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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

PURIFICAÇÃO

Parei na praça a esperar.
Pra esperar a dor
e, por pirraça, espirrar.

É uma dor que não tem a menor graça,
uma desgraça a suspirar;
eu, que nem consigo respirar,
e a dor não passa.

Parei na praça, parei de andar.
Passo parado, esperando pra sentar.
A dor faz questão absoluta
de vir se apresentar.

Parei na praça, para ao jardim apreciar.
A preço módico,
que é o que eu alcanço pagar.
Então me canso,
a dor não deixa descansar.
Uma ameaça:
ela quer se eternizar.

Paro na praça, já não quero levantar.
O pranto passa, a dor não presta,
é uma tensão a dispersar.
Ouço canto, amigo pássaro,
que passa a assobiar.

Passam os bichos.
Passam os carros.
Passam as gentes.
Só esta dor, maldita e insistente,
é que não quer passar.


[Adhemar - São Paulo, 31/10/2016]

domingo, 13 de novembro de 2016

DEPOIMENTO

          Eu nasci pra ser um desses playboys; esnobe e altivo, embora magnânimo. Não era talhado para viver uma vida minimalista ou dedicada à outrem. Me acostumei a olhar o mundo de cima, não importando quão humana fosse a visão, a "paisagem". Humildade é um desses predicados que eu desprezava; simplicidade é um estilo que nunca me identificaria então.

          Me criei na crença de ser o centro do mundo; e que este era só uma espécie de quintal onde tudo que existe estaria lá para me servir. Minha onipotência exponencial era ditada por uma prepotência controlada e por uma arrogância estudada: a vida de todos seria melhor se fosse organizada por mim!

         Um belo dia, no entanto, tanta "grandeza" não serviu pra nada. Fui derrubado do pedestal, caí de cara. Um chão muito duro e muito sujo me recebeu. Aturdido com a ousadia dessa derrubada e intrigado com a "injustificada" queda, me perguntei por que ocorrera. A resposta já estava estampada desde muito antes de eu nascer: era simplesmente a condição de humano amor ao próximo e a Deus mais do que a mim mesmo. E nada de expiar as culpas na base da chicotada: mas despertar ante o sofrimento do mundo disfarçado atrás de tanta felicidade mascarada. Abrir as mãos e os braços, abraçar e socorrer os próximos, realizar mais para o mundo do que para mim mesmo. 

          Descobri que eu nasci para ser um obreiro das coisas de Deus, desprendido e ordeiro. Descobri que a recompensa está no sorriso do agradecido. Descobri que a matéria é meio, nunca um fim em si; e que a honra é realizar para os outros, não só pra mim.

          Eu nasci para ser um instrumento do Criador; altivo, sim, mas para ver melhor e mais longe a dor que posso mitigar com minha vida e meu amor.


[Adhemar - Santo André, 11/10/2016]

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

ZOMBARIA

Quanto branco diante, 
do qual um tanto comandante...?
À marcha incitem do adiante,
a mancha de um tanto,
muito sangue...

A energia da sanha distante,
que gasta tanto diamante...
Quantos dias inebriantes,
perfumes derramados tanto,
desperdiçados...

A fúria dos elementos antes,
numa força extrema tanta,
problema...

O céu vermelho clamante
e tão tempestuoso, tanto,
ciclone...

Quantos ondes, portanto,
estamos estacionando?
Quanto?

Quantos tantos?


[Adhemar - São Bernardo do Campo, 29/09/2016]

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

ACHATAMENTO

Você disfarça, você confessa,
você conversa e não me convence.
Você tenta, você sustenta,
mas não concordo, 
por mais que eu pense.

Você cobiça, você atiça,
você provoca e me arranca os dentes.
Mesmo contente você não para,
você me deixa as mãos dormentes.

Você estranha; você arranha,
você tortura, você arranca
umas verdades que eu invento
pois do contrário você me espanca!

Você me espreme, você me assusta,
você é injusta mas não se importa.
Você me custa, me arrebenta,
me escangalha, você me entorta!

Você é uma sanguinária.
Você é uma tirana.
Você é insana, é fantasia.
Você me aprisiona e também liberta,
Você é sempre incerta, 
porque tu és a poesia!!!


