A luz veio entrando. Primeiro por uma fresta, entreaberta porta, a luz num filete fino.
Dois olhos espreitam desde dentro, na parte escura. A fresta se amplia. A pequena faixa de luz aumenta. Um aumento gradativo, arrepiante, emoção suspensa na agonia da surpresa.
Mais um pouco e pouco a pouco a luz misteriosa e quente vai ampliando seu domínio no reino escuro dos dois olhos "expectantes"... Vibram com a possibilidade de uma nova visão; pois nesse quarto úmido, escuro e sem janela, algo vai acontecer.
Retinas atentas, cristalino brilhante.
Dir-se-á que a porta já tem mais de metade aberta; a atrevida luz quase toca o limiar da amplitude do olhar interno e intenso.
De repente, a porta escancarada. A luz entra de chofre e ofusca o olhar tão ansioso. Pregados os ombros na parede, os olhos piscam fortemente para acostumarem com a nova condição: luz e ar vindo de fora, o sol brilhante iluminando a brisa da manhã.
A luz dourada, após o impacto, começa a tomar forma delineando uma visão. Raios da aurora desenhando uma sombra - vulto escuro - que mal se vê e que irradia tanta claridade...
Fecham-se os olhos e o homem passa a enxergar com o coração. De repente, a forma se define: é uma Rainha descendo de um altar, em oração. Formas difusas num vestido alaranjado, espáduas nuas e um sorriso, um olhar; são olhos lindos, reflexos obtidos na superfície do mar.
Estrela-do-mar, no centro da luz que invadiu o cárcere privado de um cativo da emoção...
Rainha coroada, território ateu. Rainha abençoada, alcança os teus súditos fiéis e apaixonados...
P/ SM
[Adhemar - São Paulo, 08/12/1988]