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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

MAGMA

Há tantas coisas a dizer borbulhando dentro da gente… Como um vulcão ativo, as palavras fervem em alta pressão; e o tempo que levam do recôndito interior onde se fundem e derretem é a própria reflexão que, se não esfriar, terminará por explodir.
Represando tantos sentimentos e sensações, selando tantas emoções contidas pela tampa da imensa cratera no cimo do monte causamos uma enorme força potencial de auto-destruição. Ou somos estruturados para segurar lá dentro essa violenta convulsão ou a boca se abrirá de repente, sem aviso prévio, numa terrível torrente de lava, fumaça e pedras expelidas raivosamente para atingir o que estiver num raio próximo.
A força dessa manifestação vai mudar a natureza na sua circunscrição. Pode ser que renove o que destruir, pode ser que fortaleça o que matar; e pode ser que renasça nesse interior ora vazio pela expulsão de seus conflitos mais profundos, abrindo novos canais de compreensão para acomodação de posturas, atitudes e ideais. Até que a primeira contrariedade ponha tudo a ferver outra vez.

[Adhemar - São Paulo, 21/05/2006]

PONTO A

 Valeu deixar a porta aberta com o espelho por fora; tipo um retrovisor do que se passa do outro lado, tipo um reflexo pra quem olha de frente. 

Valeu tentar atrair simpatia e adesão pra causas absurdamente perdidas; é como juntar uma força-tarefa para a delicadeza do descanso. 

Valeu planejar e suavizar o trajeto; pois viver é sair do lugar, olhar as paisagens, interagir com os meios e chegar ao ponto B.

[Adhemar - São Paulo, 21/05/2006]

BUSCA INACABÁVEL

Sair e chegar, as pontas do fio. Máscaras e disfarces, os meios em fins. Andar e parar, bar e lanches sob o sol avançado. Outros significados para as mesmas velhas palavras que observam do mesmo lugar todos os dias.
Inquietude e desassosego com garantia e qualidade. Ouvir o conselho dos muros, centavo por centavo, como a sirene da polícia. Descobrir com segurança e preconceito a alta pressão econômica - saber querer! Justificar ou dar sentido ao que se faz, ao que se paga. Procurar sem saber bem o quê e guardar na hora certa o que precisar.
Seguir sem paralelo para o tão ansiado lugar: o ponto final no infinito invisível…
[Adhemar - São Paulo, 21/04/2005]

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

AMORES PASSADOS

Minhas aflições presentes são bem educadas… Quando o sono insciente toma as pálpebras, elas me cumprimentam e se instalam nos meus pensamentos.
Minhas aflições distantes são discretas. Viajam pelo mundo cuidadas de si mesmas, ainda que flores lilases acompanhem. Se a volta é incerta, tudo é tão ou mais difícil já sem elas; mas nada é tão definitivo quanto uma aflição perversa…
Minhas aflições indiferentes não se acertam. Mais confusas do que eu mesmo, são secretas, não dão chance à recuperação dos trancos. Vivo aos trancos do meu próprio coração nessa transição incrível.
É minha maior aflição terrível.
P/ APC,BSF,ECB,MG e SHFC
[Adhemar - São Paulo, 08/08/1988]
DATAS
Sou fascinado por essas datas de números repetidos: 8/8/88, 08/08/08… Fiquei procurando algo escrito há exatos vinte anos só por causa disso. Lamentavelmente, o "post" acima é um texto escrito na madrugada de 09/08/88, provavelmente iniciado antes da meia-noite. Por infantilidade, reconheço, grafei a data do provável início, porque há uma extensa "produção" no dia 09/08/88, do qual este é o primeiro escrito.
Adhemar, 08/08/2008.

POLÍTICA PESSOAL

"Nunca tive a pretensão de governar o mundo, mas tenho uma visão aquilina de manipulação; ora sutil, ora mais evidente, mas sempre com a ambígua sensação de poder, de direção. Às vezes também pressinto as situações manobrando a gente. Tem cidadãos que aparecem e querem dar seus palpites: se forem pertinentes, tudo bem; se forem infelizes, também! E desses palpites surgem novas idéias de como fazer as pessoas fazerem o que nos interessa. E o tempo passa, as situações acontecendo como a gente pretendia. Esse imenso poder me inunda, me enche até a explosão do fastio, da repetitividade e da monotonia; do quanto é chato o poder absoluto."
[Adhemar - Mongaguá, 16/06/2002]
Politicamente incorreto
Reflexão sobre ardis e manobras, sobre promover ações com uma aparência e outra intenção. Logo eu, que não sei nem mentir, nem fingir!
Adhemar, 09/08/08.

