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sexta-feira, 23 de junho de 2017

CANHENHO

Tenho muito que fazer.

Quando me lembro, não tenho condição. Quando tenho tempo, não me lembro. Se tenho tempo e me lembro, aparece algo mais urgente...

Esse muito que fazer...

Tarefas, obrigações, caprichos. Esquecimentos, programações extemporâneas, lembranças tardias. Um acúmulo estranho de compromissos e tarefas mal distribuídos numa agenda cheia de rabiscos. Meus "compromiscos", como costumo dizer.

Tenho muito que fazer.

E sempre arranjo outra coisa. A idade serve de escudo para certas intransigências. Já fui mais gentil e solícito outrora, agora não mais; senão, seria um tanto muito maior este tanto por fazer.

Tenho muito que fazer.

Fiz uma lista. No auge das urgências iminentes de parte deste muito o que fazer, dou uma parada para conferi-la.

Tenho muito que fazer.

Sempre mais e mais, confundindo sonhos com obrigações, cansaço aleatório e lazer.

Tenho muito que fazer.


Depois eu vejo exatamente o quê.


[Adhemar - São Paulo, 04/10/2016]

quinta-feira, 22 de junho de 2017

DESINTEGRAÇÃO

Depois de se perder, fragmentar
Não se achar
Desiludir da unidade esquecida
substituída

Remendos impossíveis
Transformar em outra coisa;
ainda que indesejada
sucumbir...

Morrer dentro de si mesmo,
insepulto
Engolir o insulto
Procurar-se nos resíduos
sem saber mais o que são
(ou o que foram)

Contemplar dilacerado as cinzas
os coringas
Braços abertos, mangas expostas,
respostas

A transparência invadindo
o que éramos sumindo
Ainda vivos
sem voz audível
Dados como mortos
num enterro impossível.


[Adhemar - Santo André, 13/08/2014]

quarta-feira, 31 de maio de 2017

FUNÇÕES

Azul em verde vermelho
acontecendo
Abraço pedaço d'espelho
apelando
Quente noite tarde
acinzentando
Sentimento par-ou-ímpar
se perdendo


Verde em brancas pretas
vai jogando
Cavalos reis rainhas
aborrecendo
Oceano largo mar
anoitecendo
Lúcido cristal vidro
se quebrando

Velas estufadas acesas
balançando
Chamas fogo vivo
ardendo
Ouro mirra incenso
rescendendo
Tarde noite quente
transformando

Acessos em portas portões
batendo
Passeios alamedas caminhos
caminhando
Plantas arbustos flores
se despetalando
Água chuva orvalho neve
derretendo

Palavras rimas versos
se escrevendo
Perversos maus controversos
se desesperando
Otimismo força audácia
vão ressuscitando
Esperança paz amor
estão nascendo...


[Adhemar - São Paulo, 31/05/2014]

segunda-feira, 15 de maio de 2017

VISADAS

Espaço organizado
arte pichada em muro
desenho claro
fundo escuro

Urbano caos
lógica deslocada
fundo do poço fundo
balde mergulhado

Transtornado entorno conturbado
desordem arrumada
mapa do mundo
festa programada

Entendimento pressuposto
traço torto
torto risco traçado
morto posto tracejado

Ansiedade acima do limite
abraçado pensamento abstrato
espaço prato
arroz jantado...


[Adhemar - São Paulo, 12/05/2014]

terça-feira, 2 de maio de 2017

"PROMOTIVOS"

Cá entre nós
vida e exercício
o cadafalso e o algoz
a tortura e o suplício...

Qual o próximo será
deveras seriamente
procurando aonde estará
futuramente...?

E mais não seja 
além do que já é
na palavra onde deseja
um café...

Solta no ar a pluma
em bolhas de sabão
de tanta espuma
e contramão...

No sentido inverso
de fé há uma prova:
existe o universo
e a trova...

Princípio e fim
na decadência
então assim
inconsciência...

Linha de base
linha de fundo
fim da frase
fim do mundo...

O principal aviso
não é último nem segundo
multipartes, indiviso
e... fecundo...

Cá entre nós
exercício curto
ânimo feroz
um anti-surto...


[Adhemar - São Paulo, 03/04/2014]

quinta-feira, 13 de abril de 2017

CHORO

É passado o futuro
num eterno presente
num apuro constante
num augúrio contente

É passado o presente
num ardor consciente
estacado e cortante
anúncio importante

Um doce envolvente
isolante e impuro
do amor indolente

Grande apreço e paixão
visão mais adiante
lágrima do coração...


