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segunda-feira, 23 de julho de 2018

FLASH

Esguia e leve eu te vi,
meio que de repente;
estava séria e... vestida!
Que indecente!

Cabelos curtos,
com uns flashes prateados
e seus olhos - ah meu Deus!
Atrás de uns óculos quadrados...

Era branca, a camiseta,
tinha uma estampa bem fora de moda;
e as calças jeans...
desenhavam, claramente, a coisa toda.

Os pés descalços,
ou num falso mocassim.
Sem maquiagem,
só o rosto ou coisa assim...

Os gestos leves;
mas, eram severos,
indicando uma zanga, por decerto,
ou imitando um dançarino de bolero...

Decidida,
sentou-se firme em seu lugar
entre outras moças,
no certo ângulo de se observar.

Almoçou pouco, comedida e prudente,
como se a vida fosse assim, toda frugal;
mas, distraída, se entregou,
palitou dentes...

Matemática, noves fora, levantou-se.
Olhou em torno procurando a saída.
Fez-se de boba, fez que ia mas voltou,
até que enfim, acercou-se e surgiu.
Circunscrita em minha área de influência,
passou reto, pelo jeito nem me viu...



[Adhemar - São Paulo, 23/05/2018]

domingo, 22 de julho de 2018

ASTRONOMIA

Cometa é uma palavra engraçada.
Apesar de indicar um astro errante
pode ser um "faça", um "realize".
Cometa não pode ser um deslize
ou um "ache um diamante",
mas pode ser "faça" uma palhaçada.

Estrela é uma palavra de sorte.
Apesar de indicar um astro fixo
pode ser do céu, do mar, da areia.
De longe ela brilha, ou incendeia;
de perto é pontuda, cheia de bico,
mas, estrela é mesmo um nome forte.

Sol. O pai dos solitários.
Apesar de indicar astro brilhante,
cheio de calor, de cor e de energia
pode ser o patrono da magia,
um deus egípcio, irRAdiante.
O sol maior com filhos vários.

Lua é o elemento do mistério.
Apesar de indicar nosso satélite,
dos enamorados é símbolo e protetora;
dos astronautas é meta e professora,
uma lâmpada supérstite.
Lua, mesmo nua, tem o ar sério.

Planeta é o astro habitado.
No caso Terra, abriga a humanidade.
Nos outros casos são as possibilidades
de vida, de existências, de cidades
como só na Terra a gente acha que é verdade.
Planeta Terra, habitat do macaco comportado... Comportado?!

E o poeta, astrônomo honorário,
com o telescópio sentimento
de mapear o Universo,
com letras, palavras e versos.
Cometa, Estrela, Sol e movimento;
planeta Amor, Lua e o extraordinário!


[Adhemar - São Paulo, 28/02/2017]

segunda-feira, 9 de julho de 2018

TARDE, TARDE, REBELDE...

Me mandaram, eu fui.
Não me pergunte aonde.
Me mandaram, obedeci.
Não me pergunte o quê.
Me mandaram, recebi.
Não me pergunte por quê.

Me mandaram...
Se tinham autoridade, não sei.
Me mandaram...
Mas eu banquei a passagem!
Me mandaram de graça.
Tá aí!

Mandaram,
mandaram,
mandaram.

Saí,
obedeci,
recebi.

Até que olhei firme, abri os braços.
Aí, me disseram:
Até que enfim!Nunca é tarde...



[Adhemar - São Paulo, 14/05/2008]


sexta-feira, 22 de junho de 2018

MORDAÇA

Se eu pudesse falar das coisas simples,
essas que brotam espontâneas
ou no coração ou noutras praças;
talvez ruborizasse,
ou ficasse sem graça;
talvez me entusiasmasse
e em altos brados... bradaria.

Transformaria tais dizeres num discurso
e nem a muito pulso calaria.
Não esperava um pouco
nem deixava pra outro dia.
Certamente ficaria rouco
e vermelho de sem fôlego.

Talvez eu imprimisse um pouco de poesia
e na dureza das palavras
diluísse um pouco de doçura.

Na loucura do assunto e da ironia
eu não me importaria
de emprestar alguma lucidez;
ou então quem sabe,
também talvez,
embutisse umas piadas
recheando de infames trocadilhos,
desbocados, chulos palavrões
e termos bem fora dos trilhos.

Enfim,
se eu pudesse falar das coisas simples
eu as complicaria!

Enfim,
seria essa toda a minha obra:
a poesia de uma vida
mais um dia!