ILUSÕES

A fantasia se perdeu em meio à tanta realidade. O palhaço saiu de seu picadeiro e veio ver o mundo aqui fora. E viu os homens cansados, os olhares congestionados, o escuro e o frio. Mas assim mesmo, não desistiu: fiel à sua vocação, perpetrou mais uma palhaçada.
O comandante e suas ordens contraditórias saíram do gabinete. A prepotência e a impulsividade não resistiram e vieram ter em meio aos acontecimentos. Fingindo mandar, observou a fingida obediência; porque a vida segue seu curso indelevelmente, à revelia do comando.
O pedestal perdeu o brilho e a graça. Rei e príncipe, com sua corte, desceram e vieram se misturar aos obreiros do palácio. Vieram mostrar aos pobres súditos a sua altiva realeza. Mas o impávido imprevisto: eles têem sangue e sentem dor.
Já o bobo dessa corte segue ora amos, ora criados; sempre desorientado e seu drama divertindo à todos. A grande pantomima, o cenário: caretas e piruetas, piadas e oferendas. Tudo bem representado e muito mal remunerado. O bobo apenas come as migalhas dos comensais.
Baixa o pano.
[Adhemar - São Paulo, 15/12/2004]
Ambiguidades propositais
Relato autobiográfico de um momento na minha brilhante carreira profissional. Advinhem no papel de quem…
Adhemar, 11/08/2008.

domingo, 7 de setembro de 2014

ORTO

De tão afastados de nossas origens já esquecemos quem somos, de onde viemos e o nosso papel neste planeta, na natureza.
Uma vez sonhara que era um pianista de bar. Tocava indefinidamente, fosse dia ou noite, sempre e sem parar. Apenas não fumava, mas bebia, sempre tocando, não parando nem para conversar. E conversava tocando, repertório à esmo, sempre e sem parar.
Detestava acordar desse sonho onde fazia amigos, via conhecidos, tinha o espírito leve, descansado e alegre. Às vezes cantava em dupla, em trio, sempre me divertindo. Verdades universais se confirmando e se desmentindo… E deduzia a origem de ter nascido num piano-bar; natureza de companheirismo e intimidade com espíritos leves, espíritos livres.
De tão afastados de nossas origens já não distinguimos o básico: qual a diferença entre alma e espírito? Qual a semelhança entre a vida e a morte? Qual a divergência entre o amor e o mundo?
Uma vez que acordara, não dormira mais. E até hoje sonho em sonhar, sonhar…
[Adhemar - São Paulo, 25/01/2005]

LILÁS E BRANCO

                Na parede em frente a janela está um quadro que é a fotografia de uma flor. Uma grande flor roxa - ou lilás - cujo centro é branco com bordas lilases - ou roxas - e alaranjadas. Porém, o quadro reflete a janela, de onde se vê as duas pontes paralelas de uma estrada, uma encosta - ou barranco - arborizada. É uma bonita paisagem embora não se possa dizer que rivalize com a fotografia da flor.
                Mas, estando de frente para o quadro, é necessário um enorme esforço de concentração para ver a flor, advinhar suas cores e perceber seu detalhes; porque predomina, invariavelmente, a imagem da estrada; os carros passando sobre as pontes, as árvores balançando ao vento.
                Talvez a luz do sol é que provoque esse efeito. Um dia claro se impõe e por sutil recurso cromático e luminoso faz prevalecer o reflexo da paisagem sobre a imagem da flor. Talvez seja a flor muito tímida, ainda que grande e chamativamente colorida. Talvez seja o tipo de mente que encare o quadro, fazendo uma realidade próxima e dinâmica ocupar completamente o espaço da realidade distante e estática.
                É mais provável, no entanto, que virar a página nos faça afastar os "mas", os "poréns" e os "talvezes"; porquê, mudando o ângulo de visão inclinando a cabeça, a flor lentamente vai ocupando o seu lugar. E um novo quadro se apresenta, metade pontes, metade flor. Meio árvores balançando, meio lilás, meio roxo... E, afinal das contas, tudo se encerre numa única questão de ponto de vista ou de visão; ou de um paralelo com um ilustre casal, conhecido por refletir a paisagem bonita, o dia claro e o céu azul; mas por trás do reflexo seja uma linda flor colorida que nos gestou, nos criou e está aí para que aprendamos a apreciar a verdadeira beleza da vida, dos reflexos e das cores.
Para meus avós Júlia e Luiz
[Adhemar - Barueri, 07/03/2002]

