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quinta-feira, 30 de maio de 2019

AGOSTO

Procuro um pequeno verso que diga tudo
não seja mudo
não fuja tímido
Que não deixe passar Agosto
sem ao menos fazer um aceno
acender uma luz
guiar sereno

Procuro um pequeno verso que traga vento
movimento
não seja frio
não deixe passar Agosto
sem ao menos mostrar-se em tela
aparecer
falar com ela...

Procuro um pequeno verso que seja forte
que tenha sorte
que tenha tudo
e que não deixe passar Agosto
sem um sorriso
em pleno campo
e com juízo...

Procuro um pequeno verso que seja alegre
que traga o riso
certeza breve
de não deixar passar Agosto
de mãos vazias
na fome do amor ausente
no canto da flor da fonte

Procuro um pequeno verso objetivo
atraente
interessante
Que não deixe passar Agosto
por faltar algo
que seja amplo
que seja amigo

Procuro um pequeno verso que me apresente
Que não deixe passar Agosto
de repente,
assim pura e simplesmente...


[Adhemar - São Paulo, 30/05/2019]

sábado, 18 de maio de 2019

"MALACABADA"

Ela chegou mais triste,
mais magra do que eu me lembrava;
cheia de história e filhos.
Ela chegou mais gestos dos que eu amava.

Ela chegou de leve,
solícita e delicada;
a bordo de uma cor "nunca-foi-neve",
macia e adocicada.
Apresentou um riso
tipo nostalgia breve.

Ela chegou serena,
altiva e organizada.
A voz sumida e límpida.
Chegou trazendo pequena
uns versos esquecidos,
suavemente "deslembrada".

Ela chegou, fingiu, jogou,
perdeu e se retirou;
ainda triste, mas, confortada.


[Adhemar - São Paulo, 04/05/2012]

quarta-feira, 15 de maio de 2019

GEOMETRIA

Das linhas, dos espaços
esboços fracos
reforço em traços
pintura em áreas típicas
das curvas, dos regatos
o som dos desenhos
sugeridos, emanados

Gestos espontâneos
desenho orgânico
traço harmônico

Concentração desvanecida
imerso o pensamento
em outra vida...

Mãos firmes ou trêmulas
meio, mensagem, fato.
O desenho acabado
feito um retrato
feito um poema
uma rima sem contrato

O papel em sua essência
a matemática ciência
o extrato

Extrato como significado
o estado final
o resultado
como se tudo fosse normal
três dimensões ou desenhado

A boca alinhada
vai fechada em ricto;
linha fina torcida
ou ondulada
feito um gráfico
em ondas vai representada

Olhos em foco
pontos de fuga da perspectiva
desenhando forma ativa
traços firmes
gestos dirigidos

Toda forma aleatória
mas pré-concebida
raio de circunferência

Círculos concêntricos
pedra no lago
cara do palhaço
traço sério
riscos assumidos

A volta do trapézio
quadrado entortado
das linhas, dos espaços
perdidos traços
desperdiçados na figura do abstrato
absorvidos no centro do prato...

Fim da fome
no desenho do outro lado...


[Adhemar - São Paulo, 14/05/2018]

segunda-feira, 6 de maio de 2019

SOSSEGA, CORAÇÃO!



Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.


 Fernando Pessoa
[Fonte: www.pensador.com]

sábado, 4 de maio de 2019

PROFECIAS


Horas tantas,
uma voz misteriosa se levanta.
Cava, profunda, concentrada.
Altissonante, impressionante, enfeitiçada.
Escura, turva, convincente.
Falando coisas do futuro,
do que acontecerá no "mais pra frente".
Pisando duro.
Nauseando a tontura.
Sussurrando... assustadoramente...

Horas tantas,
a voz misteriosa e acachapante
não diz nada otimista, interessante.
Ecoando na escuridão absoluta
apenas intimida e condena.
Grita solitária sua certeza absoluta,
maltratando a inteligência
sem nenhuma pena.

Horas tantas...
Que não passam, não acabam.
Uma danação eterna, essa voz,
improdutiva, autoritária e algoz.
Uma voz impositiva,
de tonalidade arbitrária
que comanda a todos e é veloz...

Horas tantas,
sacrificadas prisioneiras dessa voz,
cruel e carcereira,
que adensa, imprensa e incendeia
o ânimo e o espírito,
dor atroz.

Essa voz,
que anuncia e pressagia o destino,
o final e a fantasia
do que somos...
e seremos...
todos nós.



[Adhemar - São Paulo, 07/10/2018]