[Adhemar - São Paulo, 21/06/2010]

segunda-feira, 18 de junho de 2018

SAÍDA POR CIMA

Deixe cair o que for preciso.
Só não abaixe o olhar,
permaneça altivo.
Finja uma pesada indiferença
de forma a não transparecer a dor.
Engula aquela lágrima teimosa.
Queime a tristeza
junto com as fotos do seu ex-amor.
Agarre-se na corda desse fundo poço
com elegância e destemor.
Mas saiba que a vida é uma joça,
não há remédio pra essa dor.
Por fim, seja orgulhoso
e vá em frente sem vacilo.
Não deixe que o vejam mancar.
Mantenha-se ereto e positivo.
E, quando ninguém mais te olhar,
sente-se e chore, é preciso...


[Adhemar - São Paulo, 30/06/2017]

quarta-feira, 30 de maio de 2018

CÃO SEM DONO

Entre tantas dores me levanto,
recordo outros amores,
em prantos me derramo.

Entre tantas amadas te escolho,
me recolho da timidez de tonto,
no coração me escondo.

Entre tantos estrondos, um eco,
tenho um treco, te escondes.
Como é que escondestes o que amo...?
Para onde tu fugiste...?

Entre tantos remorsos, tantas lágrimas,
páginas derramadas do teu sofrimento,
um momento, me arrependo...

Entre tantas declarações, tu as fizeste,
não que não preste o meu não.
Covarde coração repleto de ilusões.

Entre teus olhos tristes, tuas mãos;
desespero, lassidão e abandono.
Eu, na fome, cão sem dono...

Entre teus desejos eu deserto.
Nada perto, nada beijos.
Teu abraço, nem de perto.

Entre tantas dores me levanto,
em prantos me derramo;
mas o destino quis assim;
eu só lamento, não reclamo...


[Adhemar - São Paulo, 27/02/2017]

domingo, 20 de maio de 2018

TÚMULO


Nas vagas da meia-noite
meio mar em chamas.
Nas ondas da maré morta
meio mar em brumas.

No silêncio do veleiro
um velório.
Orações ao marinheiro,
luz bruxoleante.

Distraída vela,
chama na escuridão da morte.
Noite linda, sem estrelas,
veludo negro, ondas de rendas.

Bruxa esvoaçante, sarcasmo e riso.
Mesmo no respeito póstumo
posta uma ironia,
fina sintonia.

Murmúrio surdo da cantiga,
cantilena antiga.
Alma de encomenda
na garupa da vassoura voadora.

Luto mortiço.
Ar infestado de maresia,
de respeito, de espuma;
o mar por sepulcro.

O bravo marinheiro
volta ao mar pra sempre neste dia.
Apaga-se, última vela,
a noite está vazia.

[Adhemar - São Paulo, 22/02/2017]

domingo, 13 de maio de 2018

POLIDEZ E BRILHO

Depois de algum tempo,
uma ocorrência.
Incidiu um pensamento,
eclodiu com violência.

O pensamento escorreu vermelho,
incontinência.
Cacos do mesmo espelho
quebrado na consciência.

Malfadado! Maldito! Pentelho!!!
Impertinência.
Ignorou o conselho,
ignorou a consciência.

Fato consumado,
impaciência.
O cérebro todo espalhado
vibrando na frequência...

Um fio de cabelo, um momento,
uma indecência.
Despenteado no vento
o rosto nu da inocência...


[Adhemar - São Paulo, 14/01/2010]

quinta-feira, 3 de maio de 2018

SUPOSIÇÃO

[Esfinge e pirâmide em Gizé (Educolorir.com)]

Esfinge
Egípcia
de um súbito calor se revela
um rubor 
sobe pela face
intimida o sorriso
e dança
numa outra cadência
outro ritmo
brinca de ir e vir
o sorriso do olhar
se revelando impreciso
o olhar do sorriso
se divertindo
sorrindo de improviso
indo e vindo
atravessando
enviesando
tímido e lindo
Enigma
não se revela
nem mentindo


[Adhemar - São Paulo, 04/11/2017]



domingo, 22 de abril de 2018

AMIZADE SUSPEITA

O prazer de ver-te
se renova a cada encontro;
se acreditas no que digo
quero dizer-te
que a satisfação de conversarmos
se renova a cada olhar

Gostaria que soubesses
da admiração que mora em mim

Creio seja tudo muito pouco
para merecer tua amizade
mas, no entanto,
neste instante em que penso em ti,
acredito em tudo;
e que o futuro seja
como nos for legado...

A delicadeza da vida
teima em nos semear emoções;
que nem sempre cuidamos,
que nem sempre colhemos
que nem sempre percebemos.
Às vezes nos surpreende,
dois olhos tirstes nos prendem,
dois olhos vivos nos acompanham...

Na beleza de cada alma,
no desenvolver de cada emoção semeada,
broto do sentimento de amor ou paixão,
no movimento do vento
balançando um "trigal",
balançando um velho esquecimento
de um passado igual...

