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domingo, 17 de março de 2019

PRISMA

Se de uma lágrima pingente
surgir uma mensagem linda;
multiplicada em cores,
decomposta pela gota prisma
eu quero tê-la.
Ou, se puder, quero fazê-la.
Se cada página poesia 
fosse uma gota de lágrima,
tantos prismas haveria;
tantas mensagens,
um oceano de palavras coloridas
a te cercar feito a uma ilha...

Se de uma umidade tímida
surgir a cristalina gota de um olho;
olho-espelho do interior confuso
e embaraçado peito,
quero retê-la.
Ou, se puder, interpretá-la,
pois cada pétala de flor é um poema
de mil significâncias lindas,
pois em todos os teus olhos espelhados se refletem
como uma tímida gota de orvalho.

Se do mais inesperado gesto
surgir esculpida uma emotiva atitude;
endereçada à virtude de amar ainda,
quero guardá-la.
Pois se o futuro, confundido com o destino, 
reservar passagem na celestial passada desta fase,
levo comigo o revoar tão belo
do teu olhar perdido
no infinito pôr-do-sol que,
dele refletido,
vem recriar uma lágrima pingente
cuja umidade tímida
faz com que eu faça,
em teu direito, 
o inesperado e previsível gesto.

Raio de sol na lágrima-orvalho,
um prisma colorido.


P/ BSF
[São Paulo, 17 de junho de 1988]

segunda-feira, 11 de março de 2019

ROMPIMENTO

          Uma vida é um livro em capítulos. Ou, é uma obra em vários tomos. Temo que o volume atual que estamos vivendo esteja em seu epílogo.

          Finalmente foi rompido o silêncio. O desnecessário silêncio do desentendimento. Foi rompido para se assinar um tratado. A linha de Tordesilhas de um descasamento. Foi decidido o futuro, desalinhado, descosido e bifurcado. Cada um com um novo mato numa trilha diferente, independente. Cada um com saudades na mochila; mas, pra frente.

          Este livro acaba num capítulo de promessas rompidas. Interrompidas... Pela sanidade e provimento. Provimento do respeito que não deve ser perdido. Venha lá outro volume desta obra inacabada. Aliás, dois volumes agora... A história desdobrada. A história de cada um sendo contada em separado. Cada um em um novo livro, com novas aventuras, o teste do que somos capazes sem o apoio da metade arrancada: sim, arrancada. Mesmo cordialmente, mesmo consensual é dolorida, é estranha... Mesmo há tanto tempo anunciada é atroz, inesperada... 

          Vamos ter que nascer outra vez para viver de forma errada. Pois que sim; eu, sem você, não sou mais nada.


P/ SM
[Adhemar - São Paulo, 21/01/2018]

sexta-feira, 8 de março de 2019

MAIS... MAR...

Foto de Arquivo (Archillect)


Tentei conter a lembrança,
reter na memória o teu olhar...
Mas, sucumbi à tristeza
dessas coisas mais difíceis de lembrar.

A voz silenciada,
contida na mais profunda dor,
afogada numa onda rasa
que levou o teu amor...

Tentei conter a saudade
que faz esse barco se afastar...
Mas, sucumbi à tristeza
dessas coisas mais difíceis de aguentar.

Tentei ressuscitar
os momentos mais felizes que vivi só.
Mas, todos eles afundaram
nessa maré de paixão que foi você...

Agora, içando as velas,
não vejo a hora de zarpar.
Ir para bem longe
outras terras desbravar...

Tentei chorar de novo,
pra subir essa maré que foi você;
e afogar tanto sentimento que 'inda resta,
mas, que eu nem sei aonde colocar...

Vai comigo,
qual bagagem indispensável;
vai me seguir pra sempre,
para onde quer que eu vá...


[Adhemar - São Caetano do Sul, 08/03/2019]

sábado, 16 de fevereiro de 2019

SABEDORIA

Nascer.
Vir do conforto absoluto para o ambiente hostil do mundo.
Hostil, no sentido de contraste.
Ao ar livre, já não depender
do oxigênio em via líquida
que nos chegava pronto.

Chorar.
Chorar para aprender
que a vida não é fácil
e para aprender a respirar,
tirar do ar o mesmo oxigênio
que nos chegava pronto...

Chorar,
porque de repente a fome se manifesta,
um vazio ardente que antes não existia nos invade.
E sugar o leite porque,
se não movimentarmos os lábios
por nossa própria conta,
ele não vem.

Chorar,
quando algo sai de nós e incomoda,
queima a pele e cheira mal,
nas coxas pelo lado interno e nas nádegas...
Chorar até a aparição reconfortante
daquele risonho semblante,
que aparece preocupado em nosso campo de visão
pra nos limpar e acalmar.
O mesmo que nos tinha alimentado...

Chorar,
quando essa visão reconfortante
do nosso porto seguro está distante;
e ansiamos que ela volte pra nos carregar...
E vai nos carregar cada vez menos...
Falar, andar, interagir...
Entender esse mundo hostil fora do lar,
cada vez mais 
e mais urgentemente.

Acordar,
um dia e de repente,
já sabendo tantas coisas,
conhecendo tanta gente.

Estudar,
querendo saber mais
do passado e do pra frente...
Observar o mundo ir diminuindo,
progressivamente,
enquanto ficamos maiores,
mais espertos,
presumivelmente...

Amar,
já não mais só o amor geral,
ou familiar,
mas descobrir um outro ser
com quem você quer ficar
alguns momentos ou pra sempre...

Voar, 
achando que já sabemos tudo,
desprezando o passado
como se houvesse só o presente.
Achar que a maturidade pode ser entusiasmante
e, sem perceber,
ir ficando displicente...
Desperdiçar tanta energia importante
em coisas sensacionalmente superficiais;
ou tão irrelevantes
que chegam a ser sensacionais...