[Adhemar - São Paulo, 10/01/2010]

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

ZONA FRIA

Palavras espalhadas
espelho bagunçado
bagunças espelhadas
reflexo das palavras
desencontros refletidos
indevidos encontros...

Históricas mancadas
gafes heróicas
heroísmo necessário
necessidades melancólicas
tristezas parabólicas
hipérboles sem glória...

Machadadas bucólicas
bocas esperançosas
esperanças preguiçosas
presença solicitada
pedidos intercalados
escadas espiraladas...

Espíritos termais
termos espirais
esperas intermináveis
terminais intermodais
incômodos carnavais
carne viva torrada...

Chuvas torrenciais
tempestades atemporais
tempo de furacões
ciclones e vendavais
vendo lindos panoramas
vidas paranormais...

Quietudes infinitas
atitudes amorais
amores singulares
de estranhos plurais
inacabáveis sonhos
sombras, enfim, imortais...


[Adhemar - São Paulo, 04/08/2015]

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

CONVESCOTE

Fui fazer um piquenique,
toalha colorida, quintal.
Terra limpa, formiga,
guaraná, coisa e tal.
Salada, doce, bolinho,
sanduíche natural;
suco, groselha e fruta,
uns guardanapos de pano.
Umas folhas caídas de árvores
ou era salada sem sal!

Fui fazer um piquenique:
um pacote de jornal,
pouca formiga atrevida...
Bolo de chocolate,
hummmm! Nada mal!
Uns copinhos de plástico,
uma cestinha de vime;
uma coisinha de "fui-me",
o céu azul, muito sol.

Fui fazer um piquenique,
tudo em cima, normal.
Só faltou uma coisa:
quem fosse comigo, afinal...


[Adhemar - São Paulo, 12/02/2015]

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

IMPÉRIO

O Rei supõe nossa renda.
Os tributos escorchantes
revelam da corte disposição.
Os súditos exauridos
encontram na morte solução.

Para festas querem nossa prenda.
Os pedidos são hilariantes,
revelam falhas da organização.
Os contribuintes, falidos,
esbanjam satisfação...

Para tudo querem que entenda
que será tudo melhor que antes;
revelam cínica ingenuidade
aos súditos enfurecidos
em cíclica "revolução"!

Uma revolução à venda
por inigualáveis montantes,
que corrompem os idealistas:
populares enfraquecidos
entregues a festejos populistas...

Boas e más intenções:
Tudo morre com TV, futebol e pães.

[Adhemar - São Paulo, 27/04/2014]

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

"CONTRALUZ"

Furtivamente a sombra denuncia
a silhueta que na sombra se confunde.
Aflitivamente a silhueta desperta
junto com o medo que a sombra lhe infunde.

Infinitamente a sombra dá sinais
que a silhueta simplesmente desconhece.
A silhueta recortada altivamente
na própria sombra se esconde e desvanece.

Educadamente a sombra se despede
já que a luz invade a silhueta.
Silhueta e sombra misturadas na penumbra
e na imagem desenhada que se inventa.

E a sombra diz adeus,
e a silhueta desfalece e some;
a silhueta é apenas um desejo
enquanto a sombra é a própria fome...!

[Adhemar - São Paulo, 30/06/2010]

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

EXCESSOS

Muita luz, muito calor,
sabor de pedra,
força de tapas,
profundezas, dor.

Do centro da garganta,
gritos de amor,
afogamento programado,
espontaneidade tanta.

Itens, cláusulas,
obrigações e avais.
Muitas voltas,
força de tapas,
profundezas mais.

Pensamentos, dor, ciência...
Dissabores pendurados nos varais;
nunca secam.
Resistência tanta
duvidando da própria santa existência...


[Adhemar - São Paulo, 09/08/2014]

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

PREPARAÇÃO

Jornada.
Um embornal,
uma folha de jornal.
Um barbante.
Uma moeda de um real.

Um botão.
Meio pedaço de pão.
Um prendedor de papel,
duas bolas de gude,
um gorro de Noel.

Para completar esse modesto cabedal:
meia carta rasgada,
de amor,
uma foto da amada
e um cartão de Natal.


[Adhemar - São Paulo, 10/01/2010]