Pesquisar este blog

domingo, 14 de setembro de 2014

DUPLA (2)

Entre dois corações
a emoção permanece;
amor à primeira vista,
amor à primeira prece.
Palavras de acolhida,
lembrança do que brotou
e do que é tão bonito
que em dois corações se gravou.
E nesse futuro infinito,
sentir tão de perto o teu ser
confundindo os dois corações
nessa emoção que é viver.

P/ SHFC
[Adhemar - São Paulo, 08/05/1987]

Duas duplas…
Há outra poesia denominada “Dupla”, postado em 20/06/2008.
[N.A.: repostado em 05/09/2014]
Adhemar, 17/01/2009.

CANTO

          Barulhos não me incomodam mais, ruídos estranhos de um momento aprisionado numa fotografia. Aliás, este outro mito derrubado; não se aprisiona o momento, apenas se copia e imortaliza o fato, continuado depois, ao sabor do tempo…
          Arrastando consigo a memória, ávore tênue mas firme, curvada pelo vento, em ruídos e lembranças a foto guarda em seu fundo o som ambiente do momento. Experiente, indiferente, qual a diferença de não se assustar nem um pouco com a lembrança desses sons perturbadores…?

[Adhemar - São Paulo, 30/07/2000]

RUA

De fora a gente vê
a luz azulada da TV.
Então, um pouco antes,
a movimentação dos estudantes.
Azul dentro de azul -
sempre funciona.
Nos braços do Cruzeiro do Sul
a ponta dessa zona.
A mais atrevida
saltou lá na avenida
e sem sinceridade
entrou na faculdade.
Sobraram as mais simples,
diretas, retas, práticas.
Efetivas, lindas, livres,
exatas, matemáticas.
São imagens, são paisagens
crepusculares, noturnas.
Acontecimentos rotineiros,
cotidianos e singulares…

[Adhemar - S. Caetano do Sul, 02/05/2005]

PROPOSTA

Andar na luz sem fazer sombra
e mesmo no calor não desistir.
Completar o trajeto lento e altivo
e aos obstáculos contornar.
Escrever assim pra sentir vivo -
e como é emperrado o pensar!
Viver, voltar a conseguir
um descanso fresco na penumbra.
Bater a cabeça e chacoalhar
para renovar idéias velhas.
Abrir os braços pra espreguiçar
e reescrever poesias e novelas.
Quem sabe, se o assunto melhorar,
a gente não apanhe novidades
nas melhores e maiores faculdades
aprendendo a crescer e a pensar…
Pensar é preciso; ocupar a mente com idéias,
gerar um pensamento propulsor.
Buscar os meios de executar
e prosseguir para além da própria dor.
Pensar e não se agredir,
levar o material pra passear.
Invadir feudos e espionar;
partir, curtir e discutir.
Encaminhar os recursos de moldar
uma nova situação a definir.
Aquecer as mãos, se deslocar,
eliminar uns tantos por fazer:
se realizar…

[Adhemar - São Paulo, 26/05/2006]

DELÍRIO NOTURNO

          Há certos momentos em que a gente perde a noção de tudo. Por cima das estrelas da noite há um grande espelho flutuando no espaço, cada estrela é o reflexo de cada um de nossos poros brilhando mais itensamente quanto mais brilharmos por dentro. Um grande espelho oculto de nossos próprios sentimentos. Amedrontador é saber que a imagem dos nossos secretos pensamentos está caminhando pelo ar e fica escrita no céu através de luzes intensas ou tímidas, recortadas no negrume da noite e que qualquer um pode lê-la, porém - ah, que bom! - tanta gente passa por tudo isso e nem percebe, não olha pra cima nem de dia, nem de noite e, quando olha - bem - quando olha vê apenas vagos pontos azuis brilhando límpidos, revelando tudo, inclusive a si próprias, mas pensam que são apenas estrelas; mas é como se toda essa gente fosse analfabeta da leitura das estrelas desprezando, desse modo, a sua própria ligação com o céu. E a gente fica tranquilo porque ninguém sabe ver direito e nem desconfia do que tá acontecendo. Mas o que é isso?! De repente alguém sem mais nem pouco vem chegando e dá o serviço direitinho: vendo tudo o que a gente é, fica dona dos nossos segredos; mesmo de longe fica lendo o que a gente está sentindo. Então dá uma aflição gostosa de repartir o que é só nosso, há mais sorrisos e cada sorriso gera uma nova estrela… Mas não dá tempo de curtir direito, o sonho está acabando, o dia amanhecendo…

P/BSF
[Adhemar - São Paulo, 26/04/1988]

CACHOEIRAS

Quando toda a luz se derramar
e o mar virar sertão;
quando toda a treva se acabar
e o bar for contramão;
quando toda a vida se esvair
e não ir não vai dar não;
quando toda a brisa te beijar
e o já passar então…
Vai teu coração se contrair,
vai tua razão te bronquear;
vai cada teu gesto desmentir,
vai o teu amor desconfiar.
Pior; o teu amor vai descobrir
que não passas de uma fraude regular
que não tem onde ficar nem onde ir.
Estarás, então, entregue à correnteza.
Estarás perdendo, enfim, toda razão.
Não adiantará contrariar a natureza
porque serás caso perdido na emoção
nem irás remover com tal certeza
a dor que carregarás no coração;
nem devagar nem com presteza.
Mas se fores presa de atenção,
se contornares o sentimento aflitivo
sendo capaz de estender a própria mão;
terás como um futuro só definitivo
a escapar do amor-paixão,
similar ao remédio mais paliativo
sempre aplicado com reservas, com senão,
enquanto negas pra ti mesmo que és cativo…
Mas se a sorte que te cerca te sorrir;
se tua sina for viver então feliz…
Preencha logo o formulário onde assina
a ficha de continuar um aprendiz.
Um aprendiz de repertório variado.
Um aprendiz do amor e da beleza.
Um vivente mais seguro e sossegado
que não despreza o que as cartas dão na mesa.
Quando então toda a luz só se tornar
ante olhos turvos apenas em escuridão,
tu possas plenamente se lembrar
que todos nós somos só contradição!

[Adhemar -  São Paulo, 27/06/2008]

PRENÚNCIO DO ADEUS

No recôndito da solidão
não sei se te acolho ou te afago…
No desejo do meu coração
sempre junto de ti eu me trago…
Quis ter a certeza de saber o caminho.
Oferecido a ti, resgatar a nova vida.
Quis, ao teu lado, criar um nosso filho.
Mas me rejeitaste por um falso brilho…
Quis mudar o rumo triste desta nossa história.
Mas a incompreensão fez-se tua acolhida.
E tão despojado quis-te perto ainda.
Mas me rejeitaste, tão cruel e linda…
Quis criar um mundo, novo e simplificado,
em relações diretas entre humanos fatos.
Mas quis o destino fatos separados
e foi provando aos poucos, estávamos errados.
Quis recomeçar do nada, tornar tudo ao certo.
Mas, perdido o rumo, vago o pensamento,
livre o coração quis te buscar de novo.
Mas o vazio imenso que ainda persiste
é não mais amar;
e chorar agora não é mais consolo…

P/MG
[Adhemar - 15/05/1987]

SILHUETA

      Um recorte nas mãos evocando uma recordação. A cabeça chacoalha balançando os pensamentos. Perplexidade. Idéias misturadas querendo dizer tantas coisas que a garganta não ousa deixar passar. Estrutura, é tudo o que pede esse caos consciente, indo e indo a frente, acelerando além dos limites. Provocações suaves comportando larga faixa de decisões, de atitudes refletidas e pensadas.
          Uma tese, um pano de fundo para ilustrar as ilusões.

[Adhemar - São Caetano do Sul, 06/06/2005]

MÃE NATUREZA BRASIL

Terra materna
concebe, recebe e alimenta,
consola, ensina e acalenta,
tão dôce, tão mãe e tão terna.

Terra materna
agasalha, encaminha e aconselha,
abraça, envolve e espelha,
adorna, adormece e hiberna.

Terra materna
caleja, honra e enriquece,
castiga, admoesta e agradece,
perdoa, abençoa, é eterna.

Terra materna
acompanha, enobrece, se importa,
empurra, incentiva e adota,
cura, socorre e interna.

Terra materna
que adora e engrandece primeiro,
que chora, saúda e acena
e carrega no ventre um filho estrangeiro...


[Adhemar - Santo Antonio do Amparo-MG, 14/07/2006]

PROCEDIMENTOS

Os estranhos rituais de aproximação e afastamento,
instintivos, animais.
Amor, paixão e acasalamento,
todos fora dos conhecidos manuais.
 Chegadas, partidas e pressentimentos
embebidos nos modelos atuais.
Modernidade, ações e pensamentos
em intuitivos balés processuais.
Palavras, murmúrios e lamentos,
passos, meneios, balanços e jograis.
Aceitação, receptividade e consentimento
em balões de ensaio consensuais.
Entendimentos banais
em balançados corações afetivos e compromissados.
Comissões, parlamento e manifestações casuais
num abatimento tímido.
Até o desabrochar da atitude madura
quando os modos infantis não voltam mais.

[Adhemar - Ilhéus, 25/01/2008]