Pesquisar este blog

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

SUCEDÂNEO

Vento brando
espalhando palavras
refrescando

Sol amigo
trigo dourando
pão garantido

Céu azulando
emoldurando tudo
desmaiando

A noite vem
A noite deita
Anoitecendo...


[Adhemar - São Paulo, 04/08/2015]

terça-feira, 1 de agosto de 2017

QUERIDOS

Tudo o que eu não sei me pesa,
me afronta, não basta.
Queria eu não saber mais coisas.

Quisera eu vasculhar baús,
revolver mistérios.
Atrair tons sérios de cores neutras.

Quisera noutras vasculhar os cérebros.
Os mais célebres, por certo,
ou os mais por perto.

Quisera eu perturbar espíritos,
vislumbrar auras,
declamar versículos...

Queria eu escrever artigos
ou apreender amigos
e queimar uns livros...

Tudo o que eu não sei me enche
de uma clara ignorância calma;
e para tudo o mais que eu não sei
eu bato palmas...


[Adhemar - São Paulo, 06/07/2014]

sexta-feira, 14 de julho de 2017

CANCELAMENTO

Suspenda os planos que não fizemos pra depois.
Suspenda a fuga que nós nunca planejamos.
Cancele as passagens que ainda não compramos.
Desfaça as malas que a fazer nem começamos.

Pare tudo o que nunca combinamos.
Esqueça as palavras que nós não escrevemos
e nem sequer pronunciamos...
Esqueça essa velha paixão inesperada
que juntos despertamos... só em mim...

Deixe pra lá o que eu não disse nem diria.
Deixe pra lá o que eu não fiz e nem faria.
Eu digo que entre nós está tudo acabado,
o que deveras jamais houvera começado...


[Adhemar - São Paulo, 06/03/2017]

quarta-feira, 12 de julho de 2017

SONETO 43 (*)




Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minh'alma alcança quando, transportada,
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do Ser, a Graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.

Amo-te com o doer das velhas penas;
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingênua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,
Ainda mais te amarei depois da morte.


- Elizabeth Barrett Browning - 
(Tradução: Manuel Bandeira)

[Fonte: Wikipédia]

(*) Ver o primeiro comentário

terça-feira, 11 de julho de 2017

AMA-ME POR AMOR DO AMOR SOMENTE

SONETO XIV

"Ama-me por amor do amor somente.
Não digas: “Amo-a pelo seu olhar,
o seu sorriso, o modo de falar
honesto e brando. Amo-a porque se sente

minh’alma em comunhão constantemente
com a sua”. Por que pode mudar
isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
do tempo, ou para ti unicamente.

Nem me ames pelo pranto que a bondade
de tuas mãos enxuga, pois se em mim
secar, por teu conforto, esta vontade

de chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
me hás de querer por toda a eternidade."


- Elizabeth Barrett Browning -
(Tradução: Manuel Bandeira)

[Extraído do blog "MEU CADERNO DE POESIAS"]
http://blogdasilnunes.blogspot.com.br/

- Ver original em inglês no primeiro comentário (Fonte: "poesia.net 119").

sexta-feira, 30 de junho de 2017

DEPOSIÇÃO

Um pequeno espaço,
um cilindro fino
onde cabe tinta que se derrame
numa folha minúscula

Uma programação descuidada
um desabafo apertado
uma conversa fiada,
rumo perdido no mapa errado

Prosa misturada com verso,
página saltada
A mão pesada, cilindro leve
tinta impressionada

Um teste, uma prova, um indício
que não é cinza de cigarro, 
nem pegada:
só um longo caminho lá pro infinito,
numa solitária estrada.


[Adhemar - São Paulo, 08/05/2017]

sexta-feira, 23 de junho de 2017

CANHENHO

Tenho muito que fazer.

Quando me lembro, não tenho condição. Quando tenho tempo, não me lembro. Se tenho tempo e me lembro, aparece algo mais urgente...

Esse muito que fazer...

Tarefas, obrigações, caprichos. Esquecimentos, programações extemporâneas, lembranças tardias. Um acúmulo estranho de compromissos e tarefas mal distribuídos numa agenda cheia de rabiscos. Meus "compromiscos", como costumo dizer.

Tenho muito que fazer.

E sempre arranjo outra coisa. A idade serve de escudo para certas intransigências. Já fui mais gentil e solícito outrora, agora não mais; senão, seria um tanto muito maior este tanto por fazer.

Tenho muito que fazer.

Fiz uma lista. No auge das urgências iminentes de parte deste muito o que fazer, dou uma parada para conferi-la.

Tenho muito que fazer.

Sempre mais e mais, confundindo sonhos com obrigações, cansaço aleatório e lazer.

Tenho muito que fazer.


Depois eu vejo exatamente o quê.


[Adhemar - São Paulo, 04/10/2016]

quinta-feira, 22 de junho de 2017

DESINTEGRAÇÃO

Depois de se perder, fragmentar
Não se achar
Desiludir da unidade esquecida
substituída

Remendos impossíveis
Transformar em outra coisa;
ainda que indesejada
sucumbir...

Morrer dentro de si mesmo,
insepulto
Engolir o insulto
Procurar-se nos resíduos
sem saber mais o que são
(ou o que foram)

Contemplar dilacerado as cinzas
os coringas
Braços abertos, mangas expostas,
respostas

A transparência invadindo
o que éramos sumindo
Ainda vivos
sem voz audível
Dados como mortos
num enterro impossível.


[Adhemar - Santo André, 13/08/2014]

quarta-feira, 31 de maio de 2017

FUNÇÕES

Azul em verde vermelho
acontecendo
Abraço pedaço d'espelho
apelando
Quente noite tarde
acinzentando
Sentimento par-ou-ímpar
se perdendo


Verde em brancas pretas
vai jogando
Cavalos reis rainhas
aborrecendo
Oceano largo mar
anoitecendo
Lúcido cristal vidro
se quebrando

Velas estufadas acesas
balançando
Chamas fogo vivo
ardendo
Ouro mirra incenso
rescendendo
Tarde noite quente
transformando

Acessos em portas portões
batendo
Passeios alamedas caminhos
caminhando
Plantas arbustos flores
se despetalando
Água chuva orvalho neve
derretendo

Palavras rimas versos
se escrevendo
Perversos maus controversos
se desesperando
Otimismo força audácia
vão ressuscitando
Esperança paz amor
estão nascendo...


[Adhemar - São Paulo, 31/05/2014]

segunda-feira, 15 de maio de 2017

VISADAS

Espaço organizado
arte pichada em muro
desenho claro
fundo escuro

Urbano caos
lógica deslocada
fundo do poço fundo
balde mergulhado

Transtornado entorno conturbado
desordem arrumada
mapa do mundo
festa programada

Entendimento pressuposto
traço torto
torto risco traçado
morto posto tracejado

Ansiedade acima do limite
abraçado pensamento abstrato
espaço prato
arroz jantado...


[Adhemar - São Paulo, 12/05/2014]