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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

STONE



Não há momento "certo" pras coisas acontecerem... Ou "errado".  Elas simplesmente acontecem, ou aparecem. A culpa da conjuntura é relativa; nós por nós, numa análise benevolente ou severa no confronto com os fatos. Com a vida. 

Nunca vamos por as coisas nos seus devidos limpos pratos. Sim, porque tudo é sistematicamente aleatório, causa e consequência são cúmplices, comparsas... 

O único momento certo que existe é a paz de espírito. O momento se chama "sempre". Só assim veremos que o momento certo pra tudo é aquele em que está acontecendo. A serenidade absoluta desse espírito em paz é concludente e permite ações tranquilas e bem fundamentadas nesse cotidiano faustoso e atrabiliário que chamamos "vida".

Mesmo esse aleatório encadeamento de acontecimentos, dos quais participamos ou assistimos, fará sentido no mais fundo de nossos sentimentos balanceados - ou não - entre a razão e o emocional. Aceitar pacificamente as armadilhas do destino ou os inevitáveis fatos consumados nos fará maiores e mais hábeis no manejo de nosso próprio desenvolvimento. Não é que seja preciso aceitar tudo passivamente; mas agir pausada e conscientemente sentindo a plenitude de estar vivo, interferindo nesse estranho, ainda que lindo, acaso do nosso protagonismo neste mundo.


[Adhemar - São Paulo, 31/07/2018]

domingo, 16 de setembro de 2018

PRA TRÁS, PRA FRENTE


                              Tenho folheado, periodicamente, as páginas da minha vida. Nada tenho encontrado que me envergonhe especialmente, salvo uns deslizes no trato com pessoas de quem eu gosto realmente. Vou registrando – a propósito – os meus dias de trabalho em agendas desde 1.988. Há um testemunho diário do que tenho feito e com quem tenho falado que, se não chega a ser completo, dá uma idéia geral da trajetória errática que tem sido a minha vida profissional.

                              Por fim, há também um registro especial datado e localizado do que se passa dentro de mim, além de impressões do que acontece em volta, de modo a refletir pensamentos e momentos de mutação de uma mente em permanente ebulição. Assim, com o cérebro cozido, chego à conclusão de que a gente nem muda tanto quanto vê no espelho. Cabelos brancos, rugas, os filhos crescendo, são só o lado tridimensional da nossa personalidade. No plano do papel vai estampada a nossa prosápia e a nossa pobreza.

                              Não há, além dos registros de casamento e do nascimento dos três filhos, grandes motivos de orgulho também. Se algo nos revela a nós mesmos, temo que uma certa mediocridade nos leve ao inferno. Porém é um problema de Deus que nos resgate ou nos condene em seu justo julgamento, ou nos ilumine para uma trajetória talvez suave, talvez sublime. Temo estar me transformando num autômato, lutando e me esforçando para agir com lealdade, justiça, determinação e desprendimento, mas só no embalo do que aprendi na infância, sem poder saltar para um outro trilho – seqüência difícil. Temo já estar morto e enterrado na vala das pessoas comuns, indistinguível dentro da corrente contra a qual tanto nadei. Temo aspirar somente uma felicidade material que nem sei se existe, pensando numa poltrona e uma TV.

                              Mais que tudo, temo estar me tornando um enganador, mostrando o mundo aos meus filhos de um modo distorcido como o contrário do que me mostraram. Desacreditando da ética e do paraíso, vou resistindo cada vez menos em alinhar com os profetas do apocalipse. E, mesmo assim, vou vivendo uma esperança que reside lá no fundo do meu subconsciente, que apesar dos trancos, sobrevive e resiste: a liberdade, essa enorme corrente de aço – presa a uma bola de chumbo – que existe no pensamento, que faz a gente confessar o fracasso e que acende o pavio do “tentar outra vez”; que nos enche de brio, nos condena e nos anima. E todos os dias nos pergunta qual nosso último, digo – próximo – desejo.


[Adhemar – São Paulo, 22/05/2000]

sábado, 2 de junho de 2018

ESTAÇÃO 55


Estar com mais dúvidas aos 55 anos do que se tinha aos 20; será normal?

Não lembro se escrevi algo quando fiz 50. Aos 51, lembro-me de ter escrito algo – que não recordo se tornei público – intitulado “meio século mais um”. Nunca dei muita bola pra esse negócio do meu próprio aniversário, embora sempre faça uma reflexão nessa época, parecida com a de final de ano; balanço semestral, saca? Vantagem (?!) de aniversariar no meio do ano...

