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sábado, 4 de maio de 2019

PROFECIAS


Horas tantas,
uma voz misteriosa se levanta.
Cava, profunda, concentrada.
Altissonante, impressionante, enfeitiçada.
Escura, turva, convincente.
Falando coisas do futuro,
do que acontecerá no "mais pra frente".
Pisando duro.
Nauseando a tontura.
Sussurrando... assustadoramente...

Horas tantas,
a voz misteriosa e acachapante
não diz nada otimista, interessante.
Ecoando na escuridão absoluta
apenas intimida e condena.
Grita solitária sua certeza absoluta,
maltratando a inteligência
sem nenhuma pena.

Horas tantas...
Que não passam, não acabam.
Uma danação eterna, essa voz,
improdutiva, autoritária e algoz.
Uma voz impositiva,
de tonalidade arbitrária
que comanda a todos e é veloz...

Horas tantas,
sacrificadas prisioneiras dessa voz,
cruel e carcereira,
que adensa, imprensa e incendeia
o ânimo e o espírito,
dor atroz.

Essa voz,
que anuncia e pressagia o destino,
o final e a fantasia
do que somos...
e seremos...
todos nós.



[Adhemar - São Paulo, 07/10/2018]

terça-feira, 30 de abril de 2019

"SURTO-CIRCUITO"

Raios cintilantes.
Aquela "rachadura" azul no céu,
que brilha.
No céu ou no mel?
Abelhuda indagação.
Cabelos abobalhados,
pensamentos-raiz.

Centelhas rutilantes,
filhas da fusão.
Amor, diamantes, confusão.
Têmporas suadas.
Rubor nas mãos.
Pedras estranhas e abençoadas,
alimento, limão.
Ah! Palavras temperadas,
maré de vaguidão...
Barco à vela ao vento.
O leme é o coração.

No espaço,
outros planetas.
Órbitas, cometas,
estrelas decadentes...
A boca morta
mostra os dentes.
A miséria
mostra os doentes.
O fogo devora a mente,
as cinzas pedem perdão.
O Sol é um depoente,
a metáfora não.

Chuva sêca.
Falta luz na escuridão.


[Adhemar - São Paulo, 03/09/2018]

quinta-feira, 25 de abril de 2019

HEMORRAGIA

Sangro em tantos pontos
que nem tento estancar...
Choro tantas lágrimas...
Salgadas, misturadas ao sangue
que não para de escoar.
Fui vazado no peito, nas costas,
no rosto, nas mãos e nas pernas.
Fui coberto por esse manto vermelho
diluído na água dos olhos.
Água que não vai me lavar,
que não vai me livrar
das manchas de sangue que vão ficar.
Dói tanta coisa...
Nem sei onde começar...

Vista turva, pernas dormentes.
A dor mente,
é mais do que aparenta.
Sangro em tantos pontos,
doloridos, crispadas as mãos...
Choro um pranto tanto,
panos limpos...
Grito sem eco...
Escuto essa dor em silêncio,
o sangue escorrendo,
o pranto salgando...
Deito em desassossego.
Um desacerto desse "eu mesmo".
Tento dormir num sonho
de sangrar dolorido, 
o tempo inteiro...


[Adhemar - São Paulo, 29/08/2018]

segunda-feira, 15 de abril de 2019

ATRASAR

Queria mesmo, muito,
ter algo pra dizer agora.
Uma desculpa esfarrapada,
uma demora...

Queria mesmo, muito,
ter um abraço, um afago...
Um carinho qualquer guardado...
Queria, mesmo...

Também queria - mesmo, muito - 
agradecer, enaltecer, aplaudir...
Ter um presente improvisado,
merecido, escolhido...

São tantos quereres acumulados...
Engasgados, atrapalhados,
amontoados e dispersos...
Alguns em prosa, alguns em versos...

Queria mesmo, muito,
outro destino, outro desenlace;
mas fico aqui, parado,
sem uma senha, sem um  passe.

Queria muito, e tanto,
que me perco neste desencanto.
Conspiração do Universo:
meio fracassada, meio que sucesso.

Também queria, mesmo, muito,
saber mais palavras pra cantar meu canto,
pra escrever meu verso.
Saber mais coisas pra viver um tanto,
um pouco mais desse amor tão curto.

