Tenho
folheado, periodicamente, as páginas da minha vida. Nada tenho encontrado que
me envergonhe especialmente, salvo uns deslizes no trato com pessoas de quem eu
gosto realmente. Vou registrando – a propósito – os meus dias de trabalho em
agendas desde 1.988. Há um testemunho diário do que tenho feito e com quem
tenho falado que, se não chega a ser completo, dá uma idéia geral da trajetória
errática que tem sido a minha vida profissional.
Por
fim, há também um registro especial datado e localizado do que se passa dentro
de mim, além de impressões do que acontece em volta, de modo a refletir
pensamentos e momentos de mutação de uma mente em permanente ebulição. Assim,
com o cérebro cozido, chego à conclusão de que a gente nem muda tanto quanto vê
no espelho. Cabelos brancos, rugas, os filhos crescendo, são só o lado
tridimensional da nossa personalidade. No plano do papel vai estampada a nossa
prosápia e a nossa pobreza.
Não
há, além dos registros de casamento e do nascimento dos três filhos, grandes
motivos de orgulho também. Se algo nos revela a nós mesmos, temo que uma certa
mediocridade nos leve ao inferno. Porém é um problema de Deus que nos resgate
ou nos condene em seu justo julgamento, ou nos ilumine para uma trajetória
talvez suave, talvez sublime. Temo estar me transformando num autômato, lutando
e me esforçando para agir com lealdade, justiça, determinação e desprendimento,
mas só no embalo do que aprendi na infância, sem poder saltar para um outro
trilho – seqüência difícil. Temo já estar morto e enterrado na vala das pessoas
comuns, indistinguível dentro da corrente contra a qual tanto nadei. Temo
aspirar somente uma felicidade material que nem sei se existe, pensando numa
poltrona e uma TV.
Mais
que tudo, temo estar me tornando um enganador, mostrando o mundo aos meus
filhos de um modo distorcido como o contrário do que me mostraram.
Desacreditando da ética e do paraíso, vou resistindo cada vez menos em alinhar
com os profetas do apocalipse. E, mesmo assim, vou vivendo uma esperança que
reside lá no fundo do meu subconsciente, que apesar dos trancos, sobrevive e
resiste: a liberdade, essa enorme corrente de aço – presa a uma bola de chumbo
– que existe no pensamento, que faz a gente confessar o fracasso e que acende o
pavio do “tentar outra vez”; que nos enche de brio, nos condena e nos anima. E
todos os dias nos pergunta qual nosso último, digo – próximo – desejo.
[Adhemar – São Paulo, 22/05/2000]