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sábado, 21 de setembro de 2019

SOUVENIR

De tanto ficar deitado
o corpo todo doeu
De tanto desencontrar
o que se devia falar se escreveu

Mal entendido
quanto mais explicado
mais confundido
mais complicado

Esperar uma palavra qualquer
ou no correio - que viesse escrita -
ou no telefone - para ser ouvida -
era bom ter
Até na janela, se chegasse bonita
entrando aqui
pra gente se entender

Agora, nada disso é possível
Só em sonho, poesia ou histórias
Mas enfim, pode crer, foi incrível
te gostar, te perder, te segurar na memória...



[P/ BSF]
[Adhemar - São Paulo, 19/09/1987]

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

DECEPÇÃO À ESPREITA



Noite pior que escura:
mal iluminada.
Te vejo em várias esquinas;
mas...
Sempre acompanhada.
Acompanhada
muito mais do que só por suas pernas esguias,
bem torneadas...
Acompanhada, sempre,
por uma sombra mal delineada.
Uma sombra, 
de rua mal iluminada.
Uma espécie de aura
- maldita ou abençoada - 
que te protege e te acompanha,
me evita e te salva.

Noite pior que escura:
cheia de solidão...
e de Nada.



[Adhemar - São Paulo, 28/02/2017]

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

CRACHÁ

Identidade, DNA.
Desenho no espaço.
Brilho de estrela.
Papel, cartão, carteira.
Persona, VIP.
Número na lista.
Ideário.
Filosofia.
Mal traçadas linhas.
Querido diário...
Ideologia.
Metáforas.
Analogia.
O time.
A profissão e todas as preferências.
Caráter.
A roupa.
Cabelo e sorriso.
A letra, a caligrafia.
O jeito de andar.
O grau dos óculos.
O grau da miopia...
O que come.
O que fala.
O jardim.
A pausa entre um olhar e outro.
O gesto.
Aceno e abraço.
Pensamento secreto.
Vida paralela (no imaginário).
Ser e estar.
Passaporte.
Lugar, lugares.
E a foto.


[Adhemar - São paulo, 25/11/2011]

sábado, 31 de agosto de 2019

SOBREVIVÊNCIA E CAOS

Qual o caos que te comove?
Em quais cais ancorarás?!
Se a canção caução envolve
em qual calçada andarás?

Vamos louvar esse love
que onde more morrerá
completo e pleno de glória;
em que estado estará
quando vier a vitória?

Em seu humor louvará
dizendo "isto é história"
estando e enfrentando
luta disputa será.

Truque na troca da escória
em forno forte restará
base da bossa e da chama
pavio em cera será.

Não viu navio ancorado
coragem viva vencerá.
Por toda a noite anotando
o vencido convencimento,
dando um alô ao alento
num doce descendo.

Se por acaso acabar
o amor aumentando
o volume velará
vela ao vento voltando
da viagem que fará.

Segue a Deus o adeus
que se despirá despistando
os cacos dodecafônicos 
dos cacófatos se espalhando...


[Adhemar - São Paulo,15 a 31/08/2019]

sábado, 24 de agosto de 2019

ARREMEDO


Não só de belas palavras vive a poesia
Nem só de rotina vive o dia-a-dia
Bombeiros são enchentes, são incêndios,
E os livros são figuras, além das palavras...

Além do sentido expresso há os ocultos
Além do sentimento vive o pulso
Médicos não curam romantismo agudo
E as enciclopédias são um testemunho mudo...

A mente carrega seus compêndios
Os marinheiros somem, mar adentro
Os navios talvez naveguem ou afundem
E o horizonte é mais que a linha ao longe...



[Adhemar – São Paulo, 12/12/2008]


CARICATURA

Texto iniciado na data assinada, mas cuja última estrofe foi redigida em 01/04/2010... Parece mentira... Um ano e quase quatro meses perdido no meio de um caderno pra afundar, mar adentro, antes da linha ao longe!

Adh – 24/08/2019

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

APOSTA


Aposta, um jogo;
repetitivo, perigoso.
Sílabas entrecortadas
num blefe desastroso.
Nova aposta,
cacife estourado.