BOLETIM

               Resenhas informativas são peculiares; dão uma pálida noção do assunto e, se habilmente montadas, essa noção será bem distorcida. O mesmo vale para títulos e manchetes, principalmente os acompanhados por uma linha de chamada, logo abaixo. Podem mostrar que o mundo é redondo mas não revelar o caminho mais curto para uma volta completa. Sentidos duplos ou dissimulados e louvar o errado detalhando uma suposta matéria séria também são recursos presentes nos textos noticiários. Os repórteres, às vezes, são muito precipitados e cometem erros de concordância:  em geral, não dá pra gente concordar com eles…
               As notícias deveriam ser escritas pelos poetas, no seu português inconfundível, ressucitando palavras e navegando por estilos elegantes e refinados (no sentido de fino, e não de "morto de novo"). A sutil ambigüidade presente nos textos dando credibilidade ao delírio, ao sonho, ao etéreo. Jamais seriam más notícias, ou notícias más. Os textos teriam graça, humor e paixão. E deixariam no leitor uma insaciável ansiedade pelo jornal de amanhã.
[Adhemar - São Paulo, 20/05/2006]
Informe
Aos meus amigos jornalistas peço perdão pela brincadeira; conheço vários que escrevem com dedicação e que são autênticos nas suas posturas e colocações. De qualquer forma, dedico a todos este pretenso repto.
Adhemar, 03/07/2008.

NOVIDADE ORIGINAL!

               O espaço está repleto. Repleto da angústia de não ter pra onde olhar. E tudo gira depressa. Foscas imagens brilham macabras. Um violento calor se brande em chamas dentro dos cérebros convulsos. O vento quente assola as paisagens. Paisagens urbanas e mortas.
                No entanto, aquele pescoço desesperado acerta uma direção. E os olhos lacrimejantes de tão cansados, topam com algo surpreendente e incompreensível. Ainda assim, bela visão! Tudo então se concentra naquele ponto. Até o vento parou.
                Era uma flor que brotava do concreto cinza.
[Adhemar - São Paulo, janeiro/1983]
"Selva de pedra"
Naquele tempo, percorria a cidade de São Paulo e seus arredores a trabalho. Das Perdizes a Santo Amaro, Guarulhos, grande ABC… O calor abrasivo que se desprendia do asfalto, a insípida paisagem e a feiúra e a poluição da cidade de repente quebrados por uma flor nascendo no piso da rua, que suscitou essa reflexão (ou um cavalo que vi pastando em plena Av. Paulista). Infelizmente, ainda hoje é assim, essa metrópole que amo com profunda paixão mas da qual não vejo a hora de me ver a uma respeitosa distância…
Adhemar, 04/07/2008.

sábado, 6 de setembro de 2014

QUERÊNCIAS

               Quisera eu ser um cronista do nosso tempo, fabricando histórias a partir do fantástico cotidiano. Quisera eu colorir as paisagens cinzentas através de palavras animadas e dar vida à natureza morta dos retratos. Mas posso apenas mostrar as mãos, não como exemplo de limpeza e diligência, mas como possibilidades infinitas de criação e manufaturas.
               Quisera eu sonhar verdadeiramente um sonho de igualdade e liberdade…
[Adhemar - São Paulo, 21/05/2006]

