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domingo, 16 de setembro de 2018

PRA TRÁS, PRA FRENTE


                              Tenho folheado, periodicamente, as páginas da minha vida. Nada tenho encontrado que me envergonhe especialmente, salvo uns deslizes no trato com pessoas de quem eu gosto realmente. Vou registrando – a propósito – os meus dias de trabalho em agendas desde 1.988. Há um testemunho diário do que tenho feito e com quem tenho falado que, se não chega a ser completo, dá uma idéia geral da trajetória errática que tem sido a minha vida profissional.

                              Por fim, há também um registro especial datado e localizado do que se passa dentro de mim, além de impressões do que acontece em volta, de modo a refletir pensamentos e momentos de mutação de uma mente em permanente ebulição. Assim, com o cérebro cozido, chego à conclusão de que a gente nem muda tanto quanto vê no espelho. Cabelos brancos, rugas, os filhos crescendo, são só o lado tridimensional da nossa personalidade. No plano do papel vai estampada a nossa prosápia e a nossa pobreza.

                              Não há, além dos registros de casamento e do nascimento dos três filhos, grandes motivos de orgulho também. Se algo nos revela a nós mesmos, temo que uma certa mediocridade nos leve ao inferno. Porém é um problema de Deus que nos resgate ou nos condene em seu justo julgamento, ou nos ilumine para uma trajetória talvez suave, talvez sublime. Temo estar me transformando num autômato, lutando e me esforçando para agir com lealdade, justiça, determinação e desprendimento, mas só no embalo do que aprendi na infância, sem poder saltar para um outro trilho – seqüência difícil. Temo já estar morto e enterrado na vala das pessoas comuns, indistinguível dentro da corrente contra a qual tanto nadei. Temo aspirar somente uma felicidade material que nem sei se existe, pensando numa poltrona e uma TV.

                              Mais que tudo, temo estar me tornando um enganador, mostrando o mundo aos meus filhos de um modo distorcido como o contrário do que me mostraram. Desacreditando da ética e do paraíso, vou resistindo cada vez menos em alinhar com os profetas do apocalipse. E, mesmo assim, vou vivendo uma esperança que reside lá no fundo do meu subconsciente, que apesar dos trancos, sobrevive e resiste: a liberdade, essa enorme corrente de aço – presa a uma bola de chumbo – que existe no pensamento, que faz a gente confessar o fracasso e que acende o pavio do “tentar outra vez”; que nos enche de brio, nos condena e nos anima. E todos os dias nos pergunta qual nosso último, digo – próximo – desejo.


[Adhemar – São Paulo, 22/05/2000]

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