Acho bacana as pessoas te cumprimentarem; mas me bate sempre um remorso porque quase nunca eu lembro do aniversário de quase todo mundo... Nesse ponto, bendito facebook, que nos lembra! Embora eu seja um “facebooker” bissexto, acabo mandando um parabéns ou outro pro pessoal da minha lista, mesmo meio atrasado.

Meio século mais cinco... Ou, “meio século mais um lustro”, como diria o meu avô...

Nessas reflexões deste ano me lembrei, com saudade, dos entes queridos ausentes. Pai, mãe, avós, tios... O que será que passavam, ou pensavam, aos 55 anos? Será que tinham dúvidas? Será que já tinham planejado esse futuro cada vez mais curto? Eu ainda tenho planos: minha principal meta agora é ver o meu caçula formado. As outras dizem respeito a trabalho, ainda na esperança de fazer o calço nem começado de garantir a renda da velhice; e viajar, se possível em todos os próximos anos que Deus me conceder. Uma ou outra meta ligada a vaidade: publicar uns livros. São 5 projetos: dois estão esboçados (um mais avançado do que o outro), um em forma de roteiro e outros dois só na cachola mesmo.

Aos 55 a gente nem dorme direito, que dirá sonhar...  Sonhar com um mundo mais justo, com pessoas mais compreensivas e menos egoístas... Essas utopias não me comovem mais, infelizmente. Aperfeiçoar a espiritualidade? Tem gente querendo me convencer que a alma morre junto com a carcaça. Sério?! Ainda prefiro o otimismo dos espíritas...

Gostaria mesmo é de aperfeiçoar o comportamento: ser mais comedido, cuidar mais da “machina”, que anda muito grande e meio emperrada. Gostaria de ser mais concentrado, menos distraído; perdi outro aparelho celular. Se não me engano, o sexto em menos de três anos! Para provar essa excessiva distração e alheamento, o rascunho deste texto está num caderno com capa e contracapa parecidos; comecei escrevendo, sem perceber, com o caderno de cabeça pra baixo... Resultado: após duas páginas dei com outro texto escrito invertido (isto é, estava certo...). Aí, você inverte o caderno e “volta pra frente” para achar as outras páginas que, agora sim, estão em pé como deve estar um privilegiado ser humano de – ou – aos 55 anos!

Meu muito obrigado a todos aqueles que enviaram seus cumprimentos e a todos aqueles que tiveram a paciência de ler este texto até aqui.

Abração!

Adhemar – São Paulo, 01/06/2018

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

PATIFARIA MALANDRA

          A segunda parte do fato repetido. A traição da lembrança, o abandono. O raio que rompe o silêncio, o grito que causa o brilho. Estranho sentimento. A rima implícita no pensar. Escorre um líquido no peito, um pronto desaparece. A oração fora do modelo, a forma dentro dos ideais. O meio comporta o morto, aqui jaz um alienado. O fim nunca se justifica, nada há para explicar. O mau tempo alimenta, o medo é que faz diferença.

          Uma grande fechadura encerra mistério e arte. Curiosidade inerte, aflita e angustiada. Não dá pra rir dessa interferência. Mão levantada na plateia, anel brilhante. O reflexo que se mostra na pupila às vezes some. Roubar o mosquito da teia. A fome da aranha. Aprofundar o conhecimento. Encalhar. Braços abertos em cruz, nada de nadar. O fato elegante. A roupa da missa. A lista. O acréscimo da frase. O que significa. A relatividade do tempo. O vaso vazio. A carga caída, a mula empacada. Receita de bolo. Um ovo.

          A terceira parte do fato repetido. Trovões e tempestade. Um ritual pagão e a festa religiosa. Crença exposta. Tantas afirmativas sem perguntas, filosofias utópicas. Onde o mundo faz a curva, o horizonte entorta. A cabeça vai cheia de respostas. 

          As infinitas partes do fato que não se acaba; que vira notícia, novela ou conto. Pode ser mentira, romance, calçada. Pode ser uma fama fria ou só um grande tanto de palavras sem nenhum significado. Querendo dizer nada. Ou querendo dizer: nada!


