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domingo, 29 de dezembro de 2013

GRUPO


Andei dando uma busca

nessas comunidades digitais

procurando alguém

que nem sei se está nessas redes,

que nem sei se existe

mas contém uns tantos ideais.

Andei procurando gente
de uns modos virtuais,
personalidade que idealizei
com características reais;
nem precisa carne e osso,
face, nome ou coisas mais.

Andei pesquisando pessoas
por critérios abstratos;
já vi caras, caretas
e divertidos retratos.
Mas acabei encontrando um pentelho
não exatamente na “net”:
mas bem diante do espelho…

[Adhemar - São Paulo, 23/05/2006]

sábado, 28 de dezembro de 2013

CENA

Escutar a própria impassibilidade de braços cruzados.
Desdenhar a própria indiferença.
Relaxamento relapso.
Pose blasé.

Deitar os olhos sobranceiramente em domínios ignorados.
Assumir um fingimento.
Esquecido e afetado.
Representar uma indignação fajuta.
Falsificar no semblante um rubor,
um sentimento.
Interpretar feito um ator
numa cena de verdade.
Evidentemente, mentindo!
Aplicar uma ilusão,
se convencer
e fazer da pantomima um espetáculo.
Ou inverter.
E, assim que irromperem os aplausos,
sair descaradamente sem sequer agradecer...

[Adhemar - São Paulo, 24/09/2011]

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

ORAÇÃO

Senhor;
Talvez estejamos cometendo o pecado da soberba, confrontando tudo em que acreditamos com aquilo que aprendemos. Desafiando os rituais, interpretando as preces e, acima de tudo, pedindo e recebendo mais do que dando. No entanto, incorrigíveis e altivos, vimos a ti, mais uma vez - e certos de que nunca nos abandonaste - pedir (sem suplicar) que continue nos indicando os caminhos, de preferência os mais suaves e iluminados. De nossa parte - não é uma troca e sim nossa obrigação - continuaremos nos esforçando para sermos menos mesquinhos, mais solidários, mais atuantes perante nossas responsabilidades diante de nossa família, trabalho e sociedade. Fazei-nos enxergar melhor este mundo, as pessoas e a vida.
Cremos firmemente que quereis filhos fortes, justos e ativos, mais do que fracos, humilhados e rastejantes. Fazei-nos seguir os teus exemplos.
Até o céu,
Amém.
[Adhemar - Santuário de São Judas Tadeu, São Paulo, 18/06/2002]
Desafio…!
Escrito dentro da própria igreja, este atrevido invocamento representa a maneira como vejo nossa relação com o Criador; já que teve a sublime idéia de mandar Seu Filho como exemplo, me faz pensar se não preferia que a humanidade fosse menos subserviente em seus tantos pedidos e reclamos e mais pródiga em ações efetivas e agradecimentos!
Aproveito o ensejo para desejar a todos - independentemente da crença de cada um - um Feliz Natal, que essa data possa ser, além do simbólico aniversário de Jesus, um momento de reflexão para cada ser humano, preferencialmente no alegre convívio com os entes queridos. Que as bençãos desta época sejam abundantes e que permitam uma inspiração de paz e harmonia para o ano que se avizinha.
Grande e fraterno abraço,
Adhemar, 24/12/2008.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

CADEIRA

Na linha do limite da mesa
está uma pilha de livros.
Blocos de papel.
Anotações.
Na linha do limite da visão
estão todas as explicações.
Escrever
é o jeito de não esquecer,
de justificar
- ou ao menos tentar - 
uma existência de vagos sentidos,
de estranhas razões.
A linha do limite das decisões
que não se encontram nos livros,
nos blocos de papel
nem nas anotações.
O embarque de tantas histórias
nas plataformas de outras estações.
Matéria atraindo matéria
na proporção inversa das massas,
sabe-se lá por quais razões...
Na linha do limite da física,
sem muitas explicações.
Na linha do limite da história,
um horizonte de ilusões.
Poesia fora das linhas, 
calor fora dos verões...

