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sábado, 27 de julho de 2013

ATRASADO

Lá de onde eu vim...
me prenderam aqui.
Lá pr'onde eu vou...
me prenderam aqui.
Anedota...

Por onde andei,
me expulsaram.
Não me quiseram 
nem onde não sei:
eu não fui...

Por aqui só me olharam.
Não me viram.
Não me escutaram.
Me confundiram:
profeta maldito...

Não me encontrei,
não me esperei
nem onde não sei:
eu não fui...

[Adhemar - São Paulo, 02/09/2011]

sexta-feira, 26 de julho de 2013

MAJESTADE

Quantos braços levantei pra te louvar
quantas preces eu rezei...
Quantas peregrinações eu fui fazer
quantos loas entoei...

Quantas homenagens eu prestei
em quantas audições te vi tocar.
Por quantas procissões eu caminhei
e quantas emoções a relembrar...

Mas o ídolo ruiu - e lamentei
ao ver teu pedestal desmoronar.
Mais pra cima eu fui - e viajei
só pra não te ver tombar.

Quando caiste eu te amparei
uma nova grandeza tua vi formar.
Asas ampliadas, prontas pra voar
pressenti adeus mas não te abandonei.

Hoje és saudade, eu fico em meu lugar.
Deste a volta ao mundo enquanto eu fiquei.
Teu destino é caravanas liderar
enquanto fico no meu canto, onde sou rei...

[Adhemar - Ibiúna, 01/03/2010]

segunda-feira, 22 de julho de 2013

OBJETOS OCULTOS

Abro um livro a procura de respostas.
Abro a porta procurando aventura.
Abro a janela observando as gaivotas,
abro as gavetas procurando a meia escura.
Abro armários - onde é que pus os livros?
Abro o baú de antigos conteúdos.
Todos os troços que procuro estão esquivos
e não encontro nem pequenos nem graúdos.
Abro os jornais a procura de notícias.
Abro o nariz em busca do perfume.
Abro a memória para relembrar delícias,
abro a mente a procura de algum lume.
Abro possibilidades em cálculos matemáticos;
probabilidades de chutar os resultados.
Abro a pesquisa em seus métodos mais práticos,
abro as cartas, os memorandos e os recados.
Abro a razão, pra se curvar às novidades.
Abro projetos de longo prazo e futuro.
Abro a mão, em generosidades,
acendo a luz para abrir em claro o escuro.
Abro o espírito pelas coisas que invento.
Abro a bagunça dos sentimentos que embolo.
Abro o coração e te recebo dentro,
abro os meus braços e te balanço no meu colo.
Para S.M.Adhemar - São Paulo, 16/07/2008

sábado, 20 de julho de 2013

EMOÇÃO

Sob chva intensa, reflexões perdidas no cérebro vazio. Sem salvação como e-mail deletado, como o mergulho no mistério do que é a criação. Tão longe de Deus - e tão perto! Tão profunda é a luz dessa tela, um surto, um enfarto. Tão incerto como cada passo, como uma notícia e como o vento. Pobre vento que trouxe a chuva, o frio, o medo. Piadas, risos, o nervoso diante de um amanhã escuro, pagão. Ah! Pagão... Deus nos perdoe o trocadilho inadiável, pois, no escuro, o frio, o medo e a tela serão inseparáveis. Quem somos? O que fizemos? Quais castigos mais mereceremos?

À sombra, à noite, ao mar: sonhos, estrelas, navegar. Navegar sentado - o que Fernando Pessoa diria (ou não foi ele?) - que navegar é preciso... E, navegando, vegetar. Conforme o meu amigo caipira, pra quem vegetar é pranta! E, tal Vinícius, em seu louvor a gente canta. Mas, de repente, se dá conta da torrente de asneiras, do chão que não levanta. Prosa com rima, poesia estranha, letra corrida; e um ponto final que não chega, não aconchega e nem descansa. Não desliga, quer ir mais longe e mais longe, sem se mover no entanto. O mundo passa como por encanto, como num filme, como num momento; e não podemos retê-lo nas mãos, nos olhos ou nas palavras: só na lembrança.

[Adhemar - São Paulo, 16/05/2001]

sábado, 13 de julho de 2013

TODO SANTO DOMINGO!!!

Tocaram a campainha, era uma pesquisa. Após responder algumas determinadas perguntas, a gente ganhava um brinde. Sempre tive um certo pudor para expor as minhas opiniões. Mesmo a trôco de "brinde". Mas a voz no porteiro eletrônico, persuasiva pela necessidade que denotava, me seduziu. Atendi o portão e começaram as perguntas. Mas não me concentrei nelas; veio-me à mente a história do sujeito que, chegando a outro, disparou: "posso fazer uma pergunta?" Ao que o outro retrucou: "já fez!"
Enfim; não sei do que se trata a pesquisa mesmo tendo balbuciado as respostas. Conseqüentemente, não sei se mereço o magnífico chaveiro de plástico exibindo o logotipo estampado de uma conhecida marca de alimentos…
[Adhemar - S. Paulo, 30/06/2004]

Mesmo sendo sábado...
Outra bobagem trazida do blog original, por causa da coincidência da data da primeira postagem e por causa do recrudescimento do telemarketing na chateação a que somos submetidos. Chego a ter saudade do tempo em que batiam à porta!
Adhemar - 13/07/2013.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

CARÁTER DO AFETO

Mera parecença,
vaga semelhança;
traço de nascença,
mania de criança.

