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sábado, 27 de outubro de 2018

CONJUNTO

A vida de andar por aí
não à esmo
mas buscando para si mesmo
um sentido
um amplo significado
que não seja presumido
nem muito complicado

A vida de se esforçar, de pensar
não à toa
mas buscando coisa boa
produtiva
como numa cooperativa
do que seja coletivo
grupalmente trabalhado

A vida de fazer, construir
não ao acaso
mas buscando um plano raso
de onde a obra vai surgir
com estudo, com projeto
planejamento pensado e completo
que outros vão usufruir

A vida de cuidar dos filhos
não arbitrariamente
mas com critério convincente
com futuro
sendo terno, dôce e duro
alegre e comovente
exigente mas amigo e companheiro

A vida de olhar pra trás
sem ver arrependimento.


[Adhemar - São Paulo, 27/10/2006]

domingo, 21 de outubro de 2018

MESTRA CHAVE

Quero morar em teu mais recôndito segredo
e dormir no teu compartimento mais secreto
até ouvir da tua boca o decreto
a condenar-me ao exílio ou degredo

Escalaria tuas mais íngremes encostas
e observaria tuas paisagens de cima
até ouvir de tua boca uma rima
proferindo o palavrão que tu mais gostas

Sussurraria nas tuas atentas antenas
tantas bobagens que te escandalizarias
até ouvir teu riso rouco das poesias

Protegerias minha arte feito Mecenas
querendo libertar-me; tanto que amarias
respondendo ao amor com palavras obscenas...


[Adhemar - São Paulo, 14/07/2010]


domingo, 14 de outubro de 2018

TURISTA

Passante anônimo, olho as vitrines.
Me atrevo em pensamentos,
me ignoram os manequins;
me atrevo em reflexos sem brilho,
pobre de sentimentos entardecendo
e ressentimentos sem fim.

Caminho à esmo sobre cinzas,
sobre o enfim.
Corto a linha do horizonte
inaugurando o sol poente
ou coisa assim.

Volto às vitrines enfileiradas,
vazias de coisas vivas.
Me atrevo em pensamentos,
em reflexos anoitecidos
e nos versos adormecidos...

Passante anônimo, olho os letreiros de neon;
fico piscante e colorido
no vazio de significado
dessas luzes escandalosas,
chamativas e perigosas...

Me atrevo em reflexos sem brilho.
Embaçado arco-íris 
nessa noite luz e som;
numa ponte enfeitada,
enfeitiçado e sonhador.

Volto aos letreiros amanhecendo,
se apagando e se escondendo
no silêncio madrugador;
me atrevo em pensamentos despertos
pelo reflexo perturbador.

Passante anônimo, olho os bares abrindo.
Me atrevo em pensamentos sorrindo,
aurora urbana,
cheia de penumbra e cinza
no consolo de um vazio sem fim.

Caminho à esmo por essas ruas sem rumo,
que pouco a pouco despertam zangadas.
Conto os ruídos pelo reflexo que vai nas calçadas;
conto os passantes com esmero e aprumo.

Me atrevo pela manhã inaugurada
através da emenda portal
que fez a linha do horizonte consertada;
é o trajeto pelo mar sem fim
dessa cidade-pensamento, afinal...


[Adhemar - São Paulo, 31/01/2015]

domingo, 7 de outubro de 2018

FUTURO OU DESTINO?

Algum apelo de impedimento.
Altivez.
Cativeiro.
Perspectivas frágeis.
Processos ineficazes.
Manifestações.
Protestos e cartazes.
Posições insustentáveis.

Algum apelo de impedimento.
Pessoal.
Lamentável.
Lamento de perdição,
de perda, desolação.
Cativeiro em condições miseráveis.
Acordes dodecafônicos.
Poluição degradante.
Painel de aviso fechado.
Desesperançado.
Placa fosforescente de aviso:
é o futuro!

Algum apelo de impedimento.
Escolha de um lado da lua:
o escuro.


[Adhemar - São Paulo, 26/05/2017]