Queria mesmo, muito,
ter algo pra dizer agora.
Uma desculpa esfarrapada,
uma demora...
Queria mesmo, muito,
ter um abraço, um afago...
Um carinho qualquer guardado...
Queria, mesmo...
Também queria - mesmo, muito -
agradecer, enaltecer, aplaudir...
Ter um presente improvisado,
merecido, escolhido...
São tantos quereres acumulados...
Engasgados, atrapalhados,
amontoados e dispersos...
Alguns em prosa, alguns em versos...
Queria mesmo, muito,
outro destino, outro desenlace;
mas fico aqui, parado,
sem uma senha, sem um passe.
Queria muito, e tanto,
que me perco neste desencanto.
Conspiração do Universo:
meio fracassada, meio que sucesso.
Também queria, mesmo, muito,
saber mais palavras pra cantar meu canto,
pra escrever meu verso.
Saber mais coisas pra viver um tanto,
um pouco mais desse amor tão curto.
Queria... muito pouco,
dizer adeus, já vai, já vou...
Me atrasar para o aeroporto
e, exatamente, perder o vôo...
[Adhemar - São Paulo, 25/09/2018]
Impressões pessoais e a sutileza que entremeia diferentes expressões destas artes: a arquitetura da poesia e a poesia da arquitetura! Vida. (Imagem: Perspectiva do Labirinto - Foto: Adh2bs)
segunda-feira, 15 de abril de 2019
sábado, 6 de abril de 2019
FÉ
Renovação.
Parece que algo ligado à fé será um acontecimento inevitável; simples questão de tempo. Basta uma crença verdadeira com base em autêntica e espontânea convicção. O fato, o desenlace desejado ao alcance das mãos, desde que se tenha efetuado o alicerce, o ponto de início do processo. A intenção tornada em atos, em passos; concentração.
Algo assim passa ao largo das intempéries, das interferências, da improvisação. Ousadia e aplauso para mais do que só intenção.
[Adhemar - São Paulo, 06/04/2012]
domingo, 17 de março de 2019
PRISMA
Se de uma lágrima pingente
surgir uma mensagem linda;
multiplicada em cores,
decomposta pela gota prisma
eu quero tê-la.
Ou, se puder, quero fazê-la.
Se cada página poesia
fosse uma gota de lágrima,
tantos prismas haveria;
tantas mensagens,
um oceano de palavras coloridas
a te cercar feito a uma ilha...
Se de uma umidade tímida
surgir a cristalina gota de um olho;
olho-espelho do interior confuso
e embaraçado peito,
quero retê-la.
Ou, se puder, interpretá-la,
pois cada pétala de flor é um poema
de mil significâncias lindas,
pois em todos os teus olhos espelhados se refletem
como uma tímida gota de orvalho.
Se do mais inesperado gesto
surgir esculpida uma emotiva atitude;
endereçada à virtude de amar ainda,
quero guardá-la.
Pois se o futuro, confundido com o destino,
reservar passagem na celestial passada desta fase,
levo comigo o revoar tão belo
do teu olhar perdido
no infinito pôr-do-sol que,
dele refletido,
vem recriar uma lágrima pingente
cuja umidade tímida
faz com que eu faça,
em teu direito,
o inesperado e previsível gesto.
Raio de sol na lágrima-orvalho,
um prisma colorido.
P/ BSF
[São Paulo, 17 de junho de 1988]
surgir uma mensagem linda;
multiplicada em cores,
decomposta pela gota prisma
eu quero tê-la.
Ou, se puder, quero fazê-la.
Se cada página poesia
fosse uma gota de lágrima,
tantos prismas haveria;
tantas mensagens,
um oceano de palavras coloridas
a te cercar feito a uma ilha...
Se de uma umidade tímida
surgir a cristalina gota de um olho;
olho-espelho do interior confuso
e embaraçado peito,
quero retê-la.
Ou, se puder, interpretá-la,
pois cada pétala de flor é um poema
de mil significâncias lindas,
pois em todos os teus olhos espelhados se refletem
como uma tímida gota de orvalho.
Se do mais inesperado gesto
surgir esculpida uma emotiva atitude;
endereçada à virtude de amar ainda,
quero guardá-la.
Pois se o futuro, confundido com o destino,
reservar passagem na celestial passada desta fase,
levo comigo o revoar tão belo
do teu olhar perdido
no infinito pôr-do-sol que,
dele refletido,
vem recriar uma lágrima pingente
cuja umidade tímida
faz com que eu faça,
em teu direito,
o inesperado e previsível gesto.
Raio de sol na lágrima-orvalho,
um prisma colorido.
P/ BSF
[São Paulo, 17 de junho de 1988]
segunda-feira, 11 de março de 2019
ROMPIMENTO
Uma vida é um livro em capítulos. Ou, é uma obra em vários tomos. Temo que o volume atual que estamos vivendo esteja em seu epílogo.
