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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

IMPÉRIO

O Rei supõe nossa renda.
Os tributos escorchantes
revelam da corte disposição.
Os súditos exauridos
encontram na morte solução.

Para festas querem nossa prenda.
Os pedidos são hilariantes,
revelam falhas da organização.
Os contribuintes, falidos,
esbanjam satisfação...

Para tudo querem que entenda
que será tudo melhor que antes;
revelam cínica ingenuidade
aos súditos enfurecidos
em cíclica "revolução"!

Uma revolução à venda
por inigualáveis montantes,
que corrompem os idealistas:
populares enfraquecidos
entregues a festejos populistas...

Boas e más intenções:
Tudo morre com TV, futebol e pães.

[Adhemar - São Paulo, 27/04/2014]

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

"CONTRALUZ"

Furtivamente a sombra denuncia
a silhueta que na sombra se confunde.
Aflitivamente a silhueta desperta
junto com o medo que a sombra lhe infunde.

Infinitamente a sombra dá sinais
que a silhueta simplesmente desconhece.
A silhueta recortada altivamente
na própria sombra se esconde e desvanece.

Educadamente a sombra se despede
já que a luz invade a silhueta.
Silhueta e sombra misturadas na penumbra
e na imagem desenhada que se inventa.

E a sombra diz adeus,
e a silhueta desfalece e some;
a silhueta é apenas um desejo
enquanto a sombra é a própria fome...!

[Adhemar - São Paulo, 30/06/2010]

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

EXCESSOS

Muita luz, muito calor,
sabor de pedra,
força de tapas,
profundezas, dor.

Do centro da garganta,
gritos de amor,
afogamento programado,
espontaneidade tanta.

Itens, cláusulas,
obrigações e avais.
Muitas voltas,
força de tapas,
profundezas mais.

Pensamentos, dor, ciência...
Dissabores pendurados nos varais;
nunca secam.
Resistência tanta
duvidando da própria santa existência...


[Adhemar - São Paulo, 09/08/2014]

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

PREPARAÇÃO

Jornada.
Um embornal,
uma folha de jornal.
Um barbante.
Uma moeda de um real.

Um botão.
Meio pedaço de pão.
Um prendedor de papel,
duas bolas de gude,
um gorro de Noel.

Para completar esse modesto cabedal:
meia carta rasgada,
de amor,
uma foto da amada
e um cartão de Natal.


[Adhemar - São Paulo, 10/01/2010]

domingo, 7 de agosto de 2016

NOEMI

Então foi assim.

Convivência intensa nos últimos tempos, mais intensa nos últimos dias. Nossa última conversa sobre espiritismo, retorno, evolução. Sua última bronca, querendo descer da maca, deixando a gente de saia justa. Já sem palavras, seus gestos enérgicos para mudar de posição e recusar o oxigênio. Seu último sono prolongado, seu último suspiro sem um adeus formal.

O que havia para ser dito já o fôra antes. O que havia pra ser chorado, também... Embora tenha sobrado muito, ainda... A sua importância medida na presença dos familiares e amigos nessa hora neutra que é um velório. Um Pour Elise, uma Ave Maria e o súbito sumiço num imenso vazio.

A mãe, sogra e avó professora. Nossa eterna protetora. Meu Xamã.

E o inescapável mas sábio lugar comum, mãe é mãe.


P/ Noemí Braga de Souza - (*12/01/1945/+05/08/2016]
[Adhemar - São Paulo, 07/08/2016]

domingo, 24 de julho de 2016

RAIOS


Nem parece que foi a mesma mão que fez. Um traço leve, outro calcado. Logo se vê a negligência de um, o outro é descuidado. É o que pode diferir de uma organização contra o desarrumado!!!

Palavras são palavras e mesmo assim não são! Talvez um filme mudo num sonho acordado. O cinema cheio, mãos dadas e abraços. A cerimônia acaba, o gato sobe o muro. A lua se enfastia, o céu está nublado.

A desilusão sobe num palco iluminado. Solto no ar vai um perfume... desanimado. Sobe o som da música; música colorida, advinda de um lápis apontado. Desce o sol, sai do tablado, dorme o dia no seu berço enluarado.


[Adhemar - São Paulo, 26/07/2011]


segunda-feira, 18 de julho de 2016

PASSAGENS

Atrás de uma linha difusa
um passo que passa
na sombra da massa confusa
e cheia de graça...
A graça da linha curva
a curva da estrada que passa
arcada que não segura
se mostra a curva da porta
importa que não se acha
mas foge achando graça...
Graça que não se procura
nas letras emaranhadas
formadas por linhas confusas
em portas baixas
em pontas sujas
em limpas vidraças
do vidro que não embaça
embora a nuvem que passa
turve a vista
nuble a praça...
E faça uma sombra precisa
contornando a paixão indecisa...