Um olhar enviesado,
um uísque derramado;
honra arranhada.
Dinheiro esgotado,
paciência acabada.
Um decote indecoroso,
um olhar admirado
no meio da tensão criada.

A criada dá as costas,
sai da sala indiferente 
ao destino do jogador mais destemido:
idiota e atrevido
que vai perder a vida,
por nada.
Nem ganhou no jogo,
nem arrumou namorada.
Está com uma arma na cara
e, mesmo assim, sobe a aposta:
quem sabe, uma última cartada...?!


[Adhemar - São Paulo, 28/02/2017]

sábado, 17 de agosto de 2019

IBÉRICOS


Quando eu for andar em terras de El Rey
Quero ver tudo que a vista possa alcançar,
Inda que das lusitanas fronteiras ir além,
Espanha e outras d’além mar.

Nessa Lisboa do Chiado ao Alcazar
No Porto e suas pontes evidentes
Na Galícia de Espanha um português a escutar
E castanholas também, logicamente.

De Belém degustar uns pasteizinhos
E da península bons vinhos
Como em nenhum lugar ‘inda se viu
E, quem sabe, numa sorte comezinha,
Nunca mais hei de voltar para o Brasil...


[Adhemar - São Paulo, 13/02/2014]


IBÉRICOS DELÍRIOS

Logo eu, que amo tanto isto aqui...

Adh, 17/08/2019

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

QUENTURA

Num súbito calor, acordar.
Pele e sensações se estranhando,
ardores misturados com emoções.
Lágrimas contidas.
Saudade derrubada da cama,
jaz ali, estirada no chão.
O coração aos pulos,
em batidas apressadas,
enquanto as mãos seguram o suor.

Súbita febre, semiconsciência.
Um formigamento pelo corpo,
interestelar...!
Poeira cósmica ralada,
de tantos sentimentos sem conflitos,
sem contradições:
apenas sentimentos.

Fotos sem foco,
que num súbito calor te fazem acordar.
O corpo todo efervescendo,
ressuscitando dos sonhos,
do torpor de amar...
Como se a cama, uma piscina,
servisse apenas para esse... mergulhar...
Insano mas autêntico
ao ponto de nos desorientar;
porque ao sentir essa febre,
esse calor,
não saber se a gente ainda está dormindo
ou se acorda pra sonhar...


[Adhemar - São Paulo, 13/08/2019]

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

ELO... QUENTE!

Tomar uma coca-cólica
ou um gim túnica
é uma viagem única
é uma triagem cínica

Vestir um brim cadeira
é um quedar cansado
estar um nu apelado
é uma voltagem tônica

Aguardar numa fila harmônica
só tomando um chá pardo
onde quem diz "crime e nado"
é um homem nauseado

Por fim pegamos quem mede-se
protegendo mal às artes
pra comprar terra à crédito
pra revender terra à vista

Pra vigiar sua avezinha
mantendo-se com postura
no rasgo que se costura
e procurar: cadê linha?

O bafo de quem tomou vinho
na ressaca puxada
vendo que a tartaruga começa
onde o jabuti 'caba... 


[Adhemar - São Paulo, 05/08/2014]


Ex... pelos

Associação aleatória de cacófatos.

Adh, 01/08/2019

domingo, 28 de julho de 2019

MARIONETES

[Imagem: do blog "ENTRADA FRANCA - Reflexões Sociais e Políticas" (Paula Rosa)]


Fios tensos conduzem
mas prendem
O que importa saber
é quem os comanda
O que importa entender
é se permitimos ou não... nos levar

Fios invisíveis
que sabemos coloridos
contradição... transparente
Fantoches, fantasmas
O que importa saber
é se somos conscientes
inconsistentes
ou persistentes

Fios tensos...
mas limitam
O que importa saber
é se permitimos estender
ou pendurar
panos neles
ou contas
ou desafios
ou descontos

Fios tortos 
intensos
O que importa saber
é se eles conseguem reter
as gotas do orvalho
para dividirem a luz
O que importa saber
é se eles te mostram os atalhos
ou se vão te largar de repente
te amarrar e te prender



[Adhemar - São Paulo, 25/01/2019]