Finalmente foi rompido o silêncio. O desnecessário silêncio do desentendimento. Foi rompido para se assinar um tratado. A linha de Tordesilhas de um descasamento. Foi decidido o futuro, desalinhado, descosido e bifurcado. Cada um com um novo mato numa trilha diferente, independente. Cada um com saudades na mochila; mas, pra frente.
Este livro acaba num capítulo de promessas rompidas. Interrompidas... Pela sanidade e provimento. Provimento do respeito que não deve ser perdido. Venha lá outro volume desta obra inacabada. Aliás, dois volumes agora... A história desdobrada. A história de cada um sendo contada em separado. Cada um em um novo livro, com novas aventuras, o teste do que somos capazes sem o apoio da metade arrancada: sim, arrancada. Mesmo cordialmente, mesmo consensual é dolorida, é estranha... Mesmo há tanto tempo anunciada é atroz, inesperada...
Vamos ter que nascer outra vez para viver de forma errada. Pois que sim; eu, sem você, não sou mais nada.
P/ SM
[Adhemar - São Paulo, 21/01/2018]
sexta-feira, 8 de março de 2019
MAIS... MAR...
Foto de Arquivo (Archillect)
Tentei conter a lembrança,
reter na memória o teu olhar...
Mas, sucumbi à tristeza
dessas coisas mais difíceis de lembrar.
A voz silenciada,
contida na mais profunda dor,
afogada numa onda rasa
que levou o teu amor...
Tentei conter a saudade
que faz esse barco se afastar...
Mas, sucumbi à tristeza
dessas coisas mais difíceis de aguentar.
Tentei ressuscitar
os momentos mais felizes que vivi só.
Mas, todos eles afundaram
nessa maré de paixão que foi você...
Agora, içando as velas,
não vejo a hora de zarpar.
Ir para bem longe
outras terras desbravar...
Tentei chorar de novo,
pra subir essa maré que foi você;
e afogar tanto sentimento que 'inda resta,
mas, que eu nem sei aonde colocar...
Vai comigo,
qual bagagem indispensável;
vai me seguir pra sempre,
para onde quer que eu vá...
[Adhemar - São Caetano do Sul, 08/03/2019]
sábado, 16 de fevereiro de 2019
SABEDORIA
Nascer.
Vir do conforto absoluto
para o ambiente hostil do mundo.
Hostil, no sentido de
contraste.
Ao ar livre, já não
depender
do oxigênio em via líquida
que nos chegava pronto.
Chorar.
Chorar para aprender
que a vida não é fácil
e para aprender a respirar,
tirar do ar o mesmo oxigênio
que nos chegava pronto...
Chorar,
porque de repente a fome se
manifesta,
um vazio ardente que antes
não existia nos invade.
E sugar o leite porque,
se não movimentarmos os lábios
por nossa própria conta,
ele não vem.
Chorar,
quando algo sai de nós e
incomoda,
queima a pele e cheira mal,
nas coxas pelo lado interno
e nas nádegas...
Chorar até a aparição
reconfortante
daquele risonho semblante,
que aparece preocupado em
nosso campo de visão
pra nos limpar e acalmar.
O mesmo que nos tinha alimentado...
Chorar,
quando essa visão
reconfortante
do nosso porto seguro está
distante;
e ansiamos que ela volte pra
nos carregar...
E vai nos carregar cada
vez menos...
Falar, andar, interagir...
Entender esse mundo hostil
fora do lar,
cada vez mais
e mais
urgentemente.
Acordar,
um dia e de repente,
já sabendo tantas coisas,
conhecendo tanta gente.
Estudar,
querendo saber mais
do passado e do pra frente...
Observar o mundo ir
diminuindo,
progressivamente,
enquanto ficamos maiores,
mais espertos,
presumivelmente...
Amar,
já não mais só o amor geral,
ou familiar,
mas descobrir um outro ser
com quem você quer ficar
alguns momentos ou pra
sempre...
Voar,
achando que já sabemos tudo,
desprezando o passado
como se houvesse só o
presente.
Achar que a maturidade
pode ser entusiasmante
e, sem perceber,
ir ficando displicente...
Desperdiçar tanta
energia importante
em coisas sensacionalmente
superficiais;
ou tão irrelevantes
que chegam a ser
sensacionais...
Viver
tantas realidades mescladas
de ilusão.
Olhar pra trás confiante,
cheio de sabedoria e
sensação.
Mas,
um belo dia vai chegar,
encararemos nossas próprias
mãos.
Será o dia de pesar prós e
contras,
ruins e bons,
respirar imaginando se valeu
a pena,
avaliando ações,
sentimentos,
luz e sons.
Aspirar
uma tranquilidade de
paisagem a contemplar,
sem responsabilidade.
Na verdade
é outra ilusão...
A necessidade de saber e de
agir nunca cessa;
vai durar
até o dia desse nosso ciclo
se fechar.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019
RÉVEILLON
Pela
primeira vez, em muitos anos, passei a última semana do ano em silêncio. Esse
silêncio que é uma folha em branco. Esse vazio do nada a dizer.
