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terça-feira, 2 de setembro de 2014

VONTADES

"Eu queria querer", como Caetano,
"Eu queria ser poeta", como Benito.
Eu queria ser bonito.
Eu queria ser como o Chico.´
Às vezes eu quero também
um retorno estratégico.
Eu queria ser neném,
ou então, um anestésico…
O que a gente não faz,
não é mesmo, pra arrumar uma rima?
Até querer ‘tanto faz
como tanto fez’ aí em cima…
Mas talvez eu não queira
aquilo que ainda não sei.
Quero aprender besteira
e quero-não-quero talvez…
Neste ponto da minha vida,
neste ponto deste ‘carnaval’
quero apenas fechar estes versos
pondo neles um ponto final.
[Adhemar - S. Paulo, 25/06/2000]
Vontade
A primeira estrofe contém um trecho de frase da música de Caetano Veloso, Quereres e outra de Benito de Paula: eu queria ser poeta, além de brasileiro, pra poder cantar o Rio, nosso Rio de Janeiro… Quanto ao Chico Buarque de Hollanda,só um testemunho da admiração que tenho por um dos maiores e mais habilidosos compositores brasileiros.
Adhemar, 22/05/2008.

SANSÃO

É a tentação da sensação.
Castigos e sanções.
Senso comum, satisfações.
Desnutrida composição.
Lapso de tempo, coordenação.
Desgosto, distensão.
Um vôo à vontade, incompreensão,
parece miragem, invenção.
Força oculta num músculo,
uma ópera de avião.
Estendido o tentáculo minúsculo
numa única direção.
Mão única, declaração.
Aperto tão sem razão.
Escada sem corrimão,
diferenças em reunião.
Representantes em comissão.
Alergias em comichão.
Balaústres, terraço, balcão,
vôo aéreo em balão.
Artefato de explosão,
abrigo de temporal e paixão;
tristezas e alegrias em profusão
no motor do peito, coração.
[Adhemar - Sto. André, 24/05/2004]

ORQUÍDEA


Lilás e branco, representando dignos um afeto anônimo.
Emocionado reflexo do equilíbrio dos teus olhos.
Um bilhete anônimo,
anônimo como o amor emocionado.
Adocicado afeto, dedicado e sincero.
Fiel e tão perene como lilás e branco.
No bilhete denunciado
o admirador se mostra semi-revelado.
Se pode ser ele um poeta calado,
mas nem tão calado que não se revele pelo próprio punho;
idéias lilases,
tudo em brancas nuvens
pra ser mais intenso esse amor calado.
Tal qual o poeta, anônimo e noturno,
tal qual um cometa, aceso e apressado.
[P/ B.S.F.]
[Adhemar - S. Paulo, 16/06/1988]
Flor
Por um ano seguido (meados de 1987 a meados de 88) fui obcecadamente apaixonado por B.S.F., que conheci numa viagem; apesar de jovem, era muito sensata, não se deixou levar (embora eu ache que tenha se assustado com a intensidade da minha manifestação). Se eu for publicar um livro de poesias, ele terá um capítulo chamado "poemas do amor desesperado" que conterá quase toda a "produção" desse período. "Orquídea" foi escrito na fase em que já me conformava em seguir sem ela (na verdade, substituída em meus devaneios por outra linda moça, E.C.B., com quem também não deu certo; mas isso já é outra história…).
Adhemar, 24/05/2008.

CAMPEONATO DE POTOCA (5)

O amigo do catador
             É um humilde catador de papel. Vive do que coleta nas casas e no lixo da Vila Mariana (em São Paulo / SP), carregando na sua carriola de duas rodas (achadas no lixo de uma bicicletaria). A madeira ganhou numa feira livre (ex-banca de laranjas avariada numa queda do caminhão) gentilmente cedida pelo proprietário, um "laranjeiro", a trôco de uma ajuda para carregar uns "teréns".
             Sempre prestativo, faz pequenos serviços à comunidade local: troca lâmpadas para o advogado, toma conta por alguns momentos de uma criança para a moça da casa amarela; faz a feira para uma terceira, pega as crianças na escola para aquela quarta, todo mundo confia nele! Nos entremeios, recolhe o papel descartado pelas lojas e demais estabelecimentos comerciais e também garrafas - aliás, um favor que faz a outro colega seu, também catador. Apara a grama e poda as árvores para a velhinha que mora numa esquina. Todo mundo faz questão de guardar papel e papelão para ele.
             Pois não é que outro dia, vindo da estação Ana Rosa do metrô em direção ao trabalho, vejo-o transportando um cão em seu carrinho, vazio das outras coisas. Ante o espanto geral e o meu em particular, vai dando ordens prontamente atendidas pelo vira-lata: "senta aí, não se mexa", "quieto pra não cair", "sossega matuto", etc. A seguir explica: "o pobrezinho quebrou uma pata, foi atropelado; ele entende tudo que a gente fala. Vou levá-lo ao veterinário da rua de baixo, quem sabe não ganho um amigo pra percorrer comigo as ruas do bairro e trabalhar conversando…"
[Adhemar - São Paulo, 07/02/1999]
Toda brincadeira sempre tem um fundo de verdade. O personagem da história acima existia mesmo (não sei se era tão prestativo) e conversava de fato com o cachorro.
Adhemar, 25/05/2008.

