Pesquisar este blog

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

DÍVIDA

O crediário é um futuro comprometido.
O compromisso te obriga a continuar vivendo.
A vida te leva pelo desconhecido.
O desconhecido te faz ir aprendendo.
O aprendizado te mostra a vida e te abre os olhos.
O olhar te ensina o bonito e o feio.
A feiura te ensina respeito.
O respeito vai tirar você do devaneio.
O devaneio pode ser o sonho possível. 
O possível te leva a querer mais.
Querer mais te bota num dilema:
"desisto ou me endivido?"
A dívida é um crediário.
O crediário é um futuro comprometido.
A promessa te consome, te devora.
Devorado, você se desespera e apavora.
Apavorado, paralisa os sentidos.
O sentimento te machuca e atordoa.
Atordoado, você se compromete.
Comprometido, se confunde e não pensa.
Não pensando você conclui sozinho que,
sozinho, só é mais um cretino.


[Adhemar - São Paulo, 16/07/2019]

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

COTIDIANO

Ontem foi um dia estranho,
como todos os dias tem sido estranhos.
Estranhos dentro de cada um
pois o lado de fora
é igual ao lado de fora de ontem.
Hoje está tão estranho como ontem
e como amanhã será.
Obrigado por acender a luz.

Outra coisa estranha
pois que hoje está chovendo.
Ontem também choveu
e isso é até normal.
Embora tudo o que seja normal,
atualmente,
seja um pouco estranho.
Estranho e suspeito.

Desde muito tempo que tudo está assim,
estranhamente monótono e cansativo.
Como andar em círculos
e respirar o vapor da chuva fria.

Estranho é estar sozinho,
estranho é estar sozinho,
estranho é estar sozinho.
Em dias assim, tão iguais,
dentro e fora da gente.


[P/ BSF]
[Adhemar - São Paulo, 17/03/1988]

terça-feira, 8 de outubro de 2019

VOUCHER


Eu que pensei... 
ousei pensar!
Que aprendera a interpretar o silêncio.
Que saberia, das palavras a ausência
o que elas desejariam significar...
Julguei poder oferecer
esse pouco que sou, como sou,
para quem quisesse conhecer - e apreciar -
com uma certa riqueza de razão.

Ousei pensar,
não sem uma certa emoção,
que haveria de encontrar
uma outra alma aventureira
que se se atreveria a se atirar
sem rede nem proteção
nesse imenso abismo confortável
de mãos dadas e sorrisos...

Ousei pensar
que cavaria por abrigos
a quatro mãos...
Que haveria de dormir - e levantar - 
no calor da companhia
dessa aventureira alvissareira,
maravilhosa e faceira.
Que compartilharia alguns momentos
- ainda que de poucos tempos - 
nessa empresa com um sócio dedicado...

Ousei pensar 
que não seria mais uma ilusão...


[Adhemar - São Paulo, 16/07/2019]


domingo, 6 de outubro de 2019

GARRAFA

Imerso no silêncio
contemplo o mar imenso.
Quantas mensagens engarrafadas,
afogadas,
perdidas, errantes,
nunca interpretadas...

Cinza azul amarelado do poente.
Melancólica nostalgia
por essas mensagens,
engarrafadas,
que se perderam,
jamais lidas...

Imerso na saudade
dessas mensagens nunca encontradas
penso... Penso nas poesias...
Quantas poesias escritas
perdidas, errantes,
jamais lidas...

Quantas palavras perdidas
em pedidos de socorro e declarações de amor,
em lamentos inúteis e celebrações exaltadas,
engarrafadas,
imersas nesse mar imenso

de saudade e de silêncio...


[Adhemar - São Paulo, 27/09/2018]

sábado, 21 de setembro de 2019

SOUVENIR

De tanto ficar deitado
o corpo todo doeu
De tanto desencontrar
o que se devia falar se escreveu

Mal entendido
quanto mais explicado
mais confundido
mais complicado

Esperar uma palavra qualquer
ou no correio - que viesse escrita -
ou no telefone - para ser ouvida -
era bom ter
Até na janela, se chegasse bonita
entrando aqui
pra gente se entender

Agora, nada disso é possível
Só em sonho, poesia ou histórias
Mas enfim, pode crer, foi incrível
te gostar, te perder, te segurar na memória...