[Adhemar - São Paulo, 09 a 30/10/2017]

domingo, 15 de outubro de 2017

OPÇÕES

          Assim, na continuidade do cotidiano irrefreável, um descontrolado choro de saudade do que não aconteceu; uma extraordinária saudade do futuro!

          Assim, viver o amanhã esquecendo hoje; a fome de hoje, o sono de hoje. Viver as delicadas relações sociais apenas para plantar, plantar e plantar. Mas o amanhã nunca chega; deixa-se apodrecer no pé tudo o que foi cultivado enquanto se pensava pra frente. Daí não se vê o entorno, o atual, as peculiares e maravilhosas circunstâncias de se viver o hoje, o agora, o aqui.

          Assim, é possível decidir entre mergulhar nessa pressa insana e doentia ou haurir em grandes sorvos cada momento; colher a tempo cada bendito fruto do que foi feito antes, com atenção e amor. Absorver os duplos e triplos sentidos das situações; desprender do tempo inalcançável o nosso perfil de viver. Somos muitos, há muita gente para fazer o mundo; não precisamos fazer tudo e nem sozinhos. O que começou lá pode bem acabar aqui. O que não está começado não tem pressa. Leia, o próximo escrito, amanhã.


[Adhemar - Santo André, 30/08/2005]

domingo, 1 de outubro de 2017

PROFISSÃO: PRESTIGITADOR

Assim como tantos, deixei-me aprisionar pelo convencional, pela formalidade implícita nas relações comerciais. Assim como tantos, descobri que essa realidade é a máxima dedicação empregando o máximo conhecimento que pudemos acumular para bem servir a troco de um mínimo - costumeiramente - de remuneração. "É o mercado", dizem sempre os beneficiados.

Assim como tantos, aprendi que o "mercado" são outros tantos profissionais desesperados, oprimidos e necessitados que acabam competindo às avessas nesse leilão invertido em valores na demanda de serviços. Assim como tantos, precisei viver como um mágico para sobreviver pagando contas e reinventando truques para me manter e à família.

Assim como tantos, estou precisando tirar um elefante da cartola.



[Adhemar - São Paulo, 25/09/2017]

sexta-feira, 23 de junho de 2017

CANHENHO

Tenho muito que fazer.

Quando me lembro, não tenho condição. Quando tenho tempo, não me lembro. Se tenho tempo e me lembro, aparece algo mais urgente...

Esse muito que fazer...

Tarefas, obrigações, caprichos. Esquecimentos, programações extemporâneas, lembranças tardias. Um acúmulo estranho de compromissos e tarefas mal distribuídos numa agenda cheia de rabiscos. Meus "compromiscos", como costumo dizer.

Tenho muito que fazer.

E sempre arranjo outra coisa. A idade serve de escudo para certas intransigências. Já fui mais gentil e solícito outrora, agora não mais; senão, seria um tanto muito maior este tanto por fazer.

Tenho muito que fazer.

Fiz uma lista. No auge das urgências iminentes de parte deste muito o que fazer, dou uma parada para conferi-la.

Tenho muito que fazer.

Sempre mais e mais, confundindo sonhos com obrigações, cansaço aleatório e lazer.

Tenho muito que fazer.


Depois eu vejo exatamente o quê.


[Adhemar - São Paulo, 04/10/2016]

domingo, 19 de março de 2017

FILOSOFIA DA DÚVIDA

Interessa saber onde estamos ou o que somos?

O coração contempla a cidade vazia com a mesma ansiedade com que te procura. Ansiedade infantil, mas tão presente, desde tempos remotos, imemoriais; mãe de uma angústia sem fim, de tantas dúvidas, do não saber onde estás.

Interessa saber onde estás?

Interessa saber o que se procura intensamente e com tanta sinceridade. Morar sob um teto vazio e imperfeito. Planejar cuidadosamente tudo aquilo que não vai dar certo. Tirar as lágrimas, que as pedras podem rolar...

Vestir o blusão com as insígnias da própria ignorância, confessando ignorar onde estás. Importa tanto saber onde estás... Não saber onde estás é também não situar-se. Tateando na cidade vazia sob a noite chuvosa e triste, te procurando nas luzes refletidas pelas poças d'água.

Insatisfação do insucesso da procura... Se ao menos dissesses outra vez as tuas últimas palavras renovando os teus votos de nunca mais... Se ao menos aceitasses o quadro, que é o teu próprio espírito sombrio, de presente... Se ao menos mencionasses a palavra que liberta...