VAI-VÉM

A nossa intensa vida, feito uma longa montanha russa
acelerada, desalinhada, desabalada e descontrolada,
por vezes nos acolhe mas quase sempre nos expulsa
para tantos afazeres inúteis, coisa inacabada…
De repente a gente tenta mudar tudo numa freada,
acomodar num tranco a bagagem, as idéias e as atitudes
no singelo intento de tornar a vida mais sossegada
aperfeiçoando os sonhos, os ideais e nossas virtudes.
Só que depressa sobre nós desabam tantas vicissitudes,
nossa vaca vai pro brejo, nos perdemos e atolamos
nos mesmos velhos problemas que desde a nossa juventude
não resolvemos, nem substituimos: só adiamos.
E as escolhas vão ficando mais restritas? Ora, vamos!
Se fomos nós que, iludidos, nesta vida consentimos
nos esquemas, nas facilidades em que nos acomodamos
mas que depois nos confinaram e nem pressentimos!
Nossa percepção embaçada por falsos ideais que perseguimos;
a riqueza, o poder, glória e reconhecimento
contra exigências absurdas que nós nem redarguimos
deixando o espírito ideal num profundo esquecimento.
Até que, da cobrança consciente, chega o momento
de prestarmos contas a nós mesmos, se somos felizes.
Que fizemos nós das oportunidades, do talento?
E seremos nós nossos próprios acusadores e juízes.
Não bastará voltar atrás nem mudar cores e matizes.
Melhor não mentir para si mesmo e assumir a culpa
de ter se afastado do caminho e de cometer deslizes
e de adotar posturas como quem se auto-indulta.
No planejamento tão pequeno - não se vê nem com uma lupa -
depor sinceramente num poema, versos extensos,
arremessados ao mundo de uma imensa catapulta
e lavar a alma, serenar o espírito, gestos intensos.
Esses versos voadores de conteúdos propensos
a salvar a vida do guerreiro e seus enganos…
Caído em si e posto em trabalhos mais que imensos
retoma o entusiasmo, alegra-se com tudo: agora vamos!
E vai, veleja velozmente içando totalmente os panos.
Sente-se livre e novo, cheio de vivacidade e altivez
sem perceber que nossa intensa vida, ledos desenganos,
nos empurra sempre para um "outra vez"!
[Adhemar - São Paulo, 18/04/2008]

SE

Um bloqueio.
De repente, no meio do nada,
debaixo de chuva,
na rua alagada.
           De repente, no nada do meio,
           longe de tudo…
           As penas molhadas
           na cara do mundo…
Fora de casa,
na casa alugada;
bloqueio do mundo
no meio do da estrada.
          Andando em círculos
          procurando o abismo
          das coisas cismadas
          como o destino.
Andando, andando
às tontas, à esmo;
entortando tudo
e voltando ao mesmo.
          Ao mesmo bloqueio,
          à mesma estrada.
          Lugar nenhum
          no meio do nada.
[Adhemar - São Bernardo do Campo, 16/11/2004]

FLAGRANTE

         Enfim, o repouso do caçado. Cessaram os ruídos dos helicópteros, das sirenes, do ladrar dos cães. Despistados os perseguidores? Ele não sabe mas, mesmo assim, toma alento. Um suspiro, um meneio, uma sonolência e um sonho. Um sonho de liberdade, de utopia. Um sonho dentro de um buraco, atrás de uma moita. Um sonho azul como o cenário do vôo de um pássaro, como o sorriso de uma moça e como a água cristalina de um riacho. O ruído de pisadas na vegetação rasteira é o de crianças a brincar de pique-esconde. Mas gotas ácidas de suor fazem arder os olhos; estes abertos, já não sonha mais o perseguido. A dolorosa e fria realidade volta mais forte; o escuro dessa toca representa mais um passo dado para não sei onde. É preciso sair e ir mais longe, onde a busca cesse.
          O fugitivo então se levanta escutando atento; olha pros lados, escolhe um a esmo e sai correndo, antes que suas tantas dúvidas o alcancem.
[Adhemar - São Paulo, 16/12/2004]