AMOR PERFEITO

               De todos os pensamentos, aquele era o mais original e encantador. E ocorrera num momento particularmente agradável; camihava pela praia à hora do pôr-do-sol e se colocou de forma a ser banhado pelos raios que atravessavam as nuvens. A fímbria do mar tocava-lhe os pés, com sua espuma branca a formigar placidamente a sua grande tranqüilidade.
                 Esse pensamento tão agradavelmente surpreendente naquele instante místico referia-se a uma mulher. Não qualquer mulher, mas uma mulher diferente, com uma presença tão radiosa que talvez nem Deus tivesse pensado ou ousado concebê-la ainda. E com uma luz interior tão brilhante, tão surpreendente que lhe conferiria uma transparência ímpar e sagrada; e que fosse linda, mas tão linda, que qualquer coração parasse de bater ao contemplá-la, de pura emoção. Além disso, os gestos suaves e diáfanos, de uma pureza tão inata que fizessem estremecer tudo à sua volta ao seu menor sorriso. E ele poderia descrever esse sorriso, se tivesse força para tanto!
              Está claro que tal mulher não existe, nem pode existir. Do contrário não haveria poetas nem quaisquer outros homens para a grande aventura do mundo: viver, sonhar e amar.
[Adhemar - São Paulo, 22/12/1987]
Amor desfeito
À época, este que vos fala ainda trazia a bunda achatada pelos pontapés que levara alguns meses antes. Após quase seis anos e meio de um relacionamento que chegara ao noivado, a paixão do final da adolescência evoluindo para um amor responsável começou a declinar no início desse ano fatídico para um sentimento tão autêntico. Do início ao meio desse ano (1987) só houveram indícios do desgaste, que foi se acentuando. Quando terminou, ela disse "acabou", fiquei refém de sentimentos contraditórios: de um lado, a enorme decepção somada à sensação de fracasso, de "meu Deus, que será de mim agora" se contrapondo ao conformismo confortante que acomete um médico diante de seu paciente morto, mas perante o qual ele sabe que fez de tudo ao seu alcance para salvá-lo. Na seqüência, uma paixão não correspondida (já relatada anteirormente neste espaço) mostrando quão complicado é ser simples!
Eu, que quando adolescente achava que amor a gente escolhia "vou gostar daquela lá e pronto", que fui surpreendido pelo agradável sentimento correspondido - tenho certeza - de repente desacreditei. Do desenlace desses lances em diante, jurei para mim mesmo que não amaria mais ninguém. Pra variar, estava errado. Vieram outros amores, decepções e satisfações em gotas de cachoeiras, deslumbrando e afogando. Até descobrir que a mulher ideal existe sim, é sempre do jeito que descrevi no texto. É a mulher que a gente ama; sempre terá a forma de como a gente a vê.
Adhemar, 09/07/2008.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

LINHA E PONTO

          Vai chegando ao fim mais um período. Traduzindo: no caderno de rascunho restam poucas folhas. Toda vez que um caderno acaba, abre-se um novo. Toda vez que abre-se um novo, mudam os temas. Não é proposital; mas o subconsciente talvez procure algo mais digno para ser registrado. As mãos se esforçam para melhorar a caligrafia, tão castigada no final do caderno anterior. A mente procura novas formas de dizer as coisas, novos sentidos, novos assuntos.
          O próprio novo caderno, indagador em suas brancas folhas, parece esperar ansioso o que vai carregar. Ansioso e severo, posto que deve ter absorvido atentamente as queixas do caderno mais velho.
          Outrossim, quando acaba a tinta da caneta, uma nova ordem se impõe. O próprio texto, interrompido e truncado com suas letras esmaecidas, assume um novo sentido - uma nova cor, por assim dizer - partindo do trecho mal escrito e quase transparente que o antecedeu.
          Nessa caminhada difícil e complicada da falta de folhas ou de tinta, a sublime inspiração se evapora, incorpora-se no ar e some no vento. Ficam as palavras órfãs de compromisso, significado e entendimento.
[Adhemar, Sâo Paulo, 31/07/2004]
Epílogo…
Toda vez que vai acabar um caderno de rascunho, surge um texto deste tipo; e esse caderno referido no início, nem estava tão no final assim. E não é que acabou mesmo a tinta da caneta? Se "a ocasião faz o ladrão" não há dúvida que de oportunidade e observação vivem os textos, isto é, os escritores…
Adhemar, 28/06/2008.

ABERTURA

          Mais um volume a ser preenchido de metáforas. Mais um espaço para depósito de anseios como um ventre e seu feto. Tanta expectativa e potencial colocados ali, humanamente.
          Outro registro de idéias e projetos baseados em sonhos, em ideais e em princípios autênticos; e também algumas invenções, histórias apócrifas, para não dizer mentiras quase verdadeiras.
          Detalhes, sutilezas, observações; todos costurados por por uma linha intensa de imaginação e angústia. A recobrir o estilo, uma fina camada de ironia e falsa erudição. Como pano de fundo, um cinismo estudado, sem maquiavelismo nem disfarce: só uma certa ousadia revestida de atrevimento.
          Cheio de energia nas veias e gás enchendo o balão, esperar o vento, soltar os contrapesos e voar para o sonho, para as pretensões e às metas inalcançáveis. Contrariar os ditados e julgar, sim, além das aparências; pois quem vê a cara pressupõe o coração.
          Enfim, prestar o próprio depoimento sem desfavor da verdade. Contar ao mundo como é ser - nos dias de hoje - um visionário, sonhador e romântico.
[Adhemar - S. Paulo, 14/07/2005]
Continuação
Só para exemplificar, um primeiro escrito num caderno de rascunho novo, para contrapor o "post" anterior (apesar que este caderno não é o sucessor daquele lá).
Adhemar, 28/06/2008.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A ENFERMEIRA E O SOLDADO