Na linha do limite da mesa
há a cadeira e posições.
conforta pra pensar à frente,
casaco às costas
e outras divagações.
Prosa cheia de ritmo,
desenhos e projeções.
Nos limites do futuro,
linhas embaralhadas.
No conforto da cadeira,
ideias embaralhadas.
Na linha do limite dos pensamentos,
inúmeras soluções.
comidinha natureba,
feijoada e camarões.
No limite da linha da vara de pesca,
isca e variações.
Paris no meio da conversa,
Madri, Lisboa, aviões.
Viver o que vem pela frente
no limite da linha das emoções.
Mesmo afobado,
mesmo cheio de considerações.

Na linha do limite dos desafios,
uma mesa cheia de lições.
Os lápis estão num pote;
a inspiração, nos corações...

[Adhemar - São Paulo, 19/04/2012]

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

RECONSTITUIÇÃO

"Aos pedaços e lentamente, 
eu me recomponho. 
Me recupero dos tropeços, 
de tantos recomeços, 
mas volto aos mesmos traços, 
aos embaraços do não saber."

"Não saber por onde, 
não saber por quê. 
Por quais caminhos percorrer novos retornos, 
novos compassos. 
Pra quem os braços estender? 
Como entender os enigmas, os impasses? 
A quais repertórios recorrer 
pra fugir do frio da indiferença, 
aguda como o aço?"

"Fragmentada e desinteligentemente 
ver morrer os sonhos no fracasso. 
Desorientadamente se perder, 
passo por passo. 
Ao desconhecido remeter 
um desespero crasso. 
E na desilusão se prometer 
um alentamento levantando os braços; 
e lutar insistentemente pra vencer 
os entraves e os nós. 
Nos desatados laços perceber 
que há vida possível além da dor."

"Nervos de aço vão ferver 
sem derreter na pedra o elo fraco. 
E se levantar, sorrir, correr, 
subir nos seus escombros 
para ver além do horizonte; 
sobre os próprios ombros 
olhar pra trás e aprender… 
Do lixo reciclado renascer, 
partir feliz e realizado; 
ser, estar, ficar, viver."

[Adhemar - S. Paulo, 03/05/2006]

domingo, 8 de dezembro de 2013

DIAGONAIS

Não é um manual de sobreviviência
Não é um livro de auto-ajuda
Não é um tratado de ciência
Também não é um Deus-nos-acuda.

Talvez um diário de bordo
Mas não "meu querido diário"
Não é a Bíblia, concordo
Nem é um boletim-semanário.

É apenas um pequeno registro
Ou um caderno de impressões
Suado, chorado, bem quisto
Que toque vossos corações...


[Adhemar - São Paulo, 27/05/2006]

sábado, 7 de dezembro de 2013

DO SILÊNCIO SOLENE

"Quando nada houver para ser dito, cale-se! Nada pior do que a verborréia inútil e desnecessária, sem conhecimento de causa e totalmente gratuita; tolamente desperdiçada. O grande pensamento conselheiro, representado na quietude do momento, antecede a grande frase, o resumo do absoluto: o que pode ser dito direta e objetivamente, acrescentando mais um passo na trajetória do assunto."
"É uma ciência. Palavra por palavra formando a grande teoria filosófica, simplificadora dos processos e meios de vida, enfim, assim definida em rasos e cortantes conceitos. Breve reflexão, conciso pronunciamento; que só deverá ser replicado após outro circunspecto hiato de sons e de caos."
"A organização precisa e contundente dos pensamentos mais íntimos vai ecoando pelas paredes da idéia geral que se necessita provar. Calmamente. E a idéia geral vai se construindo ponto a ponto. Entre um gole e outro, olhares penetrantes e suspiros profundos. Não seja idiota, não se deixe enganar. Fale do que não sabe com poucas e curtas frases, sustente com classe a sua tese, mesmo diante de um especialista. Mas apenas utilize o cerne da questão. E, se mesmo assim estiver perdendo a discussão, responda apenas com um solene silêncio essencial."
[Adhemar - S.Paulo, 13/12/2004]
Tese aplicada
Escrito após uma conversa de boteco onde estavam reunidos em torno de uma mesa diversos especialistas em generalidades.
Adhemar, 10/04/2008.

sábado, 30 de novembro de 2013

TUBOS

Funções. Distúrbios. Passagens.
Mudanças de humor.
Aparato.
E o famoso rumo dos acontecimentos
passa acelerado,
tanto para o futuro
quanto para o passado.
Frente e verso
da página virada hoje.

