Pesquisar este blog

sábado, 8 de junho de 2019

MOTIVO


Eu canto porque o instante existe
E a minha vida está completa
Não sou alegre nem sou triste,
sou poeta

Irmão das coisas fugidias
Não sinto gozo nem tormento
Atravesso noites e dias
no vento

Se desmorono ou se edifico
Se permaneço ou me desfaço
Não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo

Eu sei que canto; e a canção é tudo
Tem sangue eterno a asa ritmada
E um dia eu sei que estarei mudo:
mais nada


Cecília Meireles
(Fonte: www.escritas.org)

https://youtu.be/TMxpeEnJIzU

segunda-feira, 3 de junho de 2019

JOGO IMPROVÁVEL

Dúvidas, espera.
Pensamentos indecisos,
atitudes incompletas,
hesitação que desespera.
Afirmações inconclusas,
indecisão, incerteza.

Lançamento à sorte
na face da esfera.
Indefinição, escolhas.
Escolta em descaminhos:
outras bolhas,
flutuantes esperanças de sabão.

Nuvens de espuma, 
uma inconsistente situação.
O sorriso irresoluto,
irresponsável, efetivo.
Gás vazando do balão;
mal resolvido,
de incapacidade e rendição.


[Adhemar - São Paulo, 13/10/2011]

quinta-feira, 30 de maio de 2019

AGOSTO

Procuro um pequeno verso que diga tudo
não seja mudo
não fuja tímido
Que não deixe passar Agosto
sem ao menos fazer um aceno
acender uma luz
guiar sereno

Procuro um pequeno verso que traga vento
movimento
não seja frio
não deixe passar Agosto
sem ao menos mostrar-se em tela
aparecer
falar com ela...

Procuro um pequeno verso que seja forte
que tenha sorte
que tenha tudo
e que não deixe passar Agosto
sem um sorriso
em pleno campo
e com juízo...

Procuro um pequeno verso que seja alegre
que traga o riso
certeza breve
de não deixar passar Agosto
de mãos vazias
na fome do amor ausente
no canto da flor da fonte

Procuro um pequeno verso objetivo
atraente
interessante
Que não deixe passar Agosto
por faltar algo
que seja amplo
que seja amigo

Procuro um pequeno verso que me apresente
Que não deixe passar Agosto
de repente,
assim pura e simplesmente...


[Adhemar - São Paulo, 30/05/2019]

sábado, 18 de maio de 2019

"MALACABADA"

Ela chegou mais triste,
mais magra do que eu me lembrava;
cheia de história e filhos.
Ela chegou mais gestos dos que eu amava.

Ela chegou de leve,
solícita e delicada;
a bordo de uma cor "nunca-foi-neve",
macia e adocicada.
Apresentou um riso
tipo nostalgia breve.

Ela chegou serena,
altiva e organizada.
A voz sumida e límpida.
Chegou trazendo pequena
uns versos esquecidos,
suavemente "deslembrada".

Ela chegou, fingiu, jogou,
perdeu e se retirou;
ainda triste, mas, confortada.


[Adhemar - São Paulo, 04/05/2012]

quarta-feira, 15 de maio de 2019

GEOMETRIA

Das linhas, dos espaços
esboços fracos
reforço em traços
pintura em áreas típicas
das curvas, dos regatos
o som dos desenhos
sugeridos, emanados

Gestos espontâneos
desenho orgânico
traço harmônico

Concentração desvanecida
imerso o pensamento
em outra vida...

Mãos firmes ou trêmulas
meio, mensagem, fato.
O desenho acabado
feito um retrato
feito um poema
uma rima sem contrato

O papel em sua essência
a matemática ciência
o extrato

Extrato como significado
o estado final
o resultado
como se tudo fosse normal
três dimensões ou desenhado

A boca alinhada
vai fechada em ricto;
linha fina torcida
ou ondulada
feito um gráfico
em ondas vai representada

Olhos em foco
pontos de fuga da perspectiva
desenhando forma ativa
traços firmes
gestos dirigidos

Toda forma aleatória
mas pré-concebida
raio de circunferência

Círculos concêntricos
pedra no lago
cara do palhaço
traço sério
riscos assumidos

A volta do trapézio
quadrado entortado
das linhas, dos espaços
perdidos traços
desperdiçados na figura do abstrato
absorvidos no centro do prato...

Fim da fome
no desenho do outro lado...


[Adhemar - São Paulo, 14/05/2018]

segunda-feira, 6 de maio de 2019

SOSSEGA, CORAÇÃO!



Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.


 Fernando Pessoa
[Fonte: www.pensador.com]

sábado, 4 de maio de 2019

PROFECIAS


Horas tantas,
uma voz misteriosa se levanta.
Cava, profunda, concentrada.
Altissonante, impressionante, enfeitiçada.
Escura, turva, convincente.
Falando coisas do futuro,
do que acontecerá no "mais pra frente".
Pisando duro.
Nauseando a tontura.
Sussurrando... assustadoramente...

Horas tantas,
a voz misteriosa e acachapante
não diz nada otimista, interessante.
Ecoando na escuridão absoluta
apenas intimida e condena.
Grita solitária sua certeza absoluta,
maltratando a inteligência
sem nenhuma pena.

Horas tantas...
Que não passam, não acabam.
Uma danação eterna, essa voz,
improdutiva, autoritária e algoz.
Uma voz impositiva,
de tonalidade arbitrária
que comanda a todos e é veloz...

Horas tantas,
sacrificadas prisioneiras dessa voz,
cruel e carcereira,
que adensa, imprensa e incendeia
o ânimo e o espírito,
dor atroz.

Essa voz,
que anuncia e pressagia o destino,
o final e a fantasia
do que somos...
e seremos...
todos nós.



[Adhemar - São Paulo, 07/10/2018]

terça-feira, 30 de abril de 2019

"SURTO-CIRCUITO"

Raios cintilantes.
Aquela "rachadura" azul no céu,
que brilha.
No céu ou no mel?
Abelhuda indagação.
Cabelos abobalhados,
pensamentos-raiz.

Centelhas rutilantes,
filhas da fusão.
Amor, diamantes, confusão.
Têmporas suadas.
Rubor nas mãos.
Pedras estranhas e abençoadas,
alimento, limão.
Ah! Palavras temperadas,
maré de vaguidão...
Barco à vela ao vento.
O leme é o coração.

No espaço,
outros planetas.
Órbitas, cometas,
estrelas decadentes...
A boca morta
mostra os dentes.
A miséria
mostra os doentes.
O fogo devora a mente,
as cinzas pedem perdão.
O Sol é um depoente,
a metáfora não.

Chuva sêca.
Falta luz na escuridão.


[Adhemar - São Paulo, 03/09/2018]

quinta-feira, 25 de abril de 2019

HEMORRAGIA

Sangro em tantos pontos
que nem tento estancar...
Choro tantas lágrimas...
Salgadas, misturadas ao sangue
que não para de escoar.
Fui vazado no peito, nas costas,
no rosto, nas mãos e nas pernas.
Fui coberto por esse manto vermelho
diluído na água dos olhos.
Água que não vai me lavar,
que não vai me livrar
das manchas de sangue que vão ficar.
Dói tanta coisa...
Nem sei onde começar...

Vista turva, pernas dormentes.
A dor mente,
é mais do que aparenta.
Sangro em tantos pontos,
doloridos, crispadas as mãos...
Choro um pranto tanto,
panos limpos...
Grito sem eco...
Escuto essa dor em silêncio,
o sangue escorrendo,
o pranto salgando...
Deito em desassossego.
Um desacerto desse "eu mesmo".
Tento dormir num sonho
de sangrar dolorido, 
o tempo inteiro...


[Adhemar - São Paulo, 29/08/2018]

segunda-feira, 15 de abril de 2019

ATRASAR

Queria mesmo, muito,
ter algo pra dizer agora.
Uma desculpa esfarrapada,
uma demora...

Queria mesmo, muito,
ter um abraço, um afago...
Um carinho qualquer guardado...
Queria, mesmo...

Também queria - mesmo, muito - 
agradecer, enaltecer, aplaudir...
Ter um presente improvisado,
merecido, escolhido...

São tantos quereres acumulados...
Engasgados, atrapalhados,
amontoados e dispersos...
Alguns em prosa, alguns em versos...

Queria mesmo, muito,
outro destino, outro desenlace;
mas fico aqui, parado,
sem uma senha, sem um  passe.

Queria muito, e tanto,
que me perco neste desencanto.
Conspiração do Universo:
meio fracassada, meio que sucesso.

Também queria, mesmo, muito,
saber mais palavras pra cantar meu canto,
pra escrever meu verso.
Saber mais coisas pra viver um tanto,
um pouco mais desse amor tão curto.

Queria... muito pouco,
dizer adeus, já vai, já vou...
Me atrasar para o aeroporto
e, exatamente, perder o vôo...


[Adhemar - São Paulo, 25/09/2018]