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domingo, 24 de novembro de 2013

VÉSPERA

Certamente haverá desencontros, 
descaminhos, revelações. 
Outros planos, desencaixes, desilusões.
Certamente será preciso ouvir outras opiniões. 
Descobrir novos ambientes, 
enxergar mais e maior, novas razões.
Certamente haverá angústias na vida, nos corações. 
Será preciso virar a página, 
registrar a história e suas mil versões.
Certamente será preciso destinar um olhar profundo 
ao abismo das desilusões; 
e o poeta cansará da rima 
e suas limitadas significações. 
Despertará a um só tempo, 
criatividade e moderações. 
E declarará a sua independência, 
comunicando ciência 
de que irá viver ao seu bel-prazer, 
pagando o ‘carnê’ a prestações; 
no entanto, 
se perderá entre tantas combinações 
que seguirá autônomo, impávido e orgulhoso, 
sem ninguém pra dar satisfações…

[Adhemar - S. Paulo, 23/03/2008]

Véspera!
Tem esse nome porque foi escrito um dia antes de começar o "blog"(*); Adhãããã…" Luís Fernando Veríssimo escreveu que, em certas ocasiões, a gente devia deixar o óbvio em paz… Por coincidência, na frase "Será preciso virar a página…" justamente esse trecho é a última frase na folha do rascunho; e já não lembro se a escrevi por causa disto, ou do contexto. Legal!
Adhemar, 08/04/2008.
(*) O blog original, no caso [Arq&Poesia: Lit. (terra)]

sábado, 23 de novembro de 2013

CANÇÃO MANIFESTO PROTESTO POEMA POESIA

Com vontade de escrever
   me faltou inspiração
      tentei me convencer
         a escrever uma canção

            De um ritmo incerto
         que, sem ser um manifesto,
      até tenta chegar perto
   de esboçar algum protesto...

Mas apenas pelo gosto
   nunca pelo tema
      acabou perdendo o posto
         e chegou a ser poema

            O poeta que fazia
         tentou fazer assim:
      produzir uma poesia
   que agora chega ao fim...


[Adhemar - São Paulo, maio/1981]


domingo, 17 de novembro de 2013

O HOMEM ARTIFICIAL

          Hoje em dia fazem crianças através de provetas quando o método antigo me parece muito melhor. Aí, o indivíduo "elaboratoriado" vai crescendo e, durante o seu crescimento, ingere comida enlatada ou sintética; o que, sem dúvida, confere-lhe certa "fibra".
          Seu desenvolvimento é assistido por produtos químicos que ele ingere não diretamente da natureza, como deveria ser, mas: mercúrio do açúcar, bromato de potássio do pão, flúor do dentrifício, cloro da água, alumínio e ferro dos alimentos cozidos em panelas, inseticidas e pesticidas de verduras, legumes e grãos em geral, palha lavada (vulgo - café), água suja (vulgo - leite), afora cromo, ferróxidos e outros componentes advindos dos peixes. Respira chumbo e carbono, quando tem a "sorte" de viver numa cidade grande.
          Eis aí uma bela criação de Deus, ligeiramente alterada por nós: o ser humano artificial!

[Adhemar - agosto/1981]

ARREMATE

  "Após tantas voltas o caminho desemboca na mesma solidão de sempre. Apenas os deveres movimentam a engrenagem e fazem a produção dos movimentos. A luz mortiça e embaçada provoca um véu em frente aos olhos. Mesmo assim, a gente enxerga o destino: transmitir a capacidade de sobrevivência dentro de estreitos limites para que o sangue do nosso sangue vá em frente e realize-se de modo independente e original - em relação a nós mesmos - e seja feliz."

[Adhemar - Boituva, 29/07/2005]

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

SALTO

Cabeça de televisão
Notícia de jornal
Mãos de pouca ação
Deformidade normal

Água com limão
Água com açúcar
Problema e solução
Imagem especular

Susto e maldição
Bendita propaganda
Guerra e contramão
Fruta na quitanda

Verdade e distração
Paisagem da janela
Ideia e coração
Apagar da vela

História e tradição
Calma animal
Futuro, escuridão
Bacana e informal...


[Adhemar - São Paulo, 18/05/2011]