[P/ BSF]
[Adhemar - São Paulo, 19/09/1987]

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

DECEPÇÃO À ESPREITA



Noite pior que escura:
mal iluminada.
Te vejo em várias esquinas;
mas...
Sempre acompanhada.
Acompanhada
muito mais do que só por suas pernas esguias,
bem torneadas...
Acompanhada, sempre,
por uma sombra mal delineada.
Uma sombra, 
de rua mal iluminada.
Uma espécie de aura
- maldita ou abençoada - 
que te protege e te acompanha,
me evita e te salva.

Noite pior que escura:
cheia de solidão...
e de Nada.



[Adhemar - São Paulo, 28/02/2017]

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

CRACHÁ

Identidade, DNA.
Desenho no espaço.
Brilho de estrela.
Papel, cartão, carteira.
Persona, VIP.
Número na lista.
Ideário.
Filosofia.
Mal traçadas linhas.
Querido diário...
Ideologia.
Metáforas.
Analogia.
O time.
A profissão e todas as preferências.
Caráter.
A roupa.
Cabelo e sorriso.
A letra, a caligrafia.
O jeito de andar.
O grau dos óculos.
O grau da miopia...
O que come.
O que fala.
O jardim.
A pausa entre um olhar e outro.
O gesto.
Aceno e abraço.
Pensamento secreto.
Vida paralela (no imaginário).
Ser e estar.
Passaporte.
Lugar, lugares.
E a foto.


[Adhemar - São paulo, 25/11/2011]

sábado, 31 de agosto de 2019

SOBREVIVÊNCIA E CAOS

Qual o caos que te comove?
Em quais cais ancorarás?!
Se a canção caução envolve
em qual calçada andarás?

Vamos louvar esse love
que onde more morrerá
completo e pleno de glória;
em que estado estará
quando vier a vitória?

Em seu humor louvará
dizendo "isto é história"
estando e enfrentando
luta disputa será.

Truque na troca da escória
em forno forte restará
base da bossa e da chama
pavio em cera será.

Não viu navio ancorado
coragem viva vencerá.
Por toda a noite anotando
o vencido convencimento,
dando um alô ao alento
num doce descendo.

Se por acaso acabar
o amor aumentando
o volume velará
vela ao vento voltando
da viagem que fará.

Segue a Deus o adeus
que se despirá despistando
os cacos dodecafônicos 
dos cacófatos se espalhando...


[Adhemar - São Paulo,15 a 31/08/2019]

sábado, 24 de agosto de 2019

ARREMEDO


Não só de belas palavras vive a poesia
Nem só de rotina vive o dia-a-dia
Bombeiros são enchentes, são incêndios,
E os livros são figuras, além das palavras...

Além do sentido expresso há os ocultos
Além do sentimento vive o pulso
Médicos não curam romantismo agudo
E as enciclopédias são um testemunho mudo...

A mente carrega seus compêndios
Os marinheiros somem, mar adentro
Os navios talvez naveguem ou afundem
E o horizonte é mais que a linha ao longe...



[Adhemar – São Paulo, 12/12/2008]


CARICATURA

Texto iniciado na data assinada, mas cuja última estrofe foi redigida em 01/04/2010... Parece mentira... Um ano e quase quatro meses perdido no meio de um caderno pra afundar, mar adentro, antes da linha ao longe!

Adh – 24/08/2019

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

APOSTA


Aposta, um jogo;
repetitivo, perigoso.
Sílabas entrecortadas
num blefe desastroso.
Nova aposta,
cacife estourado.

Um olhar enviesado,
um uísque derramado;
honra arranhada.
Dinheiro esgotado,
paciência acabada.
Um decote indecoroso,
um olhar admirado
no meio da tensão criada.

A criada dá as costas,
sai da sala indiferente 
ao destino do jogador mais destemido:
idiota e atrevido
que vai perder a vida,
por nada.
Nem ganhou no jogo,
nem arrumou namorada.
Está com uma arma na cara
e, mesmo assim, sobe a aposta:
quem sabe, uma última cartada...?!


[Adhemar - São Paulo, 28/02/2017]