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domingo, 28 de julho de 2019

MARIONETES

[Imagem: do blog "ENTRADA FRANCA - Reflexões Sociais e Políticas" (Paula Rosa)]


Fios tensos conduzem
mas prendem
O que importa saber
é quem os comanda
O que importa entender
é se permitimos ou não... nos levar

Fios invisíveis
que sabemos coloridos
contradição... transparente
Fantoches, fantasmas
O que importa saber
é se somos conscientes
inconsistentes
ou persistentes

Fios tensos...
mas limitam
O que importa saber
é se permitimos estender
ou pendurar
panos neles
ou contas
ou desafios
ou descontos

Fios tortos 
intensos
O que importa saber
é se eles conseguem reter
as gotas do orvalho
para dividirem a luz
O que importa saber
é se eles te mostram os atalhos
ou se vão te largar de repente
te amarrar e te prender



[Adhemar - São Paulo, 25/01/2019]

domingo, 21 de julho de 2019

"FRAGELO"

Elo quebrado
Não parecia tão frágil
Transformado
Incompreendido
Inconsertável

Drama, flagelo
O amor inconformado
Com a dor
Com a perda
Com o passado

Construções acabadas
O jardim desconfortável
Um pra sempre tão curto
Tão incerto
Insustentável

Um pode ser que não foi;
Só o respeito sobra inatacável
Defunto insepulto
Este "nunca mais"
É o "fragelo" do adeus inevitável...


[Adhemar - 07/02/2018]

domingo, 14 de julho de 2019

"SIMBOLIMBO"

O pensamento que deu muitas voltas
é um pensamento revoltado;
é um pensamento de volta,
um pensamento devoto.
Um passamento.
Um devotado "assamento".

Jogado assim nesse jogo,
o jogo do jugo, momento,
a dó do jumento.
Assim já um aumento;
cão inteligente: um au-mento.

Pedras no gato do muro,
perdas no gasto do murro,
marras ao gosto do burro;
do engaste no morro soturno.
Sortudo, feliz desenlace,
e o mundo no meio de tudo.


[Adhemar - São Paulo, 21/10/2010]

sábado, 13 de julho de 2019

CONTrA

Os ponteiRos estão coRRendo agoRa.
DeixaRam de andaR.
Os eRRes estão difeRentes, 
um teste.
E não apareceu nem algum agá.
Pelo menos por enquanto.
Pelo menos por encanto.

Os ponteiros estão morrendo, agora.
Deixaram de andar.
E de correr.
A mudança dos eRRes...
JÁ AcontecerA com os "A"...
Os Há...
Finalmente um agá!

Quase Que peLos canTos,
com as LeTras mudando,
enTerrando os ponTeiros Lá.
A mão vai parando,
se LevanTa acenando,
deixando o Tempo parar...


[AdHemAr - São Paulo, 15/07/2012]

quarta-feira, 10 de julho de 2019

O CÂNTICO DA TERRA (Cora Coralina)

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação,
eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia,
bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.


Ana Lins do Guimarães Peixoto Brêtas
Fonte: http://www.poesiaspoemaseversos.com.br/cora-coralina-poemas/

quinta-feira, 4 de julho de 2019

"USUALIDADE"


Inventei uma visão
ondulada e nebulosa.
Vi numa tela emoldurada.
Tela de fundo branco,
um quadro em branco.
É uma fantástica visão inventada.
Premonitória.
Descabelada.
Mais fotografia do que pintura.
Sombreada.
Sombria.

Inventei uma visão
um pouco fria,
resultante da discussão acalorada.
Guardei recurso para modificá-la,
torná-la crível,
verdadeira,
apesar de malcriada.
Séria.
Versão "amentirada";
ficção real
e coisa e tal.

Inventei uma visão
independente e despudorada;
oferecida e recatada,
bela e enfurecida.

Inventei uma visão
precária e pretensiosa.
Tagarela e amordaçada.
Uma visão silenciosa,
inteligente e revoltada.
Solitária.
Mentirosa.
Misteriosa.
Bem fundamentada...

Inventei uma visão
incapaz de se impor;
incapaz de materializar-se,
sair pra fora
insistente e dominadora.
Realidade virtual
aqui e agora.

Inventei uma visão
tremendamente poderosa,
aterradora e maravilhosa,
que me possuiu
e foi embora.


[Adhemar - São Paulo, 26/05/2018]