Interessa saber tanta responsabilidade?

Se ao menos a solidão não fosse tão pesada... Pesada, opressiva e pensativa... Sumiste da tela do radar como um aeroporto em dia de névoa. Ou és a névoa, talvez... Resides nesse mistério que a existência não revela, no final da linha invisível que une o princípio ao fim de tudo, todo o sentimento despertado e desprezado.

Interessa saber a sepultura?

Depositado em cova rasa, terra misturada com cinzas tão finas... e a cada palavra mencionada, a certeza que, do torrão fatal, há de brotar algo forte e imorredouro que nem todo o esquecimento possível irá destruir. Apenas o tênue cansaço da procura e de escrever sem ver as letras, olhos fechados na certeza intangível de que sabes todas as palavras da procura.

Interessa lê-las?


[P/ BSF]
[Adhemar - São Paulo, 18/02/1988]

domingo, 13 de novembro de 2016

DEPOIMENTO

          Eu nasci pra ser um desses playboys; esnobe e altivo, embora magnânimo. Não era talhado para viver uma vida minimalista ou dedicada à outrem. Me acostumei a olhar o mundo de cima, não importando quão humana fosse a visão, a "paisagem". Humildade é um desses predicados que eu desprezava; simplicidade é um estilo que nunca me identificaria então.

          Me criei na crença de ser o centro do mundo; e que este era só uma espécie de quintal onde tudo que existe estaria lá para me servir. Minha onipotência exponencial era ditada por uma prepotência controlada e por uma arrogância estudada: a vida de todos seria melhor se fosse organizada por mim!

         Um belo dia, no entanto, tanta "grandeza" não serviu pra nada. Fui derrubado do pedestal, caí de cara. Um chão muito duro e muito sujo me recebeu. Aturdido com a ousadia dessa derrubada e intrigado com a "injustificada" queda, me perguntei por que ocorrera. A resposta já estava estampada desde muito antes de eu nascer: era simplesmente a condição de humano amor ao próximo e a Deus mais do que a mim mesmo. E nada de expiar as culpas na base da chicotada: mas despertar ante o sofrimento do mundo disfarçado atrás de tanta felicidade mascarada. Abrir as mãos e os braços, abraçar e socorrer os próximos, realizar mais para o mundo do que para mim mesmo. 

          Descobri que eu nasci para ser um obreiro das coisas de Deus, desprendido e ordeiro. Descobri que a recompensa está no sorriso do agradecido. Descobri que a matéria é meio, nunca um fim em si; e que a honra é realizar para os outros, não só pra mim.

          Eu nasci para ser um instrumento do Criador; altivo, sim, mas para ver melhor e mais longe a dor que posso mitigar com minha vida e meu amor.


[Adhemar - Santo André, 11/10/2016]

domingo, 24 de julho de 2016

RAIOS


Nem parece que foi a mesma mão que fez. Um traço leve, outro calcado. Logo se vê a negligência de um, o outro é descuidado. É o que pode diferir de uma organização contra o desarrumado!!!

Palavras são palavras e mesmo assim não são! Talvez um filme mudo num sonho acordado. O cinema cheio, mãos dadas e abraços. A cerimônia acaba, o gato sobe o muro. A lua se enfastia, o céu está nublado.

A desilusão sobe num palco iluminado. Solto no ar vai um perfume... desanimado. Sobe o som da música; música colorida, advinda de um lápis apontado. Desce o sol, sai do tablado, dorme o dia no seu berço enluarado.


[Adhemar - São Paulo, 26/07/2011]


domingo, 27 de dezembro de 2015

CLARIDADE ABSOLUTA

          A luz veio entrando. Primeiro por uma fresta, entreaberta porta, a luz num filete fino.

          Dois olhos espreitam desde dentro, na parte escura. A fresta se amplia. A pequena faixa de luz aumenta. Um aumento gradativo, arrepiante, emoção suspensa na agonia da surpresa.

          Mais um pouco e pouco a pouco a luz misteriosa e quente vai ampliando seu domínio no reino escuro dos dois olhos "expectantes"... Vibram com a possibilidade de uma nova visão; pois nesse quarto úmido, escuro e sem janela, algo vai acontecer.

          Retinas atentas, cristalino brilhante.

          Dir-se-á que a porta já tem mais de metade aberta; a atrevida luz quase toca o limiar da amplitude do olhar interno e intenso.