domingo, 10 de novembro de 2013

BRIGA

Você está sempre disposto
a me descompor, discursar.
Me enfia o dedo no rosto
e só fala comigo a gritar.
Pra você estou sempre errado,
não sei nada e por aí vai.
Pra você sou um pobre coitado
que onde estiver, a casa cai!
E você, sempre destemperado,
desanca, descasca e bate.
Eu me finjo de aleijado
para não ir ao combate.
Você já não fala: só grita
Se eu lhe digo "bom dia",
desejando-lhe paz, alegria,
responde: "bom dia por quê?" e se irrita.
E gesticula, e se agita,
nunca nada está bom.
Eu peço: "olha o enfarte, olha a vida,
cuida do coração…"
Não joga uma bola, uma carta,
não toma um chope, vergonha!
Não sai do lugar, não desata,
sempre essa cara de pamonha!
Depois diz que a vida é que é chata,
chato é você, um pentelho.
Não conhece a própria cara,
parece que não tem espelho…
Então, olho no olho, eu - sacana -
"vai te catar, desencosta,
vê se me esquece, desencana,
parece que tu cheirou bosta…"
Finalmente, pra minha surpresa,
você calmo no braço me pega.
Suspira, se apóia na mesa,
reconhece o nervoso, não nega.
Me diz: "tua voz, tão amiga,
em tanto tempo de briga
não me disse sequer uma vez:
- agora te amarro, te bato,
vamos rolar no mato
aos socos e pontapés!"
[Adhemar - S. Paulo, 12/04/2001]
Briga…
A propósito da lembrança de uma discussão havida com um grande amigo num passado… passado! Na verdade, nos dávamos muito bem, ele sempre muito educado, aquele dia sugeriu que brigássemos (de brincadeira, por que nossas desavenças eram muito civilizadas, quase chatas). E mesmo sem isso, brigas ou discussões ásperas, sumiu na poeira do tempo. Vi-o pela última vez no velório de meu pai, pouco nos comunicamos depois disso, enfim, espero que ele ainda ande pelo bom caminho.
Adhemar, 20/04/2008

sábado, 9 de novembro de 2013

ANTOLOGIAS ERRÁTICAS

Quando formos fazer um exercício de retroagir ao passado, espicaçando as lembranças do que fomos ou do que fizemos, teremos de por à prova uma fértil imaginação para recriar uma realidade virtual mais generosa - em julgamento e conteúdo.

Vamos separar essas memórias em capítulos, tipo: origem e infância, adolescência e heroísmo, maturidade e experiência. Vamos pintá-los todos em tons que vão do benevolente ao condescendente, pincelando aqui e ali uns tons de exaltação berrante.

Para terminar, o epílogo, concluindo num monumental e inevitável auto-indulto...

[Adhemar - São Paulo, 06/10/2010]

terça-feira, 5 de novembro de 2013

PRÉ-SENTIMENTO

Hoje, aqui, agora
dando continuidade ao incerto,
ao perfume e ao deserto.
Fotografando o instante,
ver tão de perto quão distante.
Um vazio que se prolonga e é perverso.
A falta de chão, de pés,
de horizonte.
E no mais baixo ponto do caminho,
uma ponte.
Travessia obrigatória,
amurada tentadora.
Lá em baixo uma forte correnteza
pra levar e carregar tanta tristeza;
radicalmente,
secar a fonte.
Mas o olhar se ergue adiante.
Em contraponto ao vazio,
outro desafio se apresenta.
Mais alguns passos na direção do pra frente,
impulsionado por curiosidade e orgulho.
Outros obstáculos,
novo mergulho.
Mais envolvimento, energia e compromisso.
E a fugaz felicidade de atuar,
usar a capacidade,
ou quase isso.
E de repente se dar conta
que a história se repete
na continuidade do incerto.
[Adhemar - São Bernardo do Campo, 30/03/2005]

Editora, estúdio e pensionato

Obra na Vila Mariana, São Paulo / SP, feita por nós em 1999.
O prédio da frente é de escritórios e contém um estúdio de TV, outro de rádio. Ao fundo (quase não aparece), o prédio da residência de padres de uma congregação, na época; atualmente eles venderam ou alugaram o imóvel mas ele continua lá, com o mesmo aspecto. Tem instalações modernas, acabamento de alto padrão e infra estrutura completa.
O projeto (1998) é dessa moça aí, a maiorzinha, arquiteta Stella Maris. Pra azar dela, pedi um autógrafo em 1989 e ela assinou… a certidão de casamento! Se lascou…

A menorzinha é nossa afilhada, Isabella.
Adhemar, 11/04/2008.

sábado, 2 de novembro de 2013

"VIRTUNSTÂNCIAS"

Paro por um momento olhando para as árvores. Tento vislumbrar o futuro em contraponto ao passado: paralelos.

A saudade é uma névoa esquisita que embaça a visão para frente e impede a visão para trás. Os fatos estão ali, nítidos, mas disfarçando-se confundindo-se entre si.

A saudade será mais outras noites sem dormir.

P/ Júlia Iandoli de Oliveira Braga
[Adhemar - São Paulo, 25/12/2011]

"Circunstudes"

Escrito no dia seguinte ao do seu falecimento, no meio do aturdimento da dor da perda que, apesar de anunciada por tanto tempo, sempre indesejada... 
Hoje a Vó Júlia estaria completando 99 anos.
Passamos - família reunida - aquele Natal em torno dela, como em todos os anos anteriores desde que me lembro. Ano passado falhamos. Pouco esforço de alguns, aparente desinteresse de outros...
Quem sabe este ano recuperamos esta tradição tão gostosa e da qual sinto falta...

Adhemar, 02/11/2013