[Adhemar - São Paulo, 04/03/2014]

segunda-feira, 20 de junho de 2016

"PISCO"-DRAMA

Pálpebra inquieta
Abre e fecha
Fende o olhar entreaberta
Arregala-se desperta

Move-se
no ritmo do peito arfante
Também suspira
Rouba uma lágrima
Uma lágrima furtada
Necessária e procurada

Pálpebra "desciliada"
Vai ficando rala
Profundamente aborrecida
Trágica, brava e pelada
Com aflição mal resolvida

Essa
que veio do peito embolorada
Cinicamente embevecida
Fisicamente avermelhada
Numa cena conhecida

Pálpebra semi-fechada
Por encanto ou magoada
Transformando visão em fenda
Numa gota adocicada

Não que se ofenda
Mas subentende-se ausente
Quanto mais presente esteja
Por um charme eficiente
Com água benfazeja

Pálpebra abatida
Com entorno arroxeado
Olheira antiga

De saudade se entrega
Aos olhos não protege
Num protesto descarado
Bate muitas vezes em seguida
Num piscar anunciado
Revoltado e herege

Pálpebra fechada
Escuridão

Mais nada


[Adhemar - Santo André, 13/08/2014]

domingo, 15 de maio de 2016

"PISC'ANÁLISE"...

Bobagem pouca é besteira.
Afundar pra errar, pra esconder.
Entre pele e areia uma esteira:
pra deitar, queimar, derreter...

Ser um algo abaixo do azul,
um cruzeiro, um luzeiro do sul.
Entre a pele e a carne, um nervo;
pra sentir, eriçar e descrer.

Naufragar é um risco a correr;

de nadar, navegar, e viver.

[Adhemar - Santo André, 13/08/2014]

sábado, 30 de abril de 2016

AVANTE

Na força da loucura que existe
existe um sonho tão grande
tão grande que nele nem cabe
nem cabe no espaço-universo

Na ânsia da procura que insiste
insiste em achar o caminho
caminho que vai ao sonho eterno
eterno procurar em cada verso

Ânsia, sonhos e força resumidos:
resumidos nos espaços tão grandes
tão grandes o amor e a emoção
emoção sentimento inverso

Contrária à razão é a loucura
loucura tão grande que acabe;
acabe no caminho e não sabe
não sabe o que é amor-coração

Não cabe no verso incompleto
incompleto na luz da paixão.
Paixão, sentimento avesso
avesso ao verso curto e à razão

Paixão; és a própria loucura
loucura de andar em círculos:
círculos de pensamentos explosivos
explosivos sentimentos nas mãos

Esculpido o grande caminho
caminho do espaço tão certo
tão certo, imenso, infindável
infindável como o carinho negado

Balança a cabeça e diz não
diz não, desengana e some.
Some no horizonte do tempo
do tempo a navegar desvairado

Paixão, amor tão grnde, maior que o espaço
espaço-universo tornados na fúria
fúria-furacão varrendo os mares atormentados,
atormentados piratas e navios apaixonados

E os inevitáveis por quês indagados de repente
de repente o peito para, desfalece,
desfalece num momento refletido
refletido nos erros e acertos cometidos

Finalmente o exílio, vida nova,
vida nova recomeçada do zero.
Zero em quase tudo, mas o antigo amor sobrevive
sobrevive na dimensão da memória, comovido

Na síntese do universo imenso, cabível no coração
coração que contém tantos elevados sentimentos
sentimentos impressos e expressos nestes versos
versos que, por infinitos, representam sentimentos resumidos!

Invoca-se o pirata, na força solene de uma canção linda.
Linda como a princesa antiga e sorridente
sorridente e desaparecida por acidente ou engano...
Engano, ilusão, tudo aparente, transparente, sem fim.

Amor sem fim, sem limites na renúncia
renúncia do pirata aos sentimentos mais bonitos;
bonitos mas que nele ora são imortais
imortais, imorredouros, algo assim.

Tão presente quanto o ar, mais respeitado
respeitado o último desejo de uma deusa,
deusa que deu a dimensão do universo
universo do pirata que sem ela vai resignado enfim...

Decorre o renascer da fé no mundo
no mundo novo o pirata acreditará
acreditará porque o seu amor em vão não foi,
não foi desperdiçado e em fé se tranformou

Revestido, porém, sempre pirata
sempre pirata numa profissão de crer.
Crer querendo acreditar mais e apreciar
apreciar o que de melhor pode à vida dar forma

Sem tempestades o universo do pirata já está construído
construído sobre a base sólida à que teve de renunciar
renunciar, insistindo nas atitudes livres, livre decidir
decidir em favor de alcançar a esfera onde ela está.

Onde ela está.
Para chegar lá, nada mais o transtorna.


[P/ BSF]
[Adhemar - Aracaju, 29/01/1988]