Caminhos percorridos,
distância desmedida;
pés tão doloridos,
lá vai outra partida...

Mera semelhança,
vaga parecença;
grande esperança,
riso sem licença.

Caminhos doloridos,
distância e paciência;
sentimentos distorcidos,
sentido e competência.

Abraço de criança, 
mania de nascença;
alegria da esperança
sem licença...

[Adhemar - São Paulo, 18/06/2010]

domingo, 30 de junho de 2013

DUELO NOTURNO

Uma noite, na penumbra,
caminhando solitário
de repente vislumbra
uma torre, um campanário.
De tal visão inda se lembra
que nunca mais a esqueceu.
Ao pé dela uma contenda
que tanto sangue verteu.
Dois campeões encapuçados
ao pé de uma janela
duelavam, encarniçados,
ambos por uma bela.
Cruzam os ferros, terríveis,
quando um terceiro aparece.
Desafia os dois destemíveis
e a cada um diz que vence.
E tal duelo recomeça,
com os três se espicaçando.
O triste final se apressa
mas um quarto vai chegando.
É o que tem prioridade
- é o que aos outros vai dizendo.
Com tão pouca claridade,
os outros três o maldizendo.
E o desafiam também.
Duas duplas se enfrentando.
Por testemunha, ninguém;
só a bela está olhando.
Chega um quinto, o sexto, o sétimo,
todos na briga entrando.
Vão chegando, chega o décimo,
os contendores aumentando.
Ela olha indiferente
a tão singular combate.
Por ela briga tanta gente,
tanta gente que se bate.
É tão sonolenta a donzela,
que apaga sua candeia.
E sai devagar da janela
a rameira da aldeia…
[Adhemar - março/1983]
Duelo!
Outra bobagem escrita à época sob pseudônimo, numa série de cartas que trocava com um amigo. Qualquer hora apresento as barbaridades que ele escrevia de volta…
 
Adhemar, 29/06/2008.

DUELO GRAMATICAL

Desenterrado apesar de certas "licenças poéticas" levadas ao extremo, só pra fazer graça...

Adhemar, 30 de junho de 2013.

INTERSECÇÃO

Um exercício de retórica:
fachada de austeridade e força.
Apesar das aparências
mas visível além da dor,
existe um ponto fraco;
não revelado mas revelador.
O prumo, a pose, o porte.
Nada mais importa
se o espírito está quebrado.
Mas há no mundo dor maior -
não que console ou resolva;
apenas demonstra que há conserto
para o que está diante
do que vai errado.
Atravessando o tempo,
atravessando o espaço:
mudo e declarado!
[Adhemar - São Caetano do Sul, 18/05/2005]

sexta-feira, 28 de junho de 2013

RELÂMPAGO

O H da faísca
é como um vaso etrusco
que se quebra ao movimento brusco
e solta um cálculo que risca

Homem com M maiúsculo
dono de um nariz grego
fala por um olho cego
e pensa por um fraco músculo

O E da lâmpada se apaga
numa claridade bem disposta
escondida atrás de uma lagosta
rudemente bate e afaga

O A da moça atrapalha
perguntando à aeromoça
se ela vai dar uma força
ou se joga a toalha

O menino do L grande
se debate num estrago
no pesadelo devolvido ao lago;
morde a isca ou expande?

O N do velho envelhece
a palavra some na garganta
O B do traseiro se levanta
e a morte o rejuvenesce

O P de tudo interessa;
porém a poesia se aborrece
porque o poeta a esquece
mas, tudo bem, não há mais pressa...

[Adhemar - São Paulo, 05/02/2012]

quarta-feira, 26 de junho de 2013

INDAGAÇÃO

Às vezes surge uma pergunta
que se julga irrespondível.
Vem altiva, presunçosa e prepotente
e totalmente irresponsável.
Chega do nada, envaidecida e desvairada
como se única;
essa pergunta, irriquieta e assanhada
surpreende, provoca e arrebata,
causa espanto, causa pasmo e atrapalha
de tão sem nexo e de tão descabelada.
Essa pergunta caída de repente,
malevolente e mal intencionada
só quer por fogo em nossa vida atribulada.
Essa pergunta atrevida
apesar de tão dissimulada
é uma prensa que nos joga na parede
e nos obriga a repensar a própria vida.
Essa pergunta tão fatal e malfadada
vem de dentro,
rasga o cérebro e a razão abençoada;
rasga a alma já tão cheia de serviço,
semi-desesperada.
Essa pergunta que não cala,
não se aquieta e quer resposta.
Essa pergunta sempre sobe de repente
sem contexto e sem escala.
Quem sou eu?!
[Adhemar, 01/06/2007]
"That is the question!"
Essa pergunta tem uma co-irmã - "o que eu estou fazendo aqui?!". Nem sempre andam juntas, graças a Deus! Mas a resposta para ambas é o modo como vivemos a nossa vida. Eu acho…
Adhemar, 26/06/2008.