         De repente, a porta escancarada. A luz entra de chofre e ofusca o olhar tão ansioso. Pregados os ombros na parede, os olhos piscam fortemente para acostumarem com a nova condição: luz e ar vindo de fora, o sol brilhante iluminando a brisa da manhã.

          A luz dourada, após o impacto, começa a tomar forma delineando uma visão. Raios da aurora desenhando uma sombra - vulto escuro - que mal se vê e que irradia tanta claridade...

          Fecham-se os olhos e o homem passa a enxergar com o coração. De repente, a forma se define: é uma Rainha descendo de um altar, em oração. Formas difusas num vestido alaranjado, espáduas nuas e um sorriso, um olhar; são olhos lindos, reflexos obtidos na superfície do mar.

          Estrela-do-mar, no centro da luz que invadiu o cárcere privado de um cativo da emoção...

          Rainha coroada, território ateu. Rainha abençoada, alcança os teus súditos fiéis e apaixonados...


P/ SM
[Adhemar - São Paulo, 08/12/1988]

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

STARDUST

          Finalmente, depois de um tempo, vou rever minha prostituta predileta. Meus caminhos, sempre variados, vão fazer com que eu passe por ela.

          Alta, forte e bem fornida, coxas grossas, quadril largo e largo sorriso. Sempre com trajes provocantes, atrevidos e rasgados; olhar sarcástico, irônico e chamativo.

         Passo por ela como passei tantas vezes antes, trocando olhares e sorrisos significativos. É o único ponto de tangência entre nossos mundos e que jamais vai passar disso. Vou de seguida; ela vai ficando mais distante até um futuro incerto quando, e sabe-se lá quando, estaremos partilhando a mesma esquina - ela parada e eu passando - num desses tantos caminhos tontos por onde eu ando.


[Adhemar - São Paulo, 10/10/2012]

terça-feira, 19 de maio de 2015

AGENDA

Preciso me lembrar de umas coisas; amarrando a fita no dedo, deixando anotado em um bilhete guardado no bolso. Preciso esvaziar os pensamentos e começar a pensar do zero. Começar por um grão de areia - logo depois do zero.

Preciso olhar mais a paisagem. Estou numa sala com uma parede inteira janela. Não procurar o que talvez exista, mas, de repente não interessa...

Preciso me colocar como sou. Respeitar e ficar nisso, mesmo que os outros estranhem. Preciso organizar as ideias e ouvir o que dizem - prestar atenção - pra devolver o que pedem. Sem máscara ou escudo, só com o que for autêntico; original, por assim dizer, inerente ao que sou.

Preciso aprender inglês - de verdade. Não dá mais pra fingir que é supérfluo. Por onde andei, era bom que soubesse. Preciso consolidar uma posição de ideia, voltar a defender algum ideal. Não há mais tapete ou móvel onde eu caiba embaixo. 

Preciso aprender português também...


[Adhemar - São Paulo, 10/11/2011]

domingo, 19 de abril de 2015

DILEMAS ORBITAIS

          São tantas ambiguidades todos os dias que os impasses sutilmente se acumulam. Formatam-se situações que exigem perspicácia, reflezão e ações; planejamento, decisão e... Ações!

          Tomamos as decisões após muita reflexão oriunda da percepção do enredo, do entorno, da situação. Mesmo que grosso modo, planejamos ou estruturamos nossos afazeres para seguir adiante com a vida, mesmo conscientes das consequências do que estamos fazendo. Nem sempre é exatamente o que queremos mas, por certo é o melhor que podemos para o momento, pra gente.

          De repente, mudam os ventos. Pequenas questões relacionadas a uma intrincada rede de acontecimentos e pessoas nos atinge bem no meio do caminho escolhido, da resolução em plena prática de execução. Questões que mereceriam uma nova apreciação, apesar que não deveriam afetar as mudanças em curso. Surgem dilemas éticos, humanitários até, mas em que os últimos elementos a serem satisfeitos somos nós mesmos; e tornam-se injustos - esses dilemas - posto que sempre ao longo de toda a nossa enorme caminhada decidimos pelo que beneficiava outrem. Sempre! Mas hoje nos cabe perguntar: isso é generosidade, burrice ou acomodação?

          Façam suas apostas.