MEU AVÔ

Vida.
Essa misteriosa concessão por tempo definido, mandato finito que cumprimos ou nos é cassado.
Vida.
Obra original de cada artista, inédita ou exposta, sucesso ou fracasso.
Vida.
E aqui estamos nós diante do fato consumado. Do fim de uma obra, uma escultura elaborada por um delicado cinzel, goivas e espátulas, todos os detalhes finamente rematados.
Aqui estamos nós, a um tempo parte da obra e espectadores entusiasmados, inspirados e gerados pelo artista.
Aqui estamos nós, uns muito privilegiados pelo convívio, pelas suaves e generosas lições fisicamente recebidas e delicadamente ministradas.
Aqui estamos nós diante da grandeza do infinito, da grandeza do ser humano ímpar e que é a nossa meta: quem sabe um "meio por cento" cada um, para fazer um décimo - quiçá um quinto - de um humano mais que humano, mais que irmão e mais que amigo. Um filho, um marido, um pai, avô e bisavô; e sabem do que mais? Tataravô!
Nós, súditos ou vassalos dessa realeza tão gigante, tão dôce e tão dedicada? Pois reconheçamos, é um nosso meio-sol que se apaga; se transfere a outra praça, vai iluminar outra morada. Deixa aqui seu complemento, implemento e suplemento, seu motor e sua amada; um meio-sol para não perdermos nossas órbitas tão ovais, desconjuntadas. É sua melhor referência.
Vida.
Nem sempre amarga, nem sempre afaga. Nos deu o dôce, a doçura e a namorada do nosso herói, do nosso mundo.
Vida.
Essa curiosa montanha escalada que transforma nossos ídolos em mitos.
Muito obrigado e até mais, Luiz de Oliveira Braga (06/11/1910-02/01/2004).
[Adhemar - 03/01/2004]
Hoje, que seria o dia do aniversário de meu pai, fica o escrito dedicado a outro de meus ídolos, o pai de minha mãe. Devem estar jogando cartas no céu, com o Tio Sanna (que chegou lá primeiro), grande figura e amigo, a ser apresentado em outra ocasião.
Adhemar, 28/05/2008.

GENTE +

Já vi gente de todos os tamanhos.
Já vi gente fazendo coisas muito estranhas.
Já vi gente que só consegue viver de sonhos
e pessoas que se perdem nas entranhas.
Existe gente que é pura esperança;
e tem miúdo que se faz passar por grande.
Tem aqueles que vão sempre ser criança
e os de pequeno passo que vão longe.
Já vi adultos se comportando infantilmente;
e tem moleques que são verdadeiros velhos.
Já vi ninguém se fazendo de importante
e importantes sem querer aborrecê-los.
E tem de tudo, geniais, incompetentes,
altaneiros, esforçados, arrogantes.
Tem alguns feito pedra, outros inteligentes,
há os convencidos, os sabidos e os insignificantes.
Mas o que importa ao fim das contas, veja só,
é algo tão básico e de tal magnitude
que a verdade é certeira e sem dó:
o que importa é que se tenha atitude!
[Adhemar - S. Paulo, 28/04/2008]

PRÍNCIPE

O silêncio é o meu nome sagrado.
Minha paz se faz pelas mãos.
O conhecimento acumulado
faz de mim mais meu irmão.
Um minuto de paz, de desejo,
transcender todo bem, todo mal.
Nas cinzas do amor, em lampejos
é preciso ter punhos de sal.
No cansaço, na dor, na ruína
penso em quem conheci por acaso.
No caminho da sombra tão fina
separei o carinho e o descaso.
Descalço, impotente e pelado
creio que tive o castigo;
por perdido o rumo traçado,
fui expulso do meu paraíso.
Condenado, vivendo no inferno,
precisando suportar o pior,
na clareza da idéia do eterno
sofrimento é o castigo maior.
Esquecendo o que um antigo contava,
chorei por mim e pelos circunstantes.
Mas por mais que esforçado faltava
o entusiasmo e a seriedade de antes.
Altas horas, a cabeça pensando
vai tentando justificar o inviável.
Na ignorância dos atos insanos
a atitude é inimaginável.
São palavras, depoimento insensato
de um homem que perdeu o radar.
Hesitante, segue torto e sem tato,
pois não sabe mais se orientar.
Ergue os braços, chama a tempestade.
Ergue os braços, fica aos céus a clamar.
Tira os panos da estátua de mármore
tão perfeita que só falta falar!
Qual estátua, qual morte, que nada!
Todo o tempo não vai mais chegar.
Pois a magra te pega, te rapta
e ficará tão vazio teu lugar…
Essa tal inquietude me escapa,
tanto tapa transmite pro ar.
Nega tudo, não digo? - Calada!
Meu repouso é o sono chegar.
Tanta coisa a dizer, falta força.
Tanta a coisa a aprender, estourei.
Pelas bocas eu encho uma bolsa
e o futuro me diz: - és teu rei…
[Adhemar - São Paulo, 01/06/1987]
Principesco…
Escrito no dia em que completava vinte e quatro anos, expressa o estado de espírito de um camarada meio sem rumo, desempregado e com o coração em ruínas. Apenas pressentia que fortes ventos se avizinhavam e que a vida ia ficar mais bagunçada ainda!
Adhemar, 31/05/2008.