Queria... muito pouco,
dizer adeus, já vai, já vou...
Me atrasar para o aeroporto
e, exatamente, perder o vôo...


[Adhemar - São Paulo, 25/09/2018]

sábado, 6 de abril de 2019

Renovação.

Parece que algo ligado à fé será um acontecimento inevitável; simples questão de tempo. Basta uma crença verdadeira com base em autêntica e espontânea convicção. O fato, o desenlace desejado ao alcance das mãos, desde que se tenha efetuado o alicerce, o ponto de início do processo. A intenção tornada em atos, em passos; concentração.

Algo assim passa ao largo das intempéries, das interferências, da improvisação. Ousadia e aplauso para mais do que só intenção.


[Adhemar - São Paulo, 06/04/2012]

domingo, 17 de março de 2019

PRISMA

Se de uma lágrima pingente
surgir uma mensagem linda;
multiplicada em cores,
decomposta pela gota prisma
eu quero tê-la.
Ou, se puder, quero fazê-la.
Se cada página poesia 
fosse uma gota de lágrima,
tantos prismas haveria;
tantas mensagens,
um oceano de palavras coloridas
a te cercar feito a uma ilha...

Se de uma umidade tímida
surgir a cristalina gota de um olho;
olho-espelho do interior confuso
e embaraçado peito,
quero retê-la.
Ou, se puder, interpretá-la,
pois cada pétala de flor é um poema
de mil significâncias lindas,
pois em todos os teus olhos espelhados se refletem
como uma tímida gota de orvalho.

Se do mais inesperado gesto
surgir esculpida uma emotiva atitude;
endereçada à virtude de amar ainda,
quero guardá-la.
Pois se o futuro, confundido com o destino, 
reservar passagem na celestial passada desta fase,
levo comigo o revoar tão belo
do teu olhar perdido
no infinito pôr-do-sol que,
dele refletido,
vem recriar uma lágrima pingente
cuja umidade tímida
faz com que eu faça,
em teu direito, 
o inesperado e previsível gesto.

Raio de sol na lágrima-orvalho,
um prisma colorido.


P/ BSF
[São Paulo, 17 de junho de 1988]

segunda-feira, 11 de março de 2019

ROMPIMENTO

          Uma vida é um livro em capítulos. Ou, é uma obra em vários tomos. Temo que o volume atual que estamos vivendo esteja em seu epílogo.

          Finalmente foi rompido o silêncio. O desnecessário silêncio do desentendimento. Foi rompido para se assinar um tratado. A linha de Tordesilhas de um descasamento. Foi decidido o futuro, desalinhado, descosido e bifurcado. Cada um com um novo mato numa trilha diferente, independente. Cada um com saudades na mochila; mas, pra frente.

          Este livro acaba num capítulo de promessas rompidas. Interrompidas... Pela sanidade e provimento. Provimento do respeito que não deve ser perdido. Venha lá outro volume desta obra inacabada. Aliás, dois volumes agora... A história desdobrada. A história de cada um sendo contada em separado. Cada um em um novo livro, com novas aventuras, o teste do que somos capazes sem o apoio da metade arrancada: sim, arrancada. Mesmo cordialmente, mesmo consensual é dolorida, é estranha... Mesmo há tanto tempo anunciada é atroz, inesperada... 

          Vamos ter que nascer outra vez para viver de forma errada. Pois que sim; eu, sem você, não sou mais nada.


P/ SM
[Adhemar - São Paulo, 21/01/2018]

sexta-feira, 8 de março de 2019

MAIS... MAR...

Foto de Arquivo (Archillect)


Tentei conter a lembrança,
reter na memória o teu olhar...
Mas, sucumbi à tristeza
dessas coisas mais difíceis de lembrar.

A voz silenciada,
contida na mais profunda dor,
afogada numa onda rasa
que levou o teu amor...

Tentei conter a saudade
que faz esse barco se afastar...
Mas, sucumbi à tristeza
dessas coisas mais difíceis de aguentar.

Tentei ressuscitar
os momentos mais felizes que vivi só.
Mas, todos eles afundaram
nessa maré de paixão que foi você...

Agora, içando as velas,
não vejo a hora de zarpar.
Ir para bem longe
outras terras desbravar...