Arremessos. Arremedos. Complicações.
Raízes da equação.
Quantos graus...?
A temperatura amena da paz.
A divisão e o reaproveitamento
tanto para o pensamento
quanto para os ideais.
Centralidade da resposta
na própria questão.

Fumaças helicoidais...


[Adhemar - São Paulo, 30/11/2011]

domingo, 24 de novembro de 2013

MINHA AVÓ

EIS
Trazer-se aos noventa anos é sublimar uma condição tão divina que a própria luz natural se encarrega de iluminar o caminho.
Chegar aos noventa anos, ao estrelato absoluto que nenhum "Oscar" jamais conseguirá recompensar. É uma consagração - talvez ofegante - mas um desafio altivo e vivaz que os sofrimentos e alegrias não chegam a abalar.
Estar, aos noventa anos, cheia de compostura e energia para reptos e premiações, reunir seguidores e adeptos, separar estranhamentos e unir desafetos; ensinar brincando e amar incondicionalmente.
Sinceridade?
Não é para qualquer um não.
Somente uns poucos escolhidos e muito preparados.
Somente um enorme coração onde cabemos todos nós.
Somente nossa Mãe, Vó, Bisavó e Tetravó…
Parabéns, Vó Júlia, saúde e juízo, hem?
Orgulho de todos nós.
[Adhemar - São Paulo, 02/11/2004]
Vó Júlia
Pois é, moçada, amanhã ela vai completar 94 anos! Apesar de um pouco confusa, pela fragilidade da saúde, ainda tem energia para conversar, adora os bisnetos (e tem uma tataraneta que mora no Espírito Santo), ainda brinca com eles e se encanta com eles! Sobreviveu ao falecimento de uma filha (Tia Nilce - "post" de 11/07/08), do meu avô (Meu avô - "post de 28/05/08) e está aí, um exemplo de determinação e dedicação à família. Temos muito em comum: gostamos de abacaxi (nossa fruta predileta), achamos que a boa educação e a gentileza cabem em qualquer lugar sem ocupar espaço, ela me ensinou muito sobre as diversas fases por quais passam as crianças e pequenos truques que auxiliaram na educação dos meus filhos e, de quebra, ela é minha madrinha! Deixo aqui um grande beijo e um enorme abraço de mais do que neto, fã mesmo. E peço a gentileza da tia Nádia (outra pessoa que será devidamente relatada aqui) ler pra ela essa babação de ovo aí em cima, apesar de ter dado a ela o texto principal deste "post" há quatro anos. Amanhã almoçaremos juntos pra te reverenciar, Vó.
Adhemar, 01/11/2008.

VÉSPERA
E por falar em véspera: o texto acima foi postado um dia antes do aniversário de minha avó Júlia (94 anos, então), em 01/11/2008. 
Com Vítor e João, dois de seus bisnetos, em foto tirada em 24/12/2010, exatamente um ano antes de sua partida.
Saudade...
Adh, 24/11/2013.

VÉSPERA

Certamente haverá desencontros, 
descaminhos, revelações. 
Outros planos, desencaixes, desilusões.
Certamente será preciso ouvir outras opiniões. 
Descobrir novos ambientes, 
enxergar mais e maior, novas razões.
Certamente haverá angústias na vida, nos corações. 
Será preciso virar a página, 
registrar a história e suas mil versões.
Certamente será preciso destinar um olhar profundo 
ao abismo das desilusões; 
e o poeta cansará da rima 
e suas limitadas significações. 
Despertará a um só tempo, 
criatividade e moderações. 
E declarará a sua independência, 
comunicando ciência 
de que irá viver ao seu bel-prazer, 
pagando o ‘carnê’ a prestações; 
no entanto, 
se perderá entre tantas combinações 
que seguirá autônomo, impávido e orgulhoso, 
sem ninguém pra dar satisfações…

[Adhemar - S. Paulo, 23/03/2008]

Véspera!
Tem esse nome porque foi escrito um dia antes de começar o "blog"(*); Adhãããã…" Luís Fernando Veríssimo escreveu que, em certas ocasiões, a gente devia deixar o óbvio em paz… Por coincidência, na frase "Será preciso virar a página…" justamente esse trecho é a última frase na folha do rascunho; e já não lembro se a escrevi por causa disto, ou do contexto. Legal!
Adhemar, 08/04/2008.
(*) O blog original, no caso [Arq&Poesia: Lit. (terra)]