOSIÇÃO

[Esfinge e pirâmide em Gizé (Educolorir.com)]

Esfinge
Egípcia
de um súbito calor se revela
um rubor 
sobe pela face
intimida o sorriso
e dança
numa outra cadência
outro ritmo
brinca de ir e vir
o sorriso do olhar
se revelando impreciso
o olhar do sorriso
se divertindo
sorrindo de improviso
indo e vindo
atravessando
enviesando
tímido e lindo
Enigma
não se revela
nem mentindo


[Adhemar - São Paulo, 04/11/2017]