Tentei chorar de novo,
pra subir essa maré que foi você;
e afogar tanto sentimento que 'inda resta,
mas, que eu nem sei aonde colocar...

Vai comigo,
qual bagagem indispensável;
vai me seguir pra sempre,
para onde quer que eu vá...


[Adhemar - São Caetano do Sul, 08/03/2019]

sábado, 16 de fevereiro de 2019

SABEDORIA

Nascer.
Vir do conforto absoluto para o ambiente hostil do mundo.
Hostil, no sentido de contraste.
Ao ar livre, já não depender
do oxigênio em via líquida
que nos chegava pronto.

Chorar.
Chorar para aprender
que a vida não é fácil
e para aprender a respirar,
tirar do ar o mesmo oxigênio
que nos chegava pronto...

Chorar,
porque de repente a fome se manifesta,
um vazio ardente que antes não existia nos invade.
E sugar o leite porque,
se não movimentarmos os lábios
por nossa própria conta,
ele não vem.

Chorar,
quando algo sai de nós e incomoda,
queima a pele e cheira mal,
nas coxas pelo lado interno e nas nádegas...
Chorar até a aparição reconfortante
daquele risonho semblante,
que aparece preocupado em nosso campo de visão
pra nos limpar e acalmar.
O mesmo que nos tinha alimentado...

Chorar,
quando essa visão reconfortante
do nosso porto seguro está distante;
e ansiamos que ela volte pra nos carregar...
E vai nos carregar cada vez menos...
Falar, andar, interagir...
Entender esse mundo hostil fora do lar,
cada vez mais 
e mais urgentemente.

Acordar,
um dia e de repente,
já sabendo tantas coisas,
conhecendo tanta gente.

Estudar,
querendo saber mais
do passado e do pra frente...
Observar o mundo ir diminuindo,
progressivamente,
enquanto ficamos maiores,
mais espertos,
presumivelmente...

Amar,
já não mais só o amor geral,
ou familiar,
mas descobrir um outro ser
com quem você quer ficar
alguns momentos ou pra sempre...

Voar, 
achando que já sabemos tudo,
desprezando o passado
como se houvesse só o presente.
Achar que a maturidade pode ser entusiasmante
e, sem perceber,
ir ficando displicente...
Desperdiçar tanta energia importante
em coisas sensacionalmente superficiais;
ou tão irrelevantes
que chegam a ser sensacionais...

Viver
tantas realidades mescladas de ilusão.
Olhar pra trás confiante,
cheio de sabedoria e sensação.
Mas,
um belo dia vai chegar,
encararemos nossas próprias mãos.
Será o dia de pesar prós e contras,
ruins e bons,
respirar imaginando se valeu a pena,
avaliando ações, sentimentos,
luz e sons.

Aspirar
uma tranquilidade de paisagem a contemplar,
sem responsabilidade.
Na verdade
é outra ilusão...
A necessidade de saber e de agir nunca cessa;
vai durar
até o dia desse nosso ciclo se fechar.


[Adhemar - São Paulo, 16/02/2019]

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

RÉVEILLON

          Pela primeira vez, em muitos anos, passei a última semana do ano em silêncio. Esse silêncio que é uma folha em branco. Esse vazio do nada a dizer.
          
Pela primeira vez, em muitos anos, passei os últimos dias do ano apenas rebatendo mecanicamente os votos de Boas Festas, Feliz Futuro. Ecoei palavras repetitivas que - olhando pra trás - tinham tanto significado antes, quando era outro o seu ponto de partida: o coração. Pela primeira vez, em muitos anos, elas partiram do nada.

Pela primeira vez, em muitos anos, não fiz a lista de todos àqueles a quem gostaria de cumprimentar efusivamente, ainda que numa simples mensagem de final de ano. Pela primeira vez, em muitos anos, dei preferência às fórmulas prontas sem retoques nem acréscimos pessoais.

Pela primeira vez, em muitos anos, passei os últimos dias do ano me afogando e me escondendo do mundo; e de mim mesmo. Pela primeira vez, em muitos anos, começo um novo ano sem rumo, sem planos, sem nenhuma certeza e repleto de desenganos, dúvidas, sono...

Pela primeira vez, em muitos anos, olho no espelho e não reconheço o ser humano.


Reflexão acerca da passagem de ano 2017-2018
[Adhemar - São Paulo, 01/01/2018]