No canto de um verso triste
ou na mais descarada união
ou na amizade suspeita...
temos a delicadeza da vida
teimando em nos semear emoção...


[P/ BSF]
[Adhemar - Pedro Juan Caballero, 29/07/1987]

domingo, 15 de abril de 2018

VAGA

Estava perdido
um sinal apontou novo caminho
ainda que conhecido
desbravando o colonizado

Estava desgarrado
meu rebanho passou d'outro lado
um velho desvio
conhecido e ignorado

Estava desiludido
uma luz acendeu
mensagem brilhante de opaco sentido
lindamente desfigurado

Estava sentado
um hino tocou
a banda passou 
levantei-me
havia alguém mais cansado


[Adhemar - São Paulo,13/05/2015]

domingo, 8 de abril de 2018

PALIDEZ

"Harmony does not exist, my love, harmony does not exist"
[MAC-100, Swarovski, Milão, 2010 (foto: Adh2bs)]

Uma lembrança cruel tomou corpo,
invadiu minha impaciência.
Me cercou, circundou e zombou
desenterrando um velho cadáver.
Expulsou um sentimento,
emoldurou o teu rosto.
Emoldurou teu sorriso,
imortalizou o teu gesto.
Gravou tua voz,
imprimiu - ou impôs - teu olhar.

Uma lembrança cruel escarneceu
o curto tempo de então.
Não comoveu nem lamentou
os diferentes rumos que tomamos.
Você sumiu para sempre,
só essa lembrança restou.
Cruel ela se levanta, 
pra me assombrar, meu amor.


Para um dos fantasmas d'antanho...
[Adhemar - São Paulo, 14/01/2010]

EXIBIÇÃO

Falei demais.
Me expus demais.
Fui soterrado por uma avalanche de emoções,
de sugestões, de palpites.
Ganhei de graça, sem pedir,
mapas guias e roteiros
que não sou obrigado a seguir.
Mas me alertaram:
"você está avisado!"

Tracei meus planos, plena dor,
me resolvi.
Eis que uma volta
- reviravolta? - 
me leva ao mesmo lugar,
mesma situação.
Mesmo andar opressivo
na contrária direção
aonde tinha decidido não ir!

Falei demais.
Me expus demais.
coloquei-me em cheque,
tantas "várias" frentes,
nem dou conta mais.
Andei na corda
sem rede abaixo.
Ainda que por um fio, não caí...
Mas...
Abaixo está o vazio,
o abismo dos meus ideais.
O que quero pra frente,
o que deixo pra trás.

Não rompo o casulo,
não saio do ovo,
apesar do esforço...
Não tenho medo,
não tenho coragem,
não tenho mais planos.
Apenas esculpo a imagem
na espuma de sabão e segredo.

Falei demais.
Me expus demais.
Agora me vejo na contingência
de me tirar de cartaz.

[Adhemar - São Paulo, 14/03/2018]

sábado, 10 de março de 2018

DOMÍNIOS

Números primos.
Inúmeros amigos.
Pedras nas metáforas.
Sonhos antigos.

Uma grande guerra.
Sinistra. Interna.
Estratégias diáfanas,
perdidas na fumaça.

Plateia de estádios,
entusiasmo de torcida.
Aplauso em estágios.
Adeus em expectativa.

Sorte lançada,
numerosos inimigos.
Vaia ensaiada, 
jogada de improviso.

Quem avisa é amigo.
Decida-se: fique ou saia.
Não importa; acerte ou encerre,
www ponto com ponto br...

[Adhemar - São Paulo, 13/01/2017]

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

PLANO DE JOGO

Neste cárcere de papel
tento aprisionar um momento,
um pensamento, um fato.
Tecendo um breve relato,
relatório, poema.

Nem sei se é prisão ao certo,
o correto, a expressão.
Só sei que é uma corrente,
torrente, escorrente...

Neste cárcere de papel
tento aprisionar uma ideia,
megera, Medéia,
tratado ou documento.
É tudo tão revirado,
carece de esforço e sentido.

Neste cárcere de papel,
destrancado,
um breve registro,
ou breve passagem,
para não perder a viagem;
lugar comum, logaritmo.
Liberdade concentrada,
ir e vir circunscrito.

Neste cárcere de papel
não conta o que já foi dito;
é só o testemunho silencioso
de pensamentos barulhentos...

[Adhemar - São Paulo, 14/01/2010]

domingo, 25 de fevereiro de 2018

VS - 18 ANOS

Já não conheço mais o menino franzino
e nem o moleque fofinho;
não vejo mais o homenzinho,
atrevido e inocente.
O que vejo agora é um quase adulto,
um ex-adolescente.
O grande homem que abraça,
que ama e dirige
tão altivo e seguro.