[Adhemar - Santo André, 04/09/2008]

sábado, 14 de fevereiro de 2015

ORDEM

          É tudo uma questão de mais ou menos organização, de superar o caos; de vencer a resistência à paz que a simetria carrega em si, se impondo por repouso aos olhos, pela segurança de estar cada coisa em seu devido lugar.

          A disciplina do método, da descrição precisa de onde está o quê; o critério de agrupamento lógico, organogramático, é tudo uma questão de maior ou menor arrumação. A mente analítica e seu pensamento matemático morando num quartel, ou numa biblioteca. A ordenação impecável e a definitiva impressão geral de limpeza que se evidencia a partir daí.

          No entanto... Há certa ordem no caos, na aparente desorganização, no aleatório, no "deixa estar pra ver como é fica". É da natureza uma determinada variedade de estilos e não se pode dizer que isso seja bagunça. Também há uma enorme paz na contemplação de um cenário variado, de uma estrutura por reconstruir. A própria terra de vez em quando treme, ou se inunda impondo uma nova atitude diante do tudo por refazer. Certamente que esse tipo de caos é cruel e desafiador; mas, de certa forma, é extremamente essencial para nos lembrar do quanto somos frágeis diante das infinitas possibilidades do universo...


[Adhemar - São Paulo, 02/02/2010]

Desordem

Texto escrito exatos 25 dias antes do terremoto que atingiu o Chile em 2010. Ainda há sinais de sua destruição nas cidades abaladas por ele, mas a recuperação e a coragem das pessoas estão visíveis em toda parte também.

Adhemar, 14/02/2015.


Quinta Vergara, Valparaíso (foto: Adh2bs/jan-2015)

domingo, 28 de dezembro de 2014

REFERÊNCIAS

          O camarada era uma dessas raras pessoas. Coração atento, generosidade inata. Um dia desses, topou com um mendigo; o cara estava no chão, agonizando, sujo, maltrapilho e faminto. Nosso herói nem piscou: ajudou o mendigo a se levantar, o amparou e caminhou com ele para sua própria casa. Preparou-lhe um banho que o ajudou a tomar, preparou-lhe uma refeição que o ajudou a comer. Deu-lhe roupas limpas e o pôs para descansar pensando qua amanhã é um dia mais do que legal pra nascer.

        E nasceu. Nosso herói fez um lauto café, cheio de coisas para se comer. O mendigo aceitou e, bem barbeado, comeu. Comeu com gosto, com o atraso que trazia lá dentro...

         Finalmente, puseram-se a conversar; nosso herói querendo saber o que outro sabia fazer e se lhe interessava trabalhar. O mendigo, bem sério, suspirou e indagou se o seu benfeitor tinha alguma referência para apresentar, antes de lhe responder... Afinal das contas, sabe como é...!


[Adhemar - Sobrevoando MG, 06/04/2014]

sábado, 27 de dezembro de 2014

CONTO UM

          Vá você se fiar numa promessa! Ficar confiante, interessado, certo que o desenlace do negócio confiável, fio de bigode e papel assinado será aquele que você espera pela crença criada na lisura da outra parte. Pois sim! E os planos frustrados?! A dor aguda, intensa, o sofrimento pela decepção, pela angústia do prejuízo, do descumprimento de suas próprias obrigações com terceiros, decorrentes da quebra do compromisso que assumiram com você! Ô bosta! E o desfiar interminável de desculpas esfarrapadas - isso quando resolvem falar com você ao invés de sumir de vez - como é praxe! E aí está você, que não foge de compromisso nenhum, sem um puto no bolso e cheio de explicações inexplicáveis a dar para aqueles que estão furiosos com você. Mas, de repente, tudo se ajeita. Você dá um jeito, se empenha, se vira, cumpre sua parte sem que pudesse, mas ameniza o mau humor dos seus críticos que não querem saber se você foi passado pra trás e que apenas vão falar menos mal de você.

          Finalmente, você respira. Todo ferrado, mas com a sensação inigualável de ter mantido em pé sua palavra, seus compromissos, sua dignidade. Até atrair - pela sua postura correta, direita mesmo - outro negócio fantástico onde os interlocutores vão demonstrar sobejamente um autêntico agrado e confiança no seu trabalho, na sua atitude, em você; e você, sorrindo feliz com seu ar de idiota útil, caminha macio no rumo de uma nova arapuca...


