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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

PIRÂMIDE

Sentimentos empilhados.
Poucas letras, pouco espaço;
muito pó sufocado.
Um Neruda sem capa,
um Pablo deslocado.

Sentimentos espalhados,
caídos do monte, derrubados.
Sob escombros, soterrados,
amores incertos, errados.

Sentimentos estragados,
fora da geladeira geral.
Uns no meio da rua;
outros no porão, no quintal.
Vestes da verdade nua
penduradas no varal.

Sentimentos leiloados.
O maior lance sustenta
uma luta muito lenta
por mais dor, mais moral.

Sentimentos num buraco,
pá de cal.


[Adhemar - São Paulo, 12/02/2015]


segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

CARREGAMENTO

Na dúvida, me declaro culpado.
Quantas assumi, não eram minhas...
Disso também sou culpado;
essa mania...

O mocinho da fita, o herói das minorias,
me desmanchando de cansaço
mas feliz pelas alegorias.

O mocinho da fita, idiota e tapado,
sem perceber que apanha o tempo todo
e só no fim é consolado...
O bandido no bem bom, aproveitando;
e o mocinho? Sendo sovado!

Aí, bem no finzinho,
a reviravolta utópica:
o bam-bam-bam encarcerado,
o babaquinha aclamado.
Todo fodido, todo ensanguentado...
Mas, até que enfim,
ganha um beijo da mocinha 
e está tudo acabado...


[Adhemar - São Paulo, 02/01/2017]


Feliz 2017 a todos!

sábado, 10 de dezembro de 2016

XIS ELOS

Poderes.
Questões políticas.
Bases muito elevadas.
Plebe elitizada.

Intelectualidade.
Questões culturais.
Pensamentos baixos,
vanguardistas, atuais.

Dialética.
Contrastes factuais.
Intenções mais que ocultas
alargando o que é a ética.

Produção.
Questões comerciais.
Bases econômicas,
tabelas de preço astronômicas.

Exportação.
Pensamentos banais.
Bases externas determinadas
para nunca mais...


[Adhemar - Santo André, 29/04/2014]

domingo, 27 de novembro de 2016

CONSIGNAÇÃO

Quando você chega eu me levanto,
respeitosamente me curvo em reverência.
Muito admirado, por enquanto,
até que se consuma uma sequência.

És uma rainha no meu mundo
que a todo instante manifesta
sua graça oriunda do mais fundo
de seu âmago, sempre em festa.

És a minha amante predileta,
a mais bonita e mais constante,
quando estamos juntos me completa.

És meu ideal e fantasia,
és minha estrela mais brilhante,
sempre presente, tu és poesia!!!


P/ SM
[Adhemar - São Paulo, 10/01/2010]

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

PURIFICAÇÃO

Parei na praça a esperar.
Pra esperar a dor
e, por pirraça, espirrar.

É uma dor que não tem a menor graça,
uma desgraça a suspirar;
eu, que nem consigo respirar,
e a dor não passa.

Parei na praça, parei de andar.
Passo parado, esperando pra sentar.
A dor faz questão absoluta
de vir se apresentar.

Parei na praça, para ao jardim apreciar.
A preço módico,
que é o que eu alcanço pagar.
Então me canso,
a dor não deixa descansar.
Uma ameaça:
ela quer se eternizar.

Paro na praça, já não quero levantar.
O pranto passa, a dor não presta,
é uma tensão a dispersar.
Ouço canto, amigo pássaro,
que passa a assobiar.

Passam os bichos.
Passam os carros.
Passam as gentes.
Só esta dor, maldita e insistente,
é que não quer passar.


[Adhemar - São Paulo, 31/10/2016]

domingo, 13 de novembro de 2016

DEPOIMENTO

          Eu nasci pra ser um desses playboys; esnobe e altivo, embora magnânimo. Não era talhado para viver uma vida minimalista ou dedicada à outrem. Me acostumei a olhar o mundo de cima, não importando quão humana fosse a visão, a "paisagem". Humildade é um desses predicados que eu desprezava; simplicidade é um estilo que nunca me identificaria então.

          Me criei na crença de ser o centro do mundo; e que este era só uma espécie de quintal onde tudo que existe estaria lá para me servir. Minha onipotência exponencial era ditada por uma prepotência controlada e por uma arrogância estudada: a vida de todos seria melhor se fosse organizada por mim!

         Um belo dia, no entanto, tanta "grandeza" não serviu pra nada. Fui derrubado do pedestal, caí de cara. Um chão muito duro e muito sujo me recebeu. Aturdido com a ousadia dessa derrubada e intrigado com a "injustificada" queda, me perguntei por que ocorrera. A resposta já estava estampada desde muito antes de eu nascer: era simplesmente a condição de humano amor ao próximo e a Deus mais do que a mim mesmo. E nada de expiar as culpas na base da chicotada: mas despertar ante o sofrimento do mundo disfarçado atrás de tanta felicidade mascarada. Abrir as mãos e os braços, abraçar e socorrer os próximos, realizar mais para o mundo do que para mim mesmo. 

          Descobri que eu nasci para ser um obreiro das coisas de Deus, desprendido e ordeiro. Descobri que a recompensa está no sorriso do agradecido. Descobri que a matéria é meio, nunca um fim em si; e que a honra é realizar para os outros, não só pra mim.

          Eu nasci para ser um instrumento do Criador; altivo, sim, mas para ver melhor e mais longe a dor que posso mitigar com minha vida e meu amor.


[Adhemar - Santo André, 11/10/2016]

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

ZOMBARIA

Quanto branco diante, 
do qual um tanto comandante...?
À marcha incitem do adiante,
a mancha de um tanto,
muito sangue...

A energia da sanha distante,
que gasta tanto diamante...
Quantos dias inebriantes,
perfumes derramados tanto,
desperdiçados...

A fúria dos elementos antes,
numa força extrema tanta,
problema...

O céu vermelho clamante
e tão tempestuoso, tanto,
ciclone...

Quantos ondes, portanto,
estamos estacionando?
Quanto?

Quantos tantos?


[Adhemar - São Bernardo do Campo, 29/09/2016]

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

ACHATAMENTO

Você disfarça, você confessa,
você conversa e não me convence.
Você tenta, você sustenta,
mas não concordo, 
por mais que eu pense.

Você cobiça, você atiça,
você provoca e me arranca os dentes.
Mesmo contente você não para,
você me deixa as mãos dormentes.

Você estranha; você arranha,
você tortura, você arranca
umas verdades que eu invento
pois do contrário você me espanca!

Você me espreme, você me assusta,
você é injusta mas não se importa.
Você me custa, me arrebenta,
me escangalha, você me entorta!

Você é uma sanguinária.
Você é uma tirana.
Você é insana, é fantasia.
Você me aprisiona e também liberta,
Você é sempre incerta, 
porque tu és a poesia!!!


[Adhemar - São Paulo, 10/01/2010]

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

ZONA FRIA

Palavras espalhadas
espelho bagunçado
bagunças espelhadas
reflexo das palavras
desencontros refletidos
indevidos encontros...

Históricas mancadas
gafes heróicas
heroísmo necessário
necessidades melancólicas
tristezas parabólicas
hipérboles sem glória...

Machadadas bucólicas
bocas esperançosas
esperanças preguiçosas
presença solicitada
pedidos intercalados
escadas espiraladas...

Espíritos termais
termos espirais
esperas intermináveis
terminais intermodais
incômodos carnavais
carne viva torrada...

Chuvas torrenciais
tempestades atemporais
tempo de furacões
ciclones e vendavais
vendo lindos panoramas
vidas paranormais...

Quietudes infinitas
atitudes amorais
amores singulares
de estranhos plurais
inacabáveis sonhos
sombras, enfim, imortais...


[Adhemar - São Paulo, 04/08/2015]

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

CONVESCOTE

Fui fazer um piquenique,
toalha colorida, quintal.
Terra limpa, formiga,
guaraná, coisa e tal.
Salada, doce, bolinho,
sanduíche natural;
suco, groselha e fruta,
uns guardanapos de pano.
Umas folhas caídas de árvores
ou era salada sem sal!

Fui fazer um piquenique:
um pacote de jornal,
pouca formiga atrevida...
Bolo de chocolate,
hummmm! Nada mal!
Uns copinhos de plástico,
uma cestinha de vime;
uma coisinha de "fui-me",
o céu azul, muito sol.

Fui fazer um piquenique,
tudo em cima, normal.
Só faltou uma coisa:
quem fosse comigo, afinal...


[Adhemar - São Paulo, 12/02/2015]