Leio um discurso que fala
de fazer e de liberdade.
Vejo um espelho de mim mesmo,
modernizado e atuante.
Olho no fundo dos olhos 
e reconheço o menino;
que estava no meu colo há pouco
pedindo colo e dôces.

Tantas rivalidades malucas
seguindo um mesmo propósito...
Tanto tentei protegê-lo
que acabei por expô-lo...
Temos um envolvimento
que vai do peito ao pescoço!

Vejo força nesse vulto,
confiança e certezas.
Vejo o Direito no seu futuro;
do grande homem que, finalmente,
sai do seu casulo.


P/ Vítor Samuel em 25/02/2018
[Adhemar - São Paulo, 15/02/2018]

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

TRANSFIGURAÇÃO RETICENTE

Por que existe melancolia?
Céus!
Que palavra que diz o que quer dizer,
com tanto de si mesma!
No fundo da mais funda fantasia
há uma verdade encoberta
que nos excita e nos perturba.

Tentei fugir de mim mesmo quando estive sozinho.
Agora choro,
pensando num truque velho
para velar meus olhos.
Perdi a noção do tempo
enquanto estava perto de ti.

Num canto do coração
um menino sentado observa
as lágrimas rolando dos olhos.
Vai acolhendo uma a uma,
a cada uma denominando emoção.

E... descobre mais emoção.

Emoção é um frio na espinha.
Emoção é uma lágrima da memória.
Emoção é um sorriso amigo,
um piscar de olhos,
um afago de mão.

Emoção é o sol poente,
um bicho voando,
um aperto no coração.

Emoção é a saudade rápida
de um relâmpago bom.
Emoção é a luz de uma alma
e o carinho do som;
do som da voz amiga,
do brilho nos olhos
e do beijo, então...
Do suspiro roubado,
de eu ter perdido a noção...


P/ BSF
[Adhemar - Pedro Juan Caballero, 27/07/1987; São Paulo, 31/07/1987]

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

"MULTIEXPLICAÇÃO"

Uma aposta arriscada,
uma farra,
uma festa de artista.
Uma fase acabada,
uma farsa,
uma falsa premissa.

Uma ideia arruinada,
uma forra,
uma forja, uma prensa.
Uma frase mal começada,
um forro,
um disfarce na lista.

Um diagnóstico errado,
uma força,
uma fonte desconhecida.
Um propósito firme,
um alforje,
uma face perdida.

Um exame consignado,
uma folga,
uma forte impressão de... surpresa.
Uma falsificação no fogo reproduzida,
uma fraqueza,
um final de linha "descozida"...*


[Adhemar - São Paulo, 10/01/2010]

(*) "Descozida", no sentido de "descozinhada" (palavras que não existem), não cozida, crua (?); e não descosida, descosturada. Aff! Nem perguntem...
Adh2bs

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

ZÍLION

"Nada" (Foto: Adh2bs)


Adaptações.
Fingimento explícito.
As implicâncias rotineiras,
hábitos esquisitos.
Passos dados pra fora,
mastros das bandeiras.
Vento inconstante,
ondulações interesseiras.

Vai do conteúdo interessante
um assunto insinuante;
boas maneiras.
Fingimento explícito,
palavras nuas,
outras bobeiras.
Roupas espalhadas,
aleatoriamente.
Sentimentos sequestrados,
resgate por besteiras...

Descalço, de costas,
as implicâncias rotineiras.
Trancados ao som de uma valsa,
a volta sem escalas,
escalas sem descanso...
Abandono enfastiado,
solidão,
boas maneiras.
Leva muita frustração,
ganha nada, só poeira.

Hábitos esquisitos;
pouca vida,
numa existência inteira...



[Adhemar - São Paulo, 17/05/2017]

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

HERANÇA

Vamos vencer as revoluções
depois vamos nos transformar;
soltar os nossos dragões
e voar.

Vamos liderar os motins,
depois vamos nos embrenhar
em matas cheias de ilusões
e lutar.

Vamos começar as rebeliões,
vamos contornar os por quês;
vão nos revelar as mãos cheias...
de buquês.

Vamos propagar as insurreições.
Vamos questionar as religiões?!
Vamos comprar um pouco de fé,
ou até...

Vamos extinguir as guerras,
as mãos leves, os pés breves.
Vamos enxugar das feridas
nosso ardor...

Vamos vender nossos ideais,
nos acomodar em nossas poltronas
convencidos de não poder lutar mais...
Como os nossos pais...*


* Como disse Belchior.
[Adhemar - São Paulo, 14/01/2010]