Pela primeira vez,
em muitos anos, passei os últimos dias do ano apenas rebatendo mecanicamente os
votos de Boas Festas, Feliz Futuro. Ecoei palavras repetitivas que - olhando
pra trás - tinham tanto significado antes, quando era outro o seu ponto de
partida: o coração. Pela primeira vez, em muitos anos, elas partiram do nada.
Pela primeira vez,
em muitos anos, não fiz a lista de todos àqueles a quem gostaria de
cumprimentar efusivamente, ainda que numa simples mensagem de final de ano. Pela
primeira vez, em muitos anos, dei preferência às fórmulas prontas sem retoques
nem acréscimos pessoais.
Pela primeira vez,
em muitos anos, passei os últimos dias do ano me afogando e me escondendo do
mundo; e de mim mesmo. Pela primeira vez, em muitos anos, começo um novo ano
sem rumo, sem planos, sem nenhuma certeza e repleto de desenganos, dúvidas,
sono...
Pela primeira vez, em muitos anos, olho no
espelho e não reconheço o ser humano.
Reflexão acerca da passagem de ano 2017-2018
[Adhemar - São Paulo,
01/01/2018]
terça-feira, 15 de janeiro de 2019
RECORTES
Silhueta envolta na toalha
passos macios à distância
uma sombra que se espalha
no contorno
através da luz recortada
É uma estranha circunstância
voz que soa entrecortada
penumbra e luz em alternância
no entorno
base lisa da figura esboçada
Névoa fina percebida
vai na luz e vai na sombra com seu brilho
esvoaçando livremente agradecida
no retorno
oculta o aparente andarilho
do espaço, do ar, da vida
Se caminha ou embala o seu filho
na velocidade indevida
embrulhada com papel colorido
como adorno
amarrada com fitilho...
[Adhemar - São Paulo, 30/07/2018]
passos macios à distância
uma sombra que se espalha
no contorno
através da luz recortada
É uma estranha circunstância
voz que soa entrecortada
penumbra e luz em alternância
no entorno
base lisa da figura esboçada
Névoa fina percebida
vai na luz e vai na sombra com seu brilho
esvoaçando livremente agradecida
no retorno
oculta o aparente andarilho
do espaço, do ar, da vida
Se caminha ou embala o seu filho
na velocidade indevida
embrulhada com papel colorido
como adorno
amarrada com fitilho...
[Adhemar - São Paulo, 30/07/2018]
domingo, 16 de dezembro de 2018
PORTAIS
Passagens abertas
Pernas pra frente
Passos acelerados
Obstáculos obscuros
Saltos ornamentais
Vibrações normais
Órbitas decididas
Certezas vacilantes
Portas entrefechadas
Balanços comovidos
Emoções controversas
Conversas cortadas
Fechaduras abertas
Travas deslocadas
Águas presentes
Pressentimentos aguados
Relógios marcantes
Tempo esmagado
Formas disformes
Uniformes diferentes
Sentidos desbotados
Bocas ausentes
Ardentes manobras
Obras escoradas...
[Adhemar - São Paulo, 21/12/2011]
Pernas pra frente
Passos acelerados
Obstáculos obscuros
Saltos ornamentais
Vibrações normais
Órbitas decididas
Certezas vacilantes
Portas entrefechadas
Balanços comovidos
Emoções controversas
Conversas cortadas
Fechaduras abertas
Travas deslocadas
Águas presentes
Pressentimentos aguados
Relógios marcantes
Tempo esmagado
Formas disformes
Uniformes diferentes
Sentidos desbotados
Bocas ausentes
Ardentes manobras
Obras escoradas...
[Adhemar - São Paulo, 21/12/2011]
sábado, 15 de dezembro de 2018
TATO
Desperto refém de sensações;
da ausência de alguém...
Alguém que não conheço
ou conheço e não sei quem.
Desperto
desatento
nessa busca por
ninguém.
Ninguém que eu
conheço
ou conheço:
será quem...?!
Desperto
concentrado
nessa ausência
de alguém
- quem sabe
quem -
não conheço ou
conheço e é alguém;
alguém que não
esqueço, mas não lembro:
me
emociona e vai além.
Desperto abraçado
na saudade dessa ausência
que é crueldade de alguém;
me conhece ou não conhece,
me tortura e me contém.
Desperto embevecido,
emocionado e
refém...
Desperto
preocupado
se esse alguém
tem me buscado,
procurado ou
esquecido
sem um guia,
sem ninguém.
Desperto desorientado nesse
vácuo;
vasto espaço, coração
desocupado...
Desperto
amargurado,
entristecido e
solitário,
vagabundo e
milionário
mas mendigo de
afago.
Desperto na
esperança,
no pra trás e
no passado.
Adormeço
abraçado
na saudade
dessa ausência...
Personagem
inventado
que nenhuma
importância agora tem...
[Adhemar - São Paulo, 26/05/2018]
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