           Ele é policial militar, ela é assistente de enfermagem. Mas ela está na faculdade, curso noturno, logo será uma enfermeira mesmo.
           Ele é corpulento, um metro e noventa de estatura, mas é risonho e aspira a uma promoção; e conta um caso qualquer passado ontem. Ela, atenta, escuta e entremeia uns comentários, ou perguntas casuais acerca do que ele está dizendo. É cedo no frescor dessa manhã de verão, em que vão leves e alegres para o trabalho.
           Ela também é alta, cabelos pretos, pele morena queimada dos fins de semana em Santos. Ele é mulato, cabelos curtos e um bigode fino. A conversa é casual e descontraída num vagão do trem do metrô. Estão casados desde o ano passado e a conversa parece a de dois namorados. Mais adiante vão saltar em estações diferentes: ela nas Clínicas, próxima ao Hospital; ele no Centro, perto do Batalhão. Mas antes de se despedirem trocarão um beijo amoroso e, mutuamente, desejarão que se cuidem, bom trabalho, até mais tarde...
[Adhemar - S. Paulo, 03/02/1999]
Crônica
Ontem, um de meus admiradores (ai, ai, ai, ai, ai...) cobrou mais crônicas e contos, histórias com personagens próprios... Então, além de recomendar que leia Fernando Sabino, Rubem Braga, Luiz Fernando Veríssimo e outros, resolvi desenterrar algo do gênero, contemporâneo da história do cachorro do catador (postada em 25/05) e revirar o baú em busca de outras para mostrar aqui. Modestamente, só pros amigos. Autógrafos... aguardem!!! (Putz, campeonato de potoca 6!!!!!!)
Adhemodesto, 15/06/2008.

EXISTÊNCIA PARALELA

                Era um usurpador que finalmente foi preso. Apanhado em flagrante apropriando-se de uns dígrafos. Polígrafo.
                  Foi trancafiado numa cela cheia de lugares comuns: "ver o sol nascer quadrado"; "se hospedar no xilindró".
                  Descobriu-se usando-os para fazer barulho. Isto é, muito barulho. Desaforado, advertido, nem por isso adormeceu quieto. Numa bolação criativa, alucinada, ficou pensando na fuga em plena hora do almoço, pela porta dos fundos.
                  Então, sem mais nada, as mãos espalmadas empunhando uma funda, caminhou ereto, com o olhar altivo, empinando a pose. E fugiu. Como a história parada, inventada, sem fim; sem retorno, sem transversais nem ramificações.
                 Com as mãos na cintura, o olhar perdido a cismar: "aonde ir agora, que mais terras conquistar? Governos a derubar? Um despostismo a esclarecer?"
                  Um jurássico, um clássico, um ente fantástico, nem muito alegre, nem fantasmagórico, nem agônico, nem cruel. Apenas um ator, um à toa, representando o seu papel: seu lugar no espaço em lugar de outrem, num blefe, num passe, até ser pego outra vez.
[Adhemar - S. Paulo, 11/12/2004]

OLÁ, COMO VAI...

          Como na antiga canção* de Paulinho da Viola, "olá, como vai? Eu vou indo e você, tudo bem?" Mas ao contrário do resto, o sinal não está fechado nem vai abrir. O sinal estará estampado nas faces, nos olhos claros e irradiados dos corações. O sinal vai iluminar o caminho certo a seguir, indicado nos luminosos sorrisos.
          E haverá cada vez mais "olá, como vai". E haverá, igualmente, "eu vou indo e você tudo bem". E haverão mais canções, mais sorrisos e mais sinais. Apesar das aparentes dificuldades, cada um vai conseguir mergulhar mais dentro de si mesmo e sair mais forte, mais… mais! O mundo parecerá melhor e os seres, mais humanos…
* Sinal Fechado
[Adhemar - S.Paulo, 05/02/2004]
Alô-ô!
Paulinho da Viola é outro dos meus ídolos na música, se não for o maior. Aliás, é o artista de quem eu tenho mais CDs. A canção "Sinal Fechado", linda, inspirou esta reflexão enquanto a escutava.
Adhemar, 03/06/2008.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

ESPELHO

          "Às vezes é preciso coragem para encarar a si mesmo e as próprias idéias retrógradas; em outras, muita ousadia para voltar atrás como quem toma impulso para saltar um muro. Altivamente, confrontar o espelho como a única forma de ver além de si mesmo. Romper a bolha - ou a casca - e dar novos e vacilantes passos numa direção inesperada. Tomar fôlego. E mergulhar no desconhecido como parte de um plano pré-traçado. Navegar sem mapa, sem saber para onde como se fosse o caminho de casa. E, mesmo assim, estar alimentado, agasalhado e seguro como no ventre da própria mãe. Sentir-se forte e inatingível como a murada dos castelos medievais."
          "É preciso muito peito e muito jeito para conhecer a si mesmo, olhando para dentro; e admitir-se naquele exclusivo clube onde só a gente cabe. E os outros que aguentem lá fora, esmurrando a porta, de vontade."
[Adhemar - S. Paulo, 15/12/2004]

NÃO MAIS

"Alguém morreu como morre alguém a todo o momento. O velório foi animado. Piadas em surdina, risos abafados."
"Em qualquer quarto de um qualquer lugar ouvem-se gemidos, ora de dor, ora de sexo."
"No escuro de uma noite fria, um frio escuro. Calor das velas do velório, do suor, da dor e da emoção do amor."
[Adhemar - S. Caetano do Sul, 20/07/2005]

TALVEZ HAJA UM (ou "Marion")
Os olhos azuis são um disfarce emoldurado pelos cabelos loiros.
O rosto tímido, alegre e lindo é um estratagema anti-espiões.
O andar ondulante e cadenciado
é a mais perfeita forma de locomoção já inventada.
Tanta beleza em deslocamento…
É uma invasão? É um ataque? É um acontecimento?
O riso claro e cristalino é uma provocação.
Declaração de guerra, um atentado dirigido.
A voz suave e as palavras agradáveis são a sabotagem ao inimigo.
O decote, então, é uma cilada,
entrevendo os homens, um abismo.
Sob a saia curta, as pernas perfeitas são armas letais.
Para quem ousar enfeitiçado, não libertam nunca mais.
Levam à morte os destemidos,
ofuscando os olhos no brilho da penugem clara
e na maciez da superfície.
Os pés perfeitos são para a fuga, assim que aniquilado o oponente.
E fogem lépidos, faceiros e silentes,
manchados apenas com gotículas de sangue dos corações explodidos.
O maior poder da terra foi exercido:
o da sedução.
Não há homem preparado pra enfrentar tal inimigo…
[Adhemar - Sto. André, 20/07/2005]

terça-feira, 2 de setembro de 2014

CAMPEONATO DE POTOCA (5)

O amigo do catador
             É um humilde catador de papel. Vive do que coleta nas casas e no lixo da Vila Mariana (em São Paulo / SP), carregando na sua carriola de duas rodas (achadas no lixo de uma bicicletaria). A madeira ganhou numa feira livre (ex-banca de laranjas avariada numa queda do caminhão) gentilmente cedida pelo proprietário, um "laranjeiro", a trôco de uma ajuda para carregar uns "teréns".
             Sempre prestativo, faz pequenos serviços à comunidade local: troca lâmpadas para o advogado, toma conta por alguns momentos de uma criança para a moça da casa amarela; faz a feira para uma terceira, pega as crianças na escola para aquela quarta, todo mundo confia nele! Nos entremeios, recolhe o papel descartado pelas lojas e demais estabelecimentos comerciais e também garrafas - aliás, um favor que faz a outro colega seu, também catador. Apara a grama e poda as árvores para a velhinha que mora numa esquina. Todo mundo faz questão de guardar papel e papelão para ele.
             Pois não é que outro dia, vindo da estação Ana Rosa do metrô em direção ao trabalho, vejo-o transportando um cão em seu carrinho, vazio das outras coisas. Ante o espanto geral e o meu em particular, vai dando ordens prontamente atendidas pelo vira-lata: "senta aí, não se mexa", "quieto pra não cair", "sossega matuto", etc. A seguir explica: "o pobrezinho quebrou uma pata, foi atropelado; ele entende tudo que a gente fala. Vou levá-lo ao veterinário da rua de baixo, quem sabe não ganho um amigo pra percorrer comigo as ruas do bairro e trabalhar conversando…"
[Adhemar - São Paulo, 07/02/1999]
Toda brincadeira sempre tem um fundo de verdade. O personagem da história acima existia mesmo (não sei se era tão prestativo) e conversava de fato com o cachorro.
Adhemar, 25/05/2008.