Nas vagas da meia-noite
meio mar em chamas.
Nas ondas da maré morta
meio mar em brumas.
No silêncio do veleiro
um velório.
Orações ao marinheiro,
luz bruxoleante.
Distraída vela,
chama na escuridão da morte.
Noite linda, sem estrelas,
veludo negro, ondas de rendas.
Bruxa esvoaçante, sarcasmo e riso.
Mesmo no respeito póstumo
posta uma ironia,
fina sintonia.
Murmúrio surdo da cantiga,
cantilena antiga.
Alma de encomenda
na garupa da vassoura voadora.
Luto mortiço.
Ar infestado de maresia,
de respeito, de espuma;
o mar por sepulcro.
O bravo marinheiro
volta ao mar pra sempre neste dia.
Apaga-se, última vela,
a noite está vazia.
[Adhemar
- São Paulo, 22/02/2017]