Viver
tantas realidades mescladas de ilusão.
Olhar pra trás confiante,
cheio de sabedoria e sensação.
Mas,
um belo dia vai chegar,
encararemos nossas próprias mãos.
Será o dia de pesar prós e contras,
ruins e bons,
respirar imaginando se valeu a pena,
avaliando ações, sentimentos,
luz e sons.

Aspirar
uma tranquilidade de paisagem a contemplar,
sem responsabilidade.
Na verdade
é outra ilusão...
A necessidade de saber e de agir nunca cessa;
vai durar
até o dia desse nosso ciclo se fechar.


[Adhemar - São Paulo, 16/02/2019]

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

RÉVEILLON

          Pela primeira vez, em muitos anos, passei a última semana do ano em silêncio. Esse silêncio que é uma folha em branco. Esse vazio do nada a dizer.
          
Pela primeira vez, em muitos anos, passei os últimos dias do ano apenas rebatendo mecanicamente os votos de Boas Festas, Feliz Futuro. Ecoei palavras repetitivas que - olhando pra trás - tinham tanto significado antes, quando era outro o seu ponto de partida: o coração. Pela primeira vez, em muitos anos, elas partiram do nada.

Pela primeira vez, em muitos anos, não fiz a lista de todos àqueles a quem gostaria de cumprimentar efusivamente, ainda que numa simples mensagem de final de ano. Pela primeira vez, em muitos anos, dei preferência às fórmulas prontas sem retoques nem acréscimos pessoais.

Pela primeira vez, em muitos anos, passei os últimos dias do ano me afogando e me escondendo do mundo; e de mim mesmo. Pela primeira vez, em muitos anos, começo um novo ano sem rumo, sem planos, sem nenhuma certeza e repleto de desenganos, dúvidas, sono...

Pela primeira vez, em muitos anos, olho no espelho e não reconheço o ser humano.


Reflexão acerca da passagem de ano 2017-2018
[Adhemar - São Paulo, 01/01/2018]

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

RECORTES

Silhueta envolta na toalha
passos macios à distância
uma sombra que se espalha
no contorno
através da luz recortada

É uma estranha circunstância
voz que soa entrecortada
penumbra e luz em alternância
no entorno
base lisa da figura esboçada

Névoa fina percebida
vai na luz e vai na sombra com seu brilho
esvoaçando livremente agradecida
no retorno
oculta o aparente andarilho
do espaço, do ar, da vida

Se caminha ou embala o seu filho
na velocidade indevida
embrulhada com papel colorido
como adorno
amarrada com fitilho...


[Adhemar - São Paulo, 30/07/2018]

domingo, 16 de dezembro de 2018

PORTAIS

Passagens abertas
Pernas pra frente
Passos acelerados
Obstáculos obscuros
Saltos ornamentais
Vibrações normais

Órbitas decididas
Certezas vacilantes
Portas entrefechadas
Balanços comovidos
Emoções controversas
Conversas cortadas

Fechaduras abertas
Travas deslocadas
Águas presentes
Pressentimentos aguados
Relógios marcantes
Tempo esmagado

Formas disformes
Uniformes diferentes
Sentidos desbotados
Bocas ausentes
Ardentes manobras
Obras escoradas...


[Adhemar - São Paulo, 21/12/2011]

sábado, 15 de dezembro de 2018

TATO


Desperto refém de sensações;
da ausência de alguém...
Alguém que não conheço
ou conheço e não sei quem.

Desperto desatento
nessa busca por ninguém.
Ninguém que eu conheço
ou conheço: será quem...?!

Desperto concentrado
nessa ausência de alguém
- quem sabe quem -
não conheço ou conheço e é alguém;
alguém que não esqueço, mas não lembro:
 me emociona e vai além.

Desperto abraçado
na saudade dessa ausência
que é crueldade de alguém;
me conhece ou não conhece,
me tortura e me contém.

Desperto embevecido,
emocionado e refém...

Desperto preocupado
se esse alguém tem me buscado,
procurado ou esquecido
sem um guia, sem ninguém.

Desperto desorientado nesse vácuo;
vasto espaço, coração desocupado...

Desperto amargurado,
entristecido e solitário,
vagabundo e milionário
mas mendigo de afago.

Desperto na esperança,
no pra trás e no passado.

Adormeço abraçado
na saudade dessa ausência...
Personagem inventado
que nenhuma importância agora tem...


[Adhemar - São Paulo, 26/05/2018]

domingo, 9 de dezembro de 2018

ELEFANTA

          De repente a vida começa a exigir mais do que podemos dar; ou que queremos. Movimentos inesperados, esforços além do que planejamos; perspectivas antes impensáveis parecendo tão essenciais agora... E os pensamentos tumultuados  querendo organizar algo inimaginável levantando o ânimo para o enfrentamento. A divisão do que fica e o que vai embarcar nessa novidade desdenhada, mas, de certa forma, desejada.

         De repente a gente começa a exigir mais da vida.


[Adhemar - São Paulo, 02/04/2011]

domingo, 2 de dezembro de 2018

ISOLAMENTO

Quando a solidão invade
uma certa desorientação toma conta.
Nenhuma perspectiva se apresenta,
o ânimo se ausenta,
uma longa sonolência toma conta.

Quando a solidão se encontra
bem no meio de uma vasta multidão
a vontade se levanta,
ameaça ir embora e abre mão da cautela
no rumo de uma fuga sem ponta.

Quando a solidão se muda
para bem no centro do peito
ela ocupa.
Instala-se soberana,
altaneira, absoluta.

A solidão não mente,
não abandona,
nem se desculpa.


[Adhemar - São Paulo, 05/06/2018]