[Adhemar - Santo André, 11/12/2008]

domingo, 23 de novembro de 2014

TRILHA

Pelo caminho, pedras coloridas. 
O mesmo caminho, as mesmas pedras e cores.
Pássaros, som da água correndo através das pedras, mas o caminho está ali.
Perspectiva misturada com a linha do horizonte, suaves colinas de uma cor tão leve. Mas o caminho continua por detrás das colinas, sempre adiante com um final indivisível misturado com as nuvens que "enevoam" o horizonte.
Iluminado pelo sol e sob o imenso azul do céu, porém, presente e sem desvios.
O caminho já trilhado está pra trás, na proporção dos passos.
E continua sempre.


[Adhemar - São Paulo, 27/09/1987]

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

SETENTA ANOS

Esta é uma história originada de uma ferida aberta. Uma laceração destilando as inquietações de uma alma determinada, decidida a imprimir um peso específico e certeiro a cada palavra - dita ou escrita - para que não pairem dúvidas sobre sua idoneidade ou intenções; firmemente convicta que é melhor não estancar tal hemorragia.
Não importa o risco de amputação de um membro, nem a palidez decorrente da perda de todo o sangue. O mesmo que em vão já foi derramado e também aproveitado em transfusões. Não há dor, embora não haja anestesia. Indiferente à temperatura de ebulição, de encontrar algum apoio para as mãos ou da existência de curativos e desinfetantes, esta é uma história parada no centro de uma poça vermelha.
De repente, bem no meio desse enorme corte, começa a sair a própria essência da carne, nervos e músculos, revirados numa revolta. E a medida que vão saindo, vão formando um novo corpo revitalizado, fazendo a velha casca murchar e cair como o miolo do sol no centro de sua auréola. É o fim do seu banho hematóide. É a reencarnação física renovada terminando pelo próprio cérebro ora remoçado. E uma nova película nasce e envolve o novo reencarnado.
Uma vez pronto, ele pisca os novos olhos. Olha em volta de si e se dá conta de que o que foi antes está no chão, como lixo hospitalar ou restos mortais de um cachorro atropelado. E por pensar nisso, repara que está complemente nu - inclusive de referências. A desvantagem de ter o repertório vazio é que é mais difícil recomeçar; a vantagem é que está livre para fazer o que bem entender, sem medo de errar. Descalço, salta os próprios destroços procurando se situar, saber onde está, o que é e por onde começar. Por exemplo, achar uma cama e deitar; achar o seu sono e dormir; achar o seu mundo e sonhar.

P/ Tia Nancy
[Adhemar - São Paulo, 25/05/2004]

Tia Nancy
Na verdade, ela fez setenta anos em 3 de julho de 2004; mas havia escrito este texto antes, dedicado a essa irmã de minhã mãe que sempre foi protetora dos sobrinhos, a voz da razão e da concórdia nas disputas entre nós… Casada com o Tio Antonio - o Tonho, uma espécie de ídolo da gente com jeito simples e companheiro - ela continuou nos homenagenado com suas feijoadas excepcionais, cuscuzes sublimes e mousses de maracujá de fazerem os deuses descerem à terra. Tímida, assustou-se com o teor desse texto cujo conteúdo achou violento; ela, que renasceu tantas vezes de situações difíceis que a vida lhe impôs, inclusive agora, enquanto se recupera de uma cirurgia no abdomen. Mas tem tudo a ver com ela, esse texto “vermelho” que é nossa cor predileta (dela e minha). Que Deus te abençôe e proteja, Tia Nancy!
Adhemar, 14/04/2009.

RACIOCÍNIO

     A lógica é muito relativa e precisa ser contrariada para se confirmar. Mais refletida, passa a se justificar melhor, sai fortalecida dos desafios lançados. O fio condutor do pensamento lógico é contínuo, intenso e resistente. A lógica, por si só, é quase uma ciência. É apaixonante e jamais será contraditória.
     A lógica é muito orgulhosa. Porque faz sentido, porque tem razão. Sempre se prova, mesmo numa linha tortuosa sempre prevalece, sempre ganha. Vira teses e tratados, grandes filosofias. Abstratamente concreta, a lógica ensina, encadeia e apresenta sentido; cobra uma postura ou apoio. A lógica, porém, tem vertentes. Ramificações perceptíveis, prováveis, outras tantas certezas derivadas da certeza central e dominante.
      A lógica é loucamente irritante.

[Adhemar - São Paulo, 27/06/2006]