[Adhemar - São Paulo, 04/03/2014]

terça-feira, 4 de abril de 2017

TERMINAL

Ausência anunciada
certeza perdida
falta apresentada

Justiça emprestada
fugidia vida
presença registrada

Marca colorida
norma desregrada
palavra embevecida

Dúvida emprestada
sentença recorrida
longa plana estrada

Curva dolorida
vista embaçada
súbita subida

Certeza algemada
persona dividida
ciência desbancada

Trajetória errada
alma endurecida
revista rasgada

Saudade incomodada
paixão envelhecida
marca registrada

Patente vencida
atitude ilhada
coisa parecida

Fina, estampada
estátua vestida
base arraigada

Certeza alquebrada
ausência eternizada,
Adeus, minha querida...


[Adhemar - São Paulo, 01/03/2014]

quarta-feira, 22 de março de 2017

VENERAÇÃO

(Imagem licenciada da internet)

Eu te queria por querer,
por fantasia,
mesmo sem te conhecer.
Eu te queria por te ver,
por desafio e desejo,
nos perder...
Eu te queria por capricho,
por inteiro.
Eu te queria feito um bicho,
faminto e traiçoeiro,
te aprisionando no meu nicho,
alcoviteiro...
Eu te queria por paixão,
idolatria;
e grande admiração.
Sempre te quis, e te queria,
por transferência e emoção,
por euforia...
Eu te queria por te amar
e por saudade,
mesmo na distância te exaltar.
Eu te queria de verdade,
em terra firme ou alto mar,
fatalidade...
Eu te queria e te quero,
catatônico;
eu te queria mas não quero,
conformado e ultrassônico
nesse meu querer sincero
mas, platônico...


[Adhemar - São Paulo, 26/10/2016]

segunda-feira, 20 de março de 2017

ÚLTIMAS

Manias, tradição, hábitos.
Manutenção de costumes.
Conservadorismo inato?
Saudades de velhos perfumes?

Reunião, encontro, protesto.
Propositivas atitudes.
Espaço pra manifesto?
Contestação de virtudes?

Acumulação e apego.
Materialismo exacerbado.
Por acaso a alma quer sossego?
Quer paz e um mundo acabado?

Televisão, novidades.
Estupefacta submissão.
Paralisia das atividades?
O espírito quer emoção?


[Adhemar - São Paulo, 08/09/2016]

domingo, 19 de março de 2017

FILOSOFIA DA DÚVIDA

Interessa saber onde estamos ou o que somos?

O coração contempla a cidade vazia com a mesma ansiedade com que te procura. Ansiedade infantil, mas tão presente, desde tempos remotos, imemoriais; mãe de uma angústia sem fim, de tantas dúvidas, do não saber onde estás.

Interessa saber onde estás?

Interessa saber o que se procura intensamente e com tanta sinceridade. Morar sob um teto vazio e imperfeito. Planejar cuidadosamente tudo aquilo que não vai dar certo. Tirar as lágrimas, que as pedras podem rolar...

Vestir o blusão com as insígnias da própria ignorância, confessando ignorar onde estás. Importa tanto saber onde estás... Não saber onde estás é também não situar-se. Tateando na cidade vazia sob a noite chuvosa e triste, te procurando nas luzes refletidas pelas poças d'água.

Insatisfação do insucesso da procura... Se ao menos dissesses outra vez as tuas últimas palavras renovando os teus votos de nunca mais... Se ao menos aceitasses o quadro, que é o teu próprio espírito sombrio, de presente... Se ao menos mencionasses a palavra que liberta...

Interessa saber tanta responsabilidade?

Se ao menos a solidão não fosse tão pesada... Pesada, opressiva e pensativa... Sumiste da tela do radar como um aeroporto em dia de névoa. Ou és a névoa, talvez... Resides nesse mistério que a existência não revela, no final da linha invisível que une o princípio ao fim de tudo, todo o sentimento despertado e desprezado.

Interessa saber a sepultura?

Depositado em cova rasa, terra misturada com cinzas tão finas... e a cada palavra mencionada, a certeza que, do torrão fatal, há de brotar algo forte e imorredouro que nem todo o esquecimento possível irá destruir. Apenas o tênue cansaço da procura e de escrever sem ver as letras, olhos fechados na certeza intangível de que sabes todas as palavras da procura.

Interessa lê-las?


[P/ BSF]
[Adhemar - São Paulo, 18/02/1988]