Na semana retrasada
fui a um bar/café na Avenida Paulista com a minha namorada. Estávamos
apreciando um smoothie de morango
quando, como acontece muitas vezes nas principais vias da cidade, fomos
abordados por uma menina de rua. Estimei que tivesse entre oito e dez anos de
idade. Ela estava vendendo chicletes, cada pacote por um real. Como eu não
tinha nenhuma moeda ou dinheiro trocado no momento, educadamente recusei. A
resposta dela à minha recusa me surpreendeu e se tornou o motivo da existência
deste texto. Ela olhou para mim e disse: “Moço, você não está sendo cavaleiro.
Podia comprar um para ela”. A princípio, fiquei desconcertado. Depois, me
justificando, disse que eu estava mesmo sem trocado e brinquei que, se ela
aceitasse cartão, eu compraria. Mas a sagacidade dela surtiu efeito, prática e
simbolicamente. Minha namorada imediatamente abriu a bolsa, pegou dois reais e
comprou dois pacotes do chiclete verde (o recomendado pela vendedora-mirim).
Além disso, ainda brinca comigo frequentemente relembrando a situação. O efeito
simbólico, por sua vez, foi a reflexão suscitada pelo acontecimento: a garota,
apesar de trocar cavalheiro por cavaleiro, revelando falha no domínio da
língua, demonstrou desenvoltura e espirituosidade de fazer inveja a comerciante
experiente.
O mais intrigante dessa história é imaginar como se deu a
formação do repertório daquela garotinha, que a permitiu dar uma resposta tão
inteligente e ágil à negação de um cliente. Pela magreza que apresentava e
pelas roupas esfarrapadas que vestia (sem contar o fato de estar tentando
conseguir dinheiro na rua à noite), deduzi que ela não havia tido oportunidade
de estudar até então. Se é que ia à escola, dificilmente teria tempo e condição
para se dedicar aos estudos. As hipóteses para explicar as origens da esperteza
da menina são diversas: necessidade, experiência, vivência, exemplo...
Infelizmente é improvável que eu venha a descobrir. Mas, pelo menos, pude
formular duas questões a partir do episódio que valem ser compartilhadas.
Primeira, quantos talentos como o dela são desperdiçados por falta de
oportunidade para desenvolvê-los? Segunda, quantas histórias fascinantes, como
provavelmente é a dela, nunca serão conhecidas?
[Marco Luiz Netto Braga de Souza, março/2014]
(*) MOÇO DE VINTE ANOS
Este ano há uma série de aniversários na família que encerram idades "redondas" ou múltiplas de 5 anos; 15, 20, 25, 50, 65, 70... Hoje faz 20 o autor da história acima, estudante de jornalismo e estagiário num portal de internet de um grande veículo de comunicação. Foi escrita para um trabalho da faculdade e, como gostei demais da forma como abordou o tema e da escrita irrepreensível, pedi-lhe autorização para colocá-la aqui neste blog (quiçá para melhorar o nível do espaço...).
Parabéns ao Marco pelo aniversário e pela maneira como escreve, pelo time que torce, pela namorada, pela mãe que tem e